Governo discute com bancos juro do cartão

Para reduzir as altas taxas, instituições querem fim do parcelamento sem juros

O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h08

O governo está discutindo com a cadeia do cartão de crédito (bancos, administradoras, lojistas, etc) medidas para reduzir os juros cobrados ao consumidor. A avaliação é de que as taxas são muito elevadas no rotativo. Recente levantamento da associação de consumidores Proteste mostrou que, no Brasil, a taxa anual chega a 323%, ante uma taxa básica média inferior a 10% ao ano.

O ministro interino da Fazenda, Nelson Barbosa, disse à Agência Estado que a equipe econômica tem debatido com as empresas do setor fórmulas para resolver a questão. Segundo Barbosa, parte das instituições argumenta que as vendas parceladas sem juros provocam a elevação das taxas, dado o alto risco de calote. A conta é cobrada de quem está no rotativo. "É uma preocupação deles e a gente está analisando se é isso ou não", disse. "Não há nenhuma decisão."

O principal ponto da proposta em discussão prevê o fim das vendas parceladas sem juros. Isso significa que quem quiser dividir a venda no cartão terá de pagar por isso. "É assim que acontece no resto do mundo. Só no Brasil existe parcelamento sem juros no cartão", disse um executivo de uma instituição financeira envolvida nas discussões.

Segundo essa fonte, atualmente são os bancos que pagam a conta quando um consumidor não honra a dívida. "O comércio recebe normalmente", afirmou. Esse mesmo executivo explicou que, em média, 80% dos clientes pagam a fatura em dia. Do restante, 10% renegociam com taxas inferiores ao teto do rotativo e outros 10% acabam pagando o juro mais elevado da categoria.

Esses números todos resultam em uma inadimplência de 8,5% no segmento, superior à média das pessoas físicas, que atingiu 7,9% em julho. O executivo avalia que, se todos os consumidores passarem a pagar juros em compras parceladas, a taxa mais elevada da modalidade vai cair. "A inadimplência também, porque não teríamos mais essas taxas de hoje que, reconhecemos, são elevadas demais."

Outras fontes dizem que ainda não há consenso na cadeia do setor em torno de uma mudança tão radical. "Não há opinião unânime", afirmou um fonte que preferiu não ser identificada.

Para surtir o efeito desejado, o fim do parcelado sem juros ou o encurtamento dos prazos dessa modalidade de crédito teria de ser feito simultaneamente por todos os cartões. Além disso, poderia provocar uma queda no consumo - tudo que o governo não pretende neste momento- e até mesmo a volta do velho cheque pré-datado.

Dados do setor mostram que 90% dos clientes de cartões usam o parcelado sem juros. Essa modalidade de pagamento responde atualmente por 60% do faturamento do setor. Por isso, segundo fontes do mercado, não se trata de apenas acabar com o parcelado sem juros, mas rediscutir um novo modelo para de operação do cartão de crédito.

Outra visão sobre essa questão que circula no mercado é que, além da pressão da presidente Dilma Rousseff e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para redução dos juros do cartão, a inadimplência do parcelado sem juros aumentou significativamente nos últimos meses. Isso teria se transformado em grande problema para os bancos.

Lojistas. O comércio está dividido em relação à possível decisão de acabar com parcelado sem juros. "Para o comércio a mudança é neutra ou positiva, pois as lojas poderiam intensificar o uso do cheque pré-datado", disse o Chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas.

Para a o consultor da Fecomércio-SP, Altamiro Carvalho, é ruim para o comércio, pois afeta a venda. "É difícil acreditar que o parcelamento sem juros seja o vilão das elevadas taxas do crédito rotativo."

As conversas entre governo e empresas do setor devem continuar nos próximos meses. O objetivo dos envolvidos é implementar as mudanças - quaisquer que sejam - em 2013. Se a proposta de acabar com o parcelamento sem juros vingar, o próximo ano serviria para adaptação de todos os elos da cadeia, sobretudo o consumidor. / RENATA VERÍSSIMO, CÉLIA FROUFE, MÁRCIA DE CHIARA E LEANDRO MODÉ

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