Tasso Marcelo/Estadão
Vírus foi encontrado em pequena amostra retirada de um lote importado do Brasil. Tasso Marcelo/Estadão

Governo diz que frigoríficos brasileiros têm rígidos protocolos, mas não há 'risco zero'

Ministério da Agricultura também fez questão de ressaltar que não existem estudos sobre o risco de contaminação por covid-19 por meio de alimentos

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 18h45

BRASÍLIA — O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, disse que os frigoríficos brasileiros seguem rígidos protocolos para evitar contaminação dos produtos durante a pandemia do coronavírus, mas que não existe “risco zero”.

“Temos os mais rígidos protocolos de prevenção, mas não existe 'risco zero'. No entanto, é preciso sublinhar que não existem estudos científicos que sustentem o contágio por alimentos”, disse Ribeiro ao Broadcast.

Nesta quarta-feira, o governo da cidade chinesa de Shenzhen disse que uma amostra de asas de frango congeladas importada do Brasil teve teste positivo para o coronavírus. O vírus teria sido encontrado em embalagens e não na carne de frango.

Segundo Ribeiro, o governo brasileiro já entrou em contato com a Administração-Geral de Aduanas da China (GACC) buscando as informações oficiais, mas a própria GACC aguarda mais informações sobre o caso ocorrido em Shenzhen. Os contatos entre os governos de Brasil e China continuam ocorrendo.

Não houve nenhum comunicado oficial ao governo brasileiro nem reação ou proibição de importação dos frigoríficos do país. “Temos um diálogo fluido e transparente com a GACC. Não houve nenhuma reação. Não fomos notificados oficialmente”, afirmou.

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China diz que frango importado do Brasil testou positivo para o coronavírus

Traços da doença foram encontrados em embalagem de produto associado ao frigorífico Aurora; Ministério da Agricultura diz que fiscalização é rígida, mas não infalível, enquanto fonte do setor afirma que risco de barreira à carne brasileira é real, porém baixo

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 00h34
Atualizado 14 de agosto de 2020 | 08h41

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A informação de que uma autoridade do município chinês de Shenzhen encontrou traços de coronavírus em uma embalagem de frango de origem brasileira, divulgada na quinta-feira, 13, acendeu a luz amarela para o mercado brasileiro de carnes, que tem a China como principal cliente. A embalagem em questão teria saído de uma das unidades do frigorífico catarinense Aurora. A notícia, que ainda não foi confirmada pelo entidade alfandegária do País, a Gaac, causou apreensão no agronegócio brasileiro. Fontes do setor descartaram um embargo no curto prazo, mas disseram que a possibilidade de uma barreira não é nula.

A apreensão tem razão de ser. Um dos dez principais itens da pauta exportadora, a venda externa de carne de frango somou, de janeiro a julho de 2020, um total de 2,47 milhões de toneladas, com alta de 0,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Em volume financeiro, por causa da alta do dólar, o avanço foi de 11%, na mesma comparação, para mais de US$ 4,1 bilhões, de acordo com dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

O caso em relação ao setor se refletiu, por exemplo, na forte queda da ação da empresa de alimentos BRF. Os papéis da companhia despencaram quase 8% nesta quinta, fechando o dia cotados a R$ 20,93. 

O presidente do conselho da BRF, Pedro Parente, afirmou, em São Paulo, que uma notícia de contaminação traz “problemas” a todo o setor. “Tivemos um resultado sólido da BRF (no balanço do segundo trimestre, divulgado ontem), mas mesmo assim as ações da companhia caíram bastante”, disse Parente. “Não foi com a nossa companhia, mas isso não importa.” 

Cuidados para evitar contaminação

Diante da possibilidade de prejuízos às exportações, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, afirmou que os frigoríficos brasileiros seguem rígidos protocolos para evitar contaminação dos produtos durante a pandemia do coronavírus, mas que não existe “risco zero”. “É preciso sublinhar que não existem estudos científicos que sustentem o contágio por alimentos”, disse Ribeiro.

Segundo o Ministério da Agricultura, o governo brasileiro já entrou em contato para esclarecer a situação. Uma fonte do setor garantiu que a contaminação foi externa - ou seja, na embalagem - e não no produto em si. Isso reduziria os riscos de alguma sanção à carne brasileira. 

A China está acompanhando de perto traços da doença em itens alimentícios. Uma reportagem da Reuters afirmou também nesta quinta-feira que sete frigoríficos argentinos tiveram exportações suspensas por causa da covid-19. A suspensão relacionada à Argentina se refere à carne bovina, e não de frango. A China foi o destino de 75% da carne vendida ao exterior pela Argentina no ano passado.

Fontes do setor disseram que a chance de um embargo chinês ao frango brasileiro existe, embora o risco de isso ocorrer não pareça, no momento, relevante. “Certamente eles não pretendem partir para o embargo. Eles precisariam de mais evidências e fatos para chegar a esse ponto, mas há risco”, disse um especialista da área ao Estadão/Broadcast. Diante da necessidade de importar alimentos para abastecer seu mercado interno gigante, a China também tem interesse em esclarecer rapidamente a situação.

Parente, da BRF, ressaltou ontem ser “evidente” que a China vai precisar continuar comprando carnes do Brasil. “Ela não tem muitos países para suprir a redução doméstica da proteína suína”, disse, referindo-se à perda de cerca de 40% do plantel chinês de porcos por causa da peste suína africana. “A realidade tem de se impor, e a realidade é que a China precisa de nós, da proteína brasileira.”

A Aurora, que não é listada em Bolsa, é a terceira maior empresa do Brasil em processamento e exportação de carne de frango e suína. Procurada, a companhia divulgou nota em que afirma não ter sido notificada oficialmente pelas autoridades chinesas de que a amostra testada é de uma de suas unidades. A empresa afirmou que “todas as medidas estabelecidas pelas autoridades públicas, relativas ao combate à pandemia, estão sendo integralmente seguidas” em suas fábricas.

Outros casos na China

Também na quinta-feira, amostras de outro pacote de camarões congelados do Equador vendidos na cidade de Xi'An, no noroeste da China, testaram positivo para o vírus, disseram autoridades locais.

As descobertas vieram um dia depois que traços do coronavírus que causa a covid-19 terem sido descobertas em embalagens de camarões congelados também do Equador em uma cidade na província de Anhui, ao leste do país. A China tem aumentado as análises em portos devido a preocupações com importações de alimentos. 

Autoridades de saúde de Shenzhen disseram que rastrearam e testaram todos que possam ter tido contato com os alimentos potencialmente contaminados e que todos resultados foram negativos.

Além dos testes em contêineres de carnes e frutos do mar que chegam aos principais portos nos últimos meses, a China suspendeu algumas importações de carnes de diversas origens, incluindo o Brasil, desde meados de junho.

O chefe de microbiologia do laboratório do Centro Nacional de Avaliação de Segurança Alimentar da China, Li Fengqin, disse a jornalistas em junho que a possibilidade de alimentos congelados causarem novas infecções não poderia ser descartada. / ÉRIKA MOTODA, LORENNA RODRIGUES e TÂNIA RABELLO, COM REUTERS

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Argentina tem sete frigoríficos com exportação à China suspensa por covid-19

China é o destino de 75% do total de 845,9 mil toneladas exportadas pela Argentina no ano passado; país asiático afirmou que encontrou coronavírus em frango exportado pelo Brasil nesta quinta-feira, 13

Reuters

13 de agosto de 2020 | 18h01

BUENOS AIRES  - Sete frigoríficos da Argentina estão com suas exportações de carne para a China suspensas devido ao registro de casos de covid-19 entre funcionários, disse nesta quinta-feira uma fonte do departamento sanitário argentino Senasa, que acrescentou que é possível que três das unidades comecem a retomar os embarques ao país asiático nos próximos dias.

A China é a maior compradora de carne bovina da Argentina, sendo o destino de 75% do total de 845,9 mil toneladas exportadas pelo país sul-americano no ano passado.

No entanto, por causa da pandemia, os países concordaram que, caso fosse registrado um caso de Covid-19 em uma fábrica argentina, esta interromperia os embarques e solicitaria sua suspensão da lista de empresas autorizadas a exportar para a China até que o Senasa e o país asiático liberassem a reintrodução.

“Há sete (estabelecimentos) temporariamente suspensos”, disse à Reuters uma fonte do Senasa, que explicou que nos próximos dias três deles poderão voltar a ser incorporados pela China à lista de companhias autorizadas.

Segundo a fonte, desde o início da pandemia um total de 11 frigoríficos se autoexcluíram de exportar para a China após a detecção de casos de coronavírus, de um total de 96 estabelecimentos que integram a lista de empresas permitidas a enviar carnes e pescados à potência asiática.

Frango brasileiro 

Uma amostra de asas de frango importado do Brasil pela cidade chinesa de Shenzhen, ao sul do país, testou positivo para o coronavírus, disse o governo local nesta quinta-feira, 13, gerando temores de que embarques de alimentos contaminados possam causar novos surtos.

Centros locais de controle de doenças testaram uma amostra de superfície tirada das asas de frango congeladas como parte de análises de rotina realizadas sobre carnes e frutos do mar importados desde junho, quando um novo surto em Pequim foi associado a um mercado atacadista de alimentos na cidade de Xinfadi.

Por meio do número do lote citado no comunicado do governo chinês, identificou-se que o produto é da Aurora Alimentos, de Santa Catarina. A empresa divulgou nota em que afirma não ter sido notificada oficialmente pelas autoridades chinesas de que a amostra testada é de uma de suas unidades. Diz ainda que "todas as medidas estabelecidas pelas autoridades públicas, relativas ao combate à pandemia, estão sendo integralmente seguidas e cumpridas" pela empresa.

O Ministério da Agricultura também informou na tarde desta quinta-feira que “até o momento não foi notificado oficialmente pelas autoridades chinesas” sobre a suposta detecção de traços de coronavírus em lote de asas de frango brasileiro importado pelo país.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) avalia ao lerta da China sobre coronavírus, mas nega transmissão por carne. 

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O que já se sabe sobre o frango com coronavírus exportado para a China

Uma fonte próxima do governo brasileiro disse que, por ora, o País não corre o risco de ver suas carnes sendo embargadas pela China, porque o país asiático teria dificuldades de abastecer o mercado interno

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 18h57

Autoridades municipais chinesas informaram nesta quinta-feira, 13, que uma amostra de asas de frango congeladas exportada pelo Brasil testou positivo para o coronavírus. A Aurora Alimentos é apontada como a fabricante do lote em questão, mas a empresa, assim como associações de produtores de carne, se mantem cautelosa sobre o assunto porque a informação ainda não foi divulgada oficialmente por uma autoridade nacional chinesa. 

Uma fonte próxima do governo brasileiro disse que, por ora, o País não corre o risco de ver suas carnes sendo embargadas pela China, porque o país asiático teria dificuldades de abastecer o seu mercado. 

O anúncio provoca temores de que embarques de alimentos contaminados possam causar novos surtos de covid-19. “É praticamente impossível um vírus permanecer em um lote congelado e chegar lá depois de 40 dias de transporte. Há muita desconfiança se esse fato realmente ocorreu”, afirmou ao Broadcast Agro uma fonte a par do assunto, que disse que a diretoria da Aurora está avaliando com autoridades do governo brasileiro qual deve ser a resposta à China.

O diretor de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou nesta quinta que não há evidência de que a doença pode ser transmitida por meio da comida.

Veja o que se sabe até agora sobre o caso:

O que o governo chinês diz ter encontrado no frango exportado pelo Brasil?

A China disse que o frango exportado pelo Brasil testou positivo para o coronavírus. Como parte de análises de rotina realizadas sobre carnes e frutos do mar importados, os centros de controles de doença da cidade chinesa de Shenzen testaram uma amostra de superfície tirada das asas de frango brasileiro e divulgaram que havia a presença da covid-19. 

Qual é a marca do frango contaminado? 

A empresa Aurora Alimentos, maior produtora de frango de Santa Catarina, é apontada como a dona do lote em que foi detectado o coronavírus. Em nota, a empresa disse que se trata "apenas" de um fato divulgado pela imprensa local e que, até agora, não foi notificada por nenhuma autoridade pública nacional chinesa. Por fim, disse que vai aguardar a manifestação da "autoridade pública competente" para esclarecer os fatos e prestar as devidas informações "a quem de direito".

O que dizem os produtores brasileiro de carne sobre o anúncio da China?

Os representantes do setor agropecuário estão cautelosos em relação ao caso do frango contaminado com coronavírus e ainda estão analisando as informações sobre o assunto. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse que “ainda não está claro em que momento houve a eventual contaminação da embalagem, e se ocorreu durante o processo de transporte de exportação”.

O coronavírus já havia sido encontrado em outras amostras de comida comprada pela China?

Sim, antes do frango brasileiro, as autoridades chinesas afirmaram que encontraram coronavírus em um pacote de camarões congelados exportado pelo Equador.

O coronavírus pode ser transmitido por alimentos?

A OMS diz que é pouco provável uma pessoa ser infectada pelo coronavírus ao ter contato com um alimento infectado. As duas principais vias de transmissão são a respiratória e o contato com gotículas respiratórias. E o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirma que, ao contrário de bactérias, que podem se desenvolver em alimentos, o coronavírus precisa de um hospedeiro vivo - humano ou animal - para que a covid-19 se multiplique. 

A China já suspendeu a compra de carne brasileira por causa da covid-19?

Sim, entre os frigoríficos que já foram ou ainda são afetados pela suspensão de compras da China estão algumas unidades das empresas JBS, Marfrig, BRF, Minuano e Agra. A pedido do país asiático, quatro dessas empresas tiveram que assinar em junho uma declaração carga “livre de coronavírus”

Com esse novo episódio, a China vai embargar a carne brasileira? 

É pouco provável que a China embargue as carnes brasileiras por causa do episódio do frango contaminado com coronavírus. Segundo uma fonte próxima ao governo brasileiro ouvida pelo Broadcast Agro, se optassem pelo embargo à proteína brasileira, os chineses enfrentariam dificuldades de abastecimento do mercado doméstico. “Mas se houver pressão interna de consumidores por medo de contaminação, eles podem sim rever a posição."

Qual é a quantidade de frango exportado pelo Brasil?

No acumulado de sete meses, o Brasil exportou 2,471 milhões de toneladas de carne de frango, contra 2,458 milhões de toneladas em 2019, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal.  O resultado em receita chegou a US$ 3,642 bilhões, número 11,4% menor em relação ao mesmo período comparativo do ano passado, com US$ 4,112 bilhões.

Os embarques para a Ásia dão impulso aos negócios . Ao todo, foram exportadas 988,3 mil toneladas para a região entre janeiro e julho, número 12,7% superior ao realizado no mesmo período de 2019, com 876,8 mil toneladas. Do total, a China foi destino de 406,8 mil toneladas.  Cingapura, com 79,8 mil toneladas, Filipinas, com 50,3 mil toneladas e Vietnã, com 25,5 mil toneladas foram os destaques.

O coronavírus sobrevive em superfícies congeladas por quanto tempo?

Estudos específicos sobre o tempo de sobrevivência do Sars-Cov-2, que é o novo coronavírus, ainda estão em andamento. Em temperatura ambiente, a covid-19 pode sobreviver até 72 horas em plásticos e aço inoxidável, 24 horas em papelão e 4 horas em superfícies de cobre, de acordo com a pesquisa do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos em parceria com a Universidade da Califórnia (Ucla). 

A OMS acredita que a covid-19 possa se comportar da mesma maneira que outros coronavírus, como a Sars-CoV (que leva à Síndrome Respiratória Aguda Grave) e Mers-CoV (causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio). “Por exemplo, a uma temperatura de 4ºC, o Mers-Cov pode permanecer estável por 72 horas. Evidências atuais sobre outros coronavírus mostram que os coronavírus tendem a permanecer estáveis em temperaturas baixas ou mínimas durante certo período”, escreveu a OMS em um documento publicado em março. 

Quais medidas os frigoríficos brasileiros estão adotando para garantir a exportação para o país?

Os frigoríficos devem seguir as regras definidas pelos ministérios da Agricultura e da Economia. Entre as orientações estão a necessidade de acompanhamento de sintomas de covid-19 e do afastamento imediato por 14 dias dos funcionários que tiverem casos confirmados, suspeitos ou se tiverem tido contato com outros doentes, além de usar equipamentos de proteção individual (EPI). O Ministério da Economia é o encarregado pela fiscalização. 

Os frigoríficos brasileiros registram casos de covid-19?

Sim. Os frigoríficos têm apresentado uma alta taxa de contaminação por coronavírus. Só em uma unidade da BRF em Toledo, no Paraná, 1.138 trabalhadores foram infectados. Houve um total de 3.979 contaminações nos frigoríficos do Estado inteiro. 

Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), os frigoríficos são propícios à contaminação porque há um grande número de trabalhadores nas plantas, que ficam muito próximos uns dos outros na linha de produção, além do sistema de refrigeração, que reduz a taxa de renovação de ar. 

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