Governo disse 'não' ao euro e agora busca uma moeda

Apesar de ser livremente aceita no país, moeda foi descartada pela Islândia, que já tentou a adesão à libra, ao dólar e à coroa finlandesa

REYKJAVIK, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h12

Cinco anos depois de ir à falência, a Islândia é uma ilha em busca de uma moeda. Para economistas e políticos consultados pelo Estado, a taxa de crescimento e o baixo desemprego apenas estão sendo garantidos graças ao controle de capital estabelecido dias depois do colapso do país, em outubro de 2008.

A medida permitiu "sequestrar" cerca de US$ 7,2 bilhões de investidores estrangeiros que poderiam deixar o país da noite para o dia. O volume de dinheiro bloqueado na ilha é mais de 50% do PIB nacional. Mas todos sabem que o controle de capitais não pode durar para sempre e o temor é de que, no dia seguinte ao fim do controle, a Islândia sofra uma fuga desse capital e volte a quebrar.

Para especialistas, o maior problema que o país enfrenta hoje é ter uma moeda sem credibilidade ou reservas em euro. "Temos a menor moeda do mundo", constatou o economista Thorolfur Matthiasson, que serviu como consultor ao governo islandês nos meses depois da crise. "Não há como manter o país dessa forma. Com o fim eventual do controle de capitais, se dois hedge funds de Nova York decidirem atacar a nossa moeda, em 24 horas estamos terminados", alertou.

Os cálculos que ele entregou ao governo indicam que a Islândia precisaria ter reservas equivalentes a três vezes o PIB para poder se defender de um ataque dos mercados, o que seria um volume irrealista de dinheiro. Para ele, portanto, a única opção é a de aderir ao euro. "Precisamos estar em um bloco maior para poder nos defender."

Na principal rua do comércio da capital islandesa, o euro é amplamente aceito, para facilitar as vendas aos turistas. "Estamos começando a crescer e, claro, uma relação estreita com a Europa é fundamental", disse o dono de um café, Torfi Torfason.

As grandes empresas que ainda ficaram no país pagam seus funcionários em euro, justamente para atrair estrangeiros e uma mão de obra qualificada. Uma delas é a CCP, do setor de jogos eletrônicos e uma espécie de Google da Islândia. Um dos seus 500 funcionários é o brasileiro Pedro Ziviani, que conta que a decisão de pagar os funcionários na moeda da UE é para convencer as melhores cabeças a trabalharem na Islândia, sem o temor de ter seu dinheiro bloqueado na ilha.

Poucos meses depois de quebrar, o governo socialista que venceu as eleições na Islândia deu início ao processo de adesão à UE. Em apenas 18 meses, o processo estava praticamente concluído. Mas a queda desse governo em 2013 e a volta dos conservadores mudou tudo. O novo governo enterrou o projeto e atendeu aos setores da sociedade que eram contra a adesão. Para conseguir isso, o governo argumentou que a Islândia precisava manter a independência, sentimento que é um dos pilares do país isolado perto do círculo polar ártico.

Pesca. Mas o engavetamento do projeto tem motivações eleitorais e econômicas. O governo atendeu, acima de tudo, o pedido feito pelo setor da pesca que, desde o início, foi contra a adesão da Islândia na UE. "Somos contra aderir ao euro", declarou ao Estado o economista-chefe da poderosa Federação Islandesa de Proprietários de Barcos de Pesca, Sveinn Hjörtur Hjartarsson.

"Se entrarmos na UE, teremos de concorrer com a Espanha e Portugal, que recebem milhões de euros em subsídios para pescar e colocam seus produtos no mercado com preços desleais", acusou.

Outro problema é que, com o euro, as exportações do setor perderiam parte da competitividade por causa da moeda nacional desvalorizada. "Aumentamos nossa exportação em mais de 100% entre 2008 e 2013", disse Hjartarsson.

O peso do setor acabou contando. Oficialmente, 9 mil pessoas trabalham diretamente nos barcos e empresas, cerca de 5% da mão de obra. Mas, indiretamente, o setor corresponde a 25% de toda a força de trabalhos do país e cerca de 20% do PIB, além de 48% das exportações.

Com a perspectiva de fazer parte da UE enterrada, a Islândia passou a estudar a adesão a outras moedas. Uma opção foi pedir ao governo britânico autorização para usar a libra. Mas Londres, depois de ver seus cidadãos terem suas contas bloqueadas no país, se recusou a cooperar. O governo islandês ainda avaliou o dólar americano, a coroa norueguesa e até mesmo o dólar canadense. Mas nenhum desses governos respondeu de forma positiva.

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