Fábio Motta|Estadão
Fábio Motta|Estadão

Governo do Rio deve R$ 120 milhões a restaurante popular

Conta é das 15 empresas que atuam no segmento e ameaçam fechar as portas se problema não for resolvido em dez dias

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2016 | 05h00

RIO - Salsichão ao sugo com macarrão e suco de tangerina. Seria esse o cardápio de despedida do mais antigo restaurante popular do Rio, o Betinho, inaugurado na Central do Brasil em 2000. A crise financeira do Estado ameaça o funcionamento do programa Restaurante Cidadão, com 15 unidades, e as fornecedoras ameaçaram encerrar ontem o atendimento. No fim da tarde, o secretário de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, Paulo Melo, conseguiu prazo de dez dias para buscar uma solução para o atraso nos pagamentos.

Pelas contas das empresas, o Estado deve R$ 120 milhões e os repasses estão atrasados há 14 meses. Melo alega que a dívida é de um quarto desse valor (R$ 30 milhões), mas afirma estar empenhado em resolver a questão.

“Já disse para o governador Francisco Dornelles a minha condição: não volto para a secretaria se não resolver essas questões. Para muita gente, o Restaurante Cidadão é a garantia de ter pelo menos uma refeição balanceada por dia”, afirmou Melo, que interrompeu as férias para resolver a crise.

A empresa Home Bread, que fornece 7,8 mil refeições na Central do Brasil, Méier, na zona norte, e Cidade de Deus, na zona oeste, foi a primeira a anunciar que suspenderia o atendimento hoje. Por conta da crise, sopa, sobremesa e o pão que acompanhavam a refeição já haviam sido cortados.

O bife sumiu do bandejão. Deu lugar a opções mais baratas: moela, carne moída, almôndegas. Menu bem mais modesto do que o servido nos tempos de vacas gordas, com os cofres do Estado abastecidos pelos royalties do petróleo, quando havia até bacalhau, peru e pernil em datas festivas, como Páscoa, Natal e ano-novo.

Hoje, a realidade é outra. O Restaurante João Goulart, em Bonsucesso, na zona norte, onde são servidas 1,8 mil refeições diárias, ficou fechado por dois dias na semana passada, depois que a energia foi cortada por falta de pagamento.

“Vou tocar com o estoque que tenho. Não aguento até semana que vem. Quarta vou fechar”, afirmou pela manhã Fábio Leite, representante da Première, antes do acordo com o secretário.

Os restaurantes foram criados para atender pessoas em risco de insegurança alimentar. Seu público é formado por trabalhadores informais, desempregados, moradores de rua e aposentados. Na Copa de 2014, argentinos que viajaram com pouco dinheiro ao Rio disputaram as refeições com os clientes habituais.

Por R$ 2, serve-se refeição de mil calorias composta por sopa, salada, prato principal com uma opção, guarnição, sobremesa e suco. O governo subsidia as refeições com valores que variam de R$ 3,85 a R$ 8,39, dependendo do contrato.

Também são servidos café da manhã a R$ 0,50. Em maio, a prefeitura de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, assumiu a operação do restaurante da cidade.

Promessa. O diretor do setor de alimentação da Associação das Empresas Prestadoras de Serviço do Estado (AEPS), Vagner Dantas, informou que a secretaria havia prometido pagamento de duas parcelas atrasadas, a cada 15 dias, até que as contas fossem regularizadas.

“Isso foi feito em maio, mas o Estado só conseguiu pagar uma parcela. O secretário Paulo Mello se comprometeu, mas não conseguiu cumprir. Ninguém suporta atraso de 14 meses sem pagamentos”, afirmou Dantas.

De acordo com ele, o Bradesco ofereceu empréstimo às empresas, como forma de saldar parte da dívida do Estado de 2014. O governo se comprometeu a pagar as prestações. “Quando o Estado não paga a parcela, o banco retira da conta da empresa o que tem. As contas ficam com saldo negativo e os juros são absurdos.”

Dantas é diretor comercial da Guelli, que serve refeições no restaurante de Campo Grande, na zona oeste. Por causa dos atrasos, o número de refeições servidas diariamente na unidade já havia sido reduzido de 3,7 mil para 2,8 mil.

“Mês que vem não vou conseguir pagar os funcionários. Se o governo não acenar com o pagamento, o caminho será demitir funcionários”, disse Dantas.

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