Governo de Cameron corre o risco de cair

Decisão de ficar fora do novo tratado da UE leva primeiro-ministro a sofrer críticas de seus pares

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h06

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, é abandonado pelo líder do partido que forma a base de sua coalizão no poder e a crise aberta pela atitude de Londres na UE já ameaça não apenas fraturar o bloco, mas coloca em risco seu governo.

Ontem, Cameron explicou ao Parlamento por que tomou a decisão de vetar um tratado europeu proposto por Alemanha e França destinado a promover maior união fiscal. Alegou que o objetivo era proteger os interesses do setor financeiro britânico, já que o acordo também previa uma repressão sobre o comportamento dos bancos. "Não foi uma decisão fácil, mas foi a correta", insistiu Cameron, ovacionado pela ala anti-UE de seu partido. " Fui à Bruxelas com o objetivo de proteger o Reino Unido", disse.

Sua ida ao Parlamento, no entanto, mostrou que o rei estava nu. Seu-vice-primeiro ministro, Nick Clegg, não compareceu à sessão, desencadeando rumores de que a coalizão que venceu as últimas eleições poderia estar com seus dias contados.

Clegg é o líder do partido liberal que garante a Cameron maioria no Parlamento. Mas no domingo, ele já havia criticado a atitude de Cameron. Ontem, simplesmente deixou o primeiro-ministro enfrentando a oposição sozinho. A cadeira de Clegg, vazia, chamou mais atenção que todo o esforço de retórica de Cameron para se explicar.

O líder da oposição, Ed Miliband, questionou Cameron sobre a ausência de Clegg, insinuando que o chefe de governo já não conseguia convencer nem mais seus aliados. Dezenas de parlamentares da oposição tomaram a palavra para pedir explicações sobre a ausência de Clegg, enquanto outros o acusavam de covardia.

Mais tarde, o vice-primeiro-ministro admitiu que se desentendeu com Cameron, mas garantiu que a coalizão no governo "está aqui para ficar". Num país onde o teatro político conta tanto quanto ações, analistas já apontam que Clegg começou a se afastar do governo.

Na Europa, as críticas contra Cameron também ganhavam força. Ontem, o presidentes francês Nicolas Sarkozy acusou-o de ter ajudado a dividir a UE. "Agora temos claramente duas europas", atacou Sarkozy, que terminou a cúpula sem sequer apertar a mão do britânico. Olli Rehn, comissário de Economia da UE, também foi crítico. "Lamento (a decisão) pela Europa e pelos cidadãos ingleses", disse. Mas lembrou que, mesmo com o veto, bancos ingleses terão de seguir as regras europeias.

A rachadura no acordo da UE também veio de outros cantos do continente, aumentando a tensão nos mercados. Na Alemanha, o BC alertou que não está disposto a abrir seu caixa para o esforço comum de ajudar países em dificuldades. Finlândia, República Tcheca e Hungria ficaram reticentes em relação ao plano e não garantem apoio pleno.

Na França, o candidato que lidera as pesquisas para presidência, em 2012,François Hollande, declarou que se for eleito em maio, vai renegociar o acordo fechado por Sarkozy. "Esse acordo não é a resposta certa ", disse.

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