Governo descarta usar BNDES para aumentar investimentos

Programa de subsídios à indústria pode ser retomado, mas nível total de desembolsos deve se manter em R$ 142 bilhões

ALEXANDRE RODRIGUES / RIO , O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 03h03

Apesar da preocupação com a queda de 0,2% dos investimentos na economia entre o segundo e o terceiro trimestres, o governo não pretende acionar agora o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para proteger o indicador. O banco seguirá sua política de estabilização do nível de desembolsos em torno de R$ 145 bilhões em 2012, embora tenha sido cogitada a retomada dos subsídios do Programa de Sustentação do Investimento (PSI).

Entre 2009 e o primeiro semestre deste ano, a carteira do PSI no BNDES atingiu R$ 148 bilhões emprestados, sendo quase 80% para bens de capital. O programa foi prorrogado até o fim de 2012 como parte do plano industrial Brasil Maior, mas por enquanto o governo não pretende rever o reajuste das taxas e a redução do porcentual máximo financiado pelo banco na aquisição de máquinas e equipamentos como defendem a indústria e alguns técnicos do BNDES.

O governo quer esperar os efeitos que os estímulos recentes ao consumo produzirão nos estoques da indústria, sobretudo a de transformação. Se o reaquecimento do mercado interno restaurar a confiança dos empresários para investir, o governo não precisará retomar a política de subsídios que marcou a ação do BNDES após a crise de 2008, quando o investimento havia despencado.

A situação agora não é vista como tão grave. Para o BNDES, o primeiro resultado negativo do investimento após sucessivos trimestres de crescimento à frente do PIB desde 2009 é uma situação transitória, fruto do agravamento da desaceleração programada pela crise fiscal europeia.

Assim como em 2008, o governo vai esperar o efeito consumo para então avaliar se precisa também incentivar o investimento com algo parecido ao PSI original, lançado em 2009. "Durante a crise de 2008, os agentes econômicos puxaram o freio. Aqui, a impressão que temos é que eles reduziram a marcha", definiu anteontem o vice-presidente do BNDES, João Carlos Ferraz. Mesmo evitando detalhar o papel do BNDES no combate à crise, ele disse que o banco "ainda" não foi convocado pelo governo.

O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, também sinalizou que o governo não vê agora a necessidade de usar os bancos públicos para estimular investimentos. A percepção é de que não há agora um cenário de ausência de crédito como em 2008 e a equalização do crédito do PSI tem um custo que vai contra a política de contenção fiscal iniciada este ano.

A indústria de bens de capital não concorda e pedirá apoio ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que se reúne na sexta-feira com o presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto. Para José Velloso Cardoso, vice-presidente da entidade, o setor vive um momento dramático com a queda das vendas no segundo semestre.

"Consideramos um erro grave estimular o consumo sem dar competitividade sistêmica à indústria brasileira. É preciso atuar no investimento de forma estrutural, senão corremos o risco de abrir mais espaço para os importados", diz Velloso, que defende a transformação do PSI em permanente com condições mais competitivas de crédito.

"Mesmo baixando as taxas de 14% para algo entre 6,5% e 8,5%, o PSI não compete com a máquina chinesa, que oferece 3% ao ano." O Tesouro já emprestou mais de R$ 200 bilhões ao BNDES desde 2009. O banco já usou R$ 30 bilhões do último empréstimo de R$ 55 bilhões e pode pegar ainda outros R$ 15 bilhões este ano, deixando alguma folga para o ano que vem.

O governo quer evitar novos repasses, mantendo o banco no atual tamanho e incentivando alternativas de financiamento de longo prazo, como o mercado de capitais, com a ajuda do próprio BNDES. Porém, a estratégia não é consenso no banco.

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