Governo dará ''sustos'' no mercado para conter câmbio

Equipe econômica ainda pode usar o Fundo Soberano do Brasil e operações no mercado futuro para combater a valorização do real

Fabio Graner e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

A estratégia de atuação do governo para conter a valorização do câmbio é de dar "sustos" paulatinos no mercado com novas medidas sendo adotadas nos momentos em que a especulação com o real aumentar.

Nesse movimento, a equipe econômica tem segurado o uso de armas poderosas, como os swaps cambiais reversos (equivalente a compra de dólares no mercado futuro) e o Fundo Soberano do Brasil (FSB), para utilizá-las com maior eficiência no combate à valorização da moeda brasileira.

Em entrevista ao Estado o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse que o governo está "guardando" a possibilidade usar o Fundo Soberano no câmbio para quando for necessária uma demonstração de força. Segundo ele, o FSB é uma "carta na manga" que pode ser usada a qualquer momento, conforme a situação do mercado de câmbio.

"Estamos guardando esse instrumento porque essa é uma guerra de médio e longo prazo. Estamos trabalhando com vários mecanismos", disse Augustin. "Nós vamos entrar quando achar que é o caso. É uma reserva. Nessa questão do câmbio, o outro lado tem que enxergar a força do governo."

O secretário afirmou ainda que o modelo de atuação do FSB, por meio do Banco Central, já está pronta. Ele explicou que a estratégia do governo de enxugamento da oferta de dólares no País por meio de compras tem três elementos: o BC compondo as reservas internacionais, o Tesouro comprando dólares para pagamento antecipado de dívida externa e o Fundo Soberano. As duas primeiras medidas já têm sido usadas de forma mais intensa e o Fundo está pronto para entrar em operação. "Estamos agindo coordenadamente com o BC e a cada momento vamos decidindo", afirmou.

O raciocínio do governo é o mesmo para o uso dos swaps reversos. Quando a escalada do real começou, o Ministério da Fazenda cobrava do Banco Central, nos bastidores, o uso desse recurso. Mas nas conversas internas, os técnicos da Fazenda foram convencidos pelo BC que os swaps são melhores armas em momentos de especulação no mercado futuro sem correspondência na expectativa de fluxo de dólares no mercado à vista.

Como a expectativa de venda de ações da Petrobrás e outras captações de recursos de empresas, bem como de ingressos voltados para aplicação em renda fixa, estava estimulando as apostas no mercado futuro, o governo resolveu guardar esse instrumento e usá-lo no "momento certo." Dessa forma, a equipe econômica acredita que terá um efeito mais forte no câmbio.

Em 2007 e 2008, quando o BC lançou mão dos swaps reversos, o cenário era de especulação nos mercados futuros sem correspondência na entrada de dólares no País. Na visão do governo, a emissão de swaps evitou uma crise maior quando vieram à tona os derivativos tóxicos de empresas como Sadia e Votorantim.

Sujo, mas transparente. Para o chefe de pesquisas para mercados emergentes da Nomura Securities, Tony Volpon, o Brasil está saindo de um sistema de câmbio flutuante "sujo", mas transparente (com política de intervenção clara e previsível), para um regime que vai mais para um câmbio administrado.

"Toda a experiência na Ásia e aqui na América Latina mostra que essas medidas são ineficazes para mudar a tendência do câmbio, mas diminui a liquidez e aumenta os custos de transação no mercado para todos, inclusive para as empresas. O risco é que quando acontecer uma alta nas taxas de juros nos EUA, a volta desse capital será muito mais traumática", afirmou.

Segundo ele, o governo usa a tal "guerra cambial" como usou a crise de 2008 na área fiscal, para justificar desmontar a política cambial. / COLABOROU RENATO ANDRADE

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