Governo da Espanha inicia privatização do sistema de saúde

Medida vai atingir cerca de 1,5 milhão de espanhóis que eram atendidos pelo serviço público

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h03

Orgulho da Espanha por décadas, a saúde começa a ser privatizada para conter gastos púbicos. Ontem, o governo de Madri promoveu a maior privatização do setor da saúde da história democrática da Espanha, atingindo pelo menos 1,5 milhão de pessoas que eram atendidas no serviço público na capital do país. A privatização faz parte da estratégia do governo da região de reduzir a dívida do Estado.

O governo central europeu já havia anunciado o fim do atendimento gratuito para imigrantes vivendo de forma irregular na Espanha. Ontem, foi a vez do governo da região de Madri dar início à privatização dos centros de atendimento. Com uma maioria do Partido Popular no poder, a lei de privatização foi aprovada com folga.

Num esforço para evitar a privatização, funcionários de hospitais promoveram cinco semanas de greves, anulando 6 mil operações e 40 mil consultas. Ontem, centenas deles entregaram suas cartas de renúncia, em um ato de protesto. A meta era a de forçar o governo a entregar os hospitais e centros de atendimentos vazios aos novos proprietários. As autoridades acusaram médicos de "abusar" do direito de greve e garantiram que as vagas serão preenchidas rapidamente.

A partir de janeiro, os hospitais e centros de atendimento privatizados serão administrados por empresas que poderão determinar como vão cobrar pelos serviços. Em dois anos, os cortes nos orçamentos de saúde, educação e outros gastos sociais já somam 14 bilhões, apenas na Espanha.

Segundo as autoridades de Madri, protestos, greves e manifestações custaram à cidade 0,5% do PIB em 2012, cerca de 1,7 bilhão.

Prejuízo. Milhares de pequenos investidores e aposentados ainda sofreram um duro golpe ontem ao perderem praticamente todos os investimentos que haviam feito em ações de bancos espanhóis. Os papéis do Bankia perderam mais de 19% após o anúncio de prejuízos de 4,15 bilhões e de perdas na holding, a BFA, de 10,44 bilhões. Ao final do dia, a instituição foi retirada de forma indefinida do índice Ibex 35, que reúne as maiores empresas da Espanha cotadas na bolsa. Já o Banco de Valencia chegou a perder 21% nas bolsas ontem, diante da constatação dos prejuízos.

A avaliação foi feita pelo Fundo Ordenado de Reestruturação Bancária do governo da Espanha, que constatou que esses bancos tinham "valores negativos". A previsão é de que o pacote de resgate para os quatro bancos espanhóis fosse liberado pela UE e pelo FMI ainda hoje.

No caso do Bankia, porém, a realidade é que 350 mil acionistas serão deixados sem qualquer resgate. Durante anos, o banco fez uma ampla campanha de marketing para atrair acionistas, incluindo pensionistas.

O Bankia deve receber 18 bilhões em resgate. Mas o plano prevê que o dinheiro será usado para cobrir as perdas, e não garantir retorno de investimentos aos acionistas. Para muitos, isso significa abrir mão de todos os investimentos feitos. Pelos planos da UE, os acionistas deverão ser os primeiros na fila a aceitar as perdas.

Desde 2011, as ações do banco já perderam 80%.

Em julho de 2011, as ações do Bankia eram vendidas por 3,75. Naquele momento, o banco insistia que tinha um capital de mais de 10 bilhões. Ontem, as ações valiam apenas 0,58 com a constatação de que o buraco é bem mais profundo..

Já o Banco de Valencia, outro que foi estatizado, chegou a perder 21% de suas ações depois do anúncio de que seu buraco era de 6,3 bilhões. Os dois bancos, além do Catalunya Banc e NCG Banc, receberão nos próximos dias cerca de 37 bilhões.

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