Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Governo quer diminuir dependência de semicondutores e tornar Brasil referência na produção regional

Crise dos semicondutores ficou latente quando a pandemia de coronavírus levou ao fechamento de várias unidades de produção

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2022 | 11h26

Brasília - Seguindo a tendência mundial de trazer a cadeia de insumos para mais próximo das linhas de produção, o governo brasileiro quer diminuir a dependência de semicondutores e tornar o Brasil um centro regional de produção. 

O ponto de partida será a realização de uma grande cerimônia, denominada “A cadeia internacional de semicondutores e o Brasil”. Marcado para o dia 27 de abril, no Palácio Itamaraty, o evento contará com um seminário sobre a cadeia de suprimento internacional de semicondutores e a posição do Brasil nesse cenário.

“A ideia é mostrar para o mundo que o Brasil discute o tema, tem capacitação e é uma plataforma importante para investir, podendo ser um hub de produção de certos itens para toda a América Latina”, disse ao Estadão/Broadcast o secretário de Comércio Exterior e Assuntos Econômicos do Itamaraty, Sarquis Sarquis. Ele lembrou que este tipo de indústria requer grande escala de produção e que, portanto, concentrar a atividade no Brasil seria uma boa forma de facilitar a distribuição dos semicondutores pela parte Sul do continente.

Além de autoridades locais, o seminário vai reunir especialistas de várias partes do mundo e também de organismos multilaterais para atrair mais investimentos. Contará também com membros da academia, entidades de classe e da Indústria do Brasil e exterior. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) organiza o evento junto com o da Economia e o da Ciência e Tecnologia.

A crise dos semicondutores ficou latente em 2020, quando a pandemia de coronavírus levou ao fechamento de várias unidades de produção. A maior parte delas está localizada na Ásia e a escassez de itens levou à interrupção da atividade em outros países que dependiam do insumo para confeccionar seus produtos. Os setores mais atingidos foram de veículos, mas justamente a paralisação do globo por causa da covid-19 levou a uma brutal queda da demanda, causando, na sequência, o cancelamento de encomendas de semicondutores. 

Para continuar a sobreviver durante o surto, a produção de muitas unidades fabris foi direcionada para outros equipamentos que registraram um consumo acima do normal durante a pandemia, como smartphones, notebooks e videogames. No momento da retomada da produção, a indústria automotiva se deparou com um gargalo de oferta, que, segundo a consultoria AutoForecast Solutions, afetou a produção de 11,3 milhões de carros em todo o mundo no ano passado. Na segunda, a Mercedes-Benz anunciou que vai parar produção em São Paulo e Juiz de Fora (MG) por falta de peças.

A produção mundial de semicondutores está concentrada na Ásia, com destaque para Taiwan e Coreia do Sul. O MRE destacou que tem crescido, no entanto, o número de países que buscam superar a dependência de fornecedores estrangeiros por meio do desenvolvimento de indústrias domésticas de semicondutores de última geração, capazes de atender à alta demanda das empresas nacionais.

Diante da dependência asiática, países estão promovendo novas políticas para o setor, com previsão de investimentos com o objetivo de aumentar capacidade instalada para fabricação de chips em seus respectivos territórios. Esse movimento - mais amplo do que apenas no caso de semicondutores - é conhecido no globo pela expressão em inglês "nearshoring", que busca recuperar parte da cadeia de fornecimento para seu território ou, pelo menos, para locais mais próximos. Conforme registrou o Estadão/Broadcast no fim do mês passado, há linhas de financiamento específicas para essa retomada.

Há um mês, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reafirmou compromisso de investimentos no setor de semicondutores no País, no âmbito da prioridade de “reshoring” as principais cadeias de valor nas áreas de tecnologia críticas e emergentes. Um mês antes, a Comissão Europeia divulgou uma proposta de regulamentação do mercado de semicondutores do bloco (o “Chips Act”), iniciativa que pretende movimentar cerca de 43 bilhões de euros e prevê a possibilidade de controles de exportação. A intenção é dobrar de 10% para 20% a participação da União Europeia (UE) no mercado mundial de semicondutores.

Brasil 

No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi) estima que o País é capaz de atender cerca de 10% da demanda interna - na maioria, componentes com função de memória. Para o governo, ao depender da importação de semicondutores, a indústria brasileira acaba sendo “seriamente afetada” pela escassez global do produto. Segundo levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), 70% das empresas do setor têm dificuldade para obter os semicondutores que precisam.

A indústria automotiva brasileira é particularmente afetada pelo problema. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção automotiva brasileira passou de 2,9 milhões de veículos em 2019 para 2 milhões em 2020 e 2,2 milhões em 2021. Ainda que os dados apontem para a gradual recuperação do setor, os números verificados estão muito aquém da capacidade produtiva do país, estimada em 4,7 milhões de veículos por ano.

Por conta desse quadro, foram lançadas medidas para estimular a ampliação e a diversificação da produção doméstica, como o Made in Brasil Ilimitado (MiBI) - rede colaborativa para aumento da produtividade e da competitividade do setor automotivo - e a lei que prorroga até 2026 os incentivos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis).

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