Kevin Lamarque/ REUTERS
Kevin Lamarque/ REUTERS

Governo dos Estados Unidos avalia medidas para reforçar a economia

Equipe econômica estuda cortar impostos sobre folhas de pagamento e até a reversão de algumas das tarifas do presidente Donald Trump

Maggie Haberman, Jim Tankersley e Annie Karni, The New York Times

20 de agosto de 2019 | 16h43

Autoridades da Casa Branca começaram a preparar opções para ajudar a estimular a economia americana e evitar que ela caia em uma recessão, incluindo a possibilidade de um corte nos impostos sobre folhas de pagamentos e uma possível reversão de algumas das tarifas do presidente Donald Trump, segundo pessoas inteiradas das discussões.

Trump continua insistindo que a economia está “indo tremendamente bem” e ele e seus assessores descartam publicamente qualquer noção de uma recessão iminente. Mas nos bastidores a equipe econômica do governo monta planos de contingência no caso de a economia se enfraquecer ainda mais.

Autoridades dentro do governo elaboraram um relatório oficial para ser entregue ao Legislativo explorando a redução do imposto sobre a folha de pagamento, que buscaria impulsionar a economia imediatamente ao injetar mais dinheiro nos contracheques dos trabalhadores. Em 2011 e 2012, o governo Obama adotou um corte de dois anos na folha de pagamento em um esforço de dar um incentivo à lenta a recuperação da recessão, que terminou em 2009.

A discussão sobre a folha de pagamento foi relatada pela primeira vez na segunda-feira pelo jornal The Washington Post.

Tal corte exigiria a aprovação do Congresso. Funcionários do governo disseram que a ideia não foi pressionada junto a Trump e tentaram cortar o assunto.

Um funcionário da Casa Branca disse que há mais reduções de impostos em discussão, “mas cortar impostos sobre os salários não é algo que está sendo considerado neste momento”. Outro alto funcionário do governo advertiu que um corte no imposto sobre a folha de pagamento não está sendo seriamente considerado. E um terceiro disse que as discussões sobre quais ferramentas poderiam ser empregadas para compensar uma recessão, baseadas no exame do que foi feito em desacelerações anteriores, eram hipotéticas e não estavam sendo exploradas com urgência.

Também é improvável que Trump reverta abruptamente o rumo das tarifas que ele impôs sobre produtos chineses, que, segundo ele, prejudicam a China sem afetar os consumidores americanos.

Ainda assim, o fato de a Casa Branca estar discutindo maneiras de estimular uma economia que Trump na segunda-feira chamou de "muito forte", ressalta uma preocupação crescente no governo sobre a desaceleração do crescimento econômico. Os Estados Unidos estão em sua mais prolongada expansão econômica já registrada, mas os economistas insistem em alertar que uma recessão se aproxima.

As ações passaram por período agitado na semana passada depois que o mercado de títulos emitiu um sinal de alerta que historicamente prevê uma recessão. O setor manufatureiro entrou em recessão por conta própria em meio a uma desaceleração do crescimento global que muitos economistas atribuem em parte à guerra comercial de Trump com a China.

Cortar os impostos sobre folha de pagamento seria uma tentativa de fortalecer ainda mais os gastos do consumidor, que têm sido o motor que conduz a economia americana neste ano, uma vez que as empresas recuaram quanto a investimentos.

No momento, os trabalhadores pagam imposto de 6,2% sobre os primeiros US$ 132.900 de seus ganhos, e os empregadores pagam outros 6,2%. Esse dinheiro é usado para financiar programas de segurança como o Medicare (seguro saúde para pessoas com mais de 60 anos) e a Seguridade Social. Cortar o imposto sobre os salários dos empregados colocaria ostensivamente mais dinheiro nos bolsos dos consumidores, dando à economia uma injeção de ânimo.

Um corte de impostos na folha de pagamento é apenas uma das ferramentas sobre as quais o governo falou. Dois altos conselheiros da Casa Branca, incluindo Larry Kudlow, diretor do Conselho Econômico Nacional, também estão defendendo uma medida que permitiria aos investidores pagar impostos mais baixos sobre os lucros que ganham quando vendem investimentos. E Trump e seus assessores têm pressionado o Fed a reduzir rapidamente as taxas de juros e a se engajar em outras medidas de incentivo para colocar mais dinheiro na economia.

Eleição à vista

“Nossa economia é muito forte, apesar da horrorosa falta de visão de Jay Powell e do Fed”, disse Trump na segunda-feira pelo Twitter, referindo-se ao presidente do Fed, Jerome H. Powell. “A taxa do Fed, em um período relativamente curto, deveria ser reduzida em pelo menos 100 pontos-base, talvez com algum alívio quantitativo também. Se isso acontecesse, nossa economia seria ainda melhor, e a economia mundial seria aumentada em muito e rapidamente - bom para todos!”

Embora os cortes sobre impostos na folha de pagamento sejam populares entre os democratas porque tendem a beneficiar os trabalhadores da classe média, é improvável que tal medida seja adotada em um ano eleitoral em uma Câmara de Deputados liderada por democratas.

O pedido de cortes poderia dar mais munição política a Trump, que já começou a culpar os democratas por atiçar as chamas de uma recessão em potencial e poderia ajudar o presidente a colocar sobre seus opositores o ônus por não conseguir reduzir os impostos, se a economia enfraquecer mais ainda.

Trump, ao insistir que a economia vai bem, disse no domingo que os consumidores estão abonados com o dinheiro do corte de impostos de US$ 1,5 trilhão que ele sancionou em 2017.

Perguntado por repórteres no domingo se ele estava se preparando para uma recessão, Trump respondeu: “Honestamente, estou preparado para tudo. Eu não acho que estamos tendo uma recessão. Estamos nos saindo tremendamente bem. Nossos consumidores são ricos. Eu dei um tremendo corte de impostos e eles estão cheios de dinheiro. Eles estão comprando."

Alguns dos consultores de Trump manifestam em particular seus temores sobre as oscilações do mercado e o efeito das tarifas de Trump, que deverão aumentar no próximo mês, quando ele impuser um imposto de 10% sobre mais produtos chineses. Pesquisadores do JPMorgan Chase afirmaram na segunda-feira, 19, que as tarifas que Trump já impôs ao valor de US$ 250 bilhões em importações chinesas equivalem a um imposto de cerca de US$ 600 por ano para uma família americana média. Quando a próxima onda de tarifas estiver totalmente implementada, em dezembro, os pesquisadores, calculam que esse custo aumentará para US$ 1 mil por domicílio.

Críticas ao Fed

O presidente e seus consultores continuam a culpar os aumentos da taxa de juros do Fed em 2018 por qualquer desaceleração no crescimento, embora essas taxas permaneçam bem abaixo do que as autoridades do governo previam neste momento da expansão. O Fed também mudou para cortar as taxas, dando início a um corte de 0,25 ponto percentual este mês e sinalizando que cortes adicionais poderão acontecer em breve. Isso não impediu que a administração considerasse outras maneiras de injetar mais dinheiro na economia. Kudlow disse ao Fox News Sunday que o governo estava considerando uma segunda rodada de cortes de impostos.

 “Cortes de impostos 2.0, estamos examinando tudo isso”, disse Kudlow. “A propósito, o senador Rick Scott, da Flórida, um cara muito inteligente, apresentou uma ideia interessante - uma proposta em outra rede na semana passada. Ele disse: “Vejam, por que não tiramos as tarifas do comércio da China e as devolvemos aos contribuintes na forma de cortes de impostos?" Essa é uma ideia.”

Funcionários da Casa Branca também discutem um plano para reduzir os impostos sobre ganhos de capital - o que beneficiaria em grande parte os investidores ricos - sem um ato do Congresso, uma medida com a qual Kudlow também pareceu concordar. “Tudo o que estou dizendo é que há muitas boas ideias para criar mais incentivos para trabalhar, poupar e investir”, disse ele.

O movimento de ganhos de capital quase certamente seria contestado em juízo, e dentro do do governo tem a oposição do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin. Qualquer corte no imposto sobre a folha de pagamento exigiria que a administração trabalhasse com os democratas, que controlam a Câmara e que têm votos suficientes para rejeitar a medida no Senado. Os democratas da Câmara não mostraram nenhum apetite para reduzir os cortes de impostos desde que assumiram o controle da câmara em janeiro.

Sob Trump, a economia já está recebendo uma quantidade incomum de incentivos fiscais e monetários, dada a baixa taxa de desemprego. As taxas de juros continuam baixas pelos padrões históricos, e o Fed cortou-as em 0,25 ponto percentual no mês passado, enquanto autoridades manifestaram preocupação com a guerra comercial que está derrubando a confiança das empresas e o crescimento econômico.

incentivo fiscal reverteu as políticas de endurecimento do segundo mandato do presidente Barack Obama, que reduziu o déficit orçamentário federal. Os cortes de impostos de Trump, juntamente com vários acordos bipartidários para aumentar os gastos militares e domésticos que ele tornou lei, incharam o déficit, num momento em que, historicamente, ele estaria encolhendo. O déficit subiu 27% em julho para o ano fiscal de 2019, em comparação com o mesmo ponto em 2018, informou o Departamento do Tesouro neste mês. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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