Governo dos EUA garante sobrevida à BlackBerry

Washington é ainda um grande cliente da companhia, mas uma pesquisa mostra queda de 57% na aquisição desses aparelhos pelo governo

CECILIA KANG, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2013 | 02h12

As mudanças que ocorrem a passo de tartaruga em Washington afetaram a popularidade dos líderes políticos. Mas, no caso da BlackBerry, a tendência do governo federal a avançar lentamente oferece alguma esperança. Isso porque o governo é o maior cliente da BlackBerry e mesmo com o resto do mundo abandonando os smartphones da empresa e os trocando pelos Samsung Galaxy e iPhones, o BlackBerry, desprovido de aplicativos, continua sendo o aparelho básico em Washington.

Claro que nos últimos anos o governo reduziu suas compras de BlackBerry. Mas o abandono do aparelho vem se dando a um ritmo bem mais lento do que ocorreu com o mercado.

As agências costumam firmar contratos de compra de longo prazo no caso de aparelhos móveis - às vezes de três ou mais anos - e muitos departamentos renovaram seus contratos com a BlackBerry neste ano. O que significa que agências federais como o Departamento de Estado ou a Drug Enforcement Administration (DEA) estarão fornecendo aos funcionários esses aparelhos durante anos, afirmam os analistas.

"O domínio do BlackBerry no âmbito do governo chegou ao auge em 2011, mas o aparelho ainda reina entre os smartphones usados pelo governo", disse Geoff Celhar, analista da empresa Govini, que faz pesquisas dos contratos firmados pelo governo e publicou relatório ontem sobre o acordo com a BlackBerry. "Esta área de negócios das empresas privadas com o governo é uma grande oportunidade e um trunfo na estratégia de sobrevivência ou dissolução de uma empresa."

O Departamento de Estado aumentou seus gastos com os aparelhos BlackBerry este ano. Já a DEA não alterou seu orçamento. Mesmo o Departamento da Defesa, que abriu mais sua política de compras de aparelhos para incluir smartphones Android e iPhones, adquiriu 470 mil BlackBerrys de um total de 600 mil telefones.

Mudança. Mas a maré parece estar mudando. O Exército reduziu em dois terços suas compras de aparelhos BlackBerry desde 2011. "Os desafios enfrentados pelo Departamento de Estado em todo o mundo exigem que seus funcionários tenham acesso 24 horas às comunicações para que suas operações sejam eficazes", disse o porta-voz Steve Aguzin. "Para que essas comunicações sejam asseguradas, o que é essencial para as missões dos EUA no exterior, o BlackBerry atualmente é o único celular aprovado que atende às restrições em termos de segurança do Departamento."

No geral o governo federal gastou mais de US$ 40 milhões na compra de celulares BlackBerry em 2013, uma redução de 57% em comparação com as compras feitas em 2011, de acordo com relatório da Govini.

No mercado de consumo mais geral, a Waterloo, sediada no Canadá, estava na vanguarda, mas rapidamente perdeu importância, com apenas 3% do mercado de smartphones no segundo trimestre, segundo a empresa de pesquisa IDC.

Na semana passada, a companhia anunciou prejuízo de US$ 1 bilhão no seu último trimestre, em razão especialmente de uma baixa contábil dos seus aparelhos BlackBerry 10, cujas vendas foram deprimentes.

Mas a companhia tem também US$ 2,6 bilhões em caixa, e nenhuma dívida. Para analistas, sua robusta situação financeira será de grande ajuda para sua área de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos direcionados para a segurança.

Novos investidores. Na segunda-feira a BlackBerry aceitou uma oferta de aquisição de US$ 4,7 bilhões feita pela empresa de private equity Fairfax Financial. Os novos investidores pretendem reformular o foco da empresa e reconquistar sua imagem de provedora de serviços de software e e-mail seguros.

"Achamos que esta transação abrirá um novo capítulo fascinante para a BlackBerry", disse Prem Watsa, diretor executivo de Fairfax Financial, ao anunciar o acordo na segunda-feira. "Podemos de imediato proporcionar mais ganhos para os acionistas, e ao mesmo tempo continuaremos a implementar uma estratégia de longo prazo de uma empresa concentrada em oferecer soluções de nível superior e segurança para os clientes BlackBerry em todo o mundo."

Até certo ponto, a percepção de que o BlackBerry é mais seguro do que outros aparelhos ajudou a empresa a conquistar contratos na área do governo federal, dizem os analistas. Suas primeiras plataformas de software foram fechadas para desenvolvedores de fora e a empresa há tempos faz propaganda do seu serviço de e-mail codificado.

Alguns analistas apontaram deficiências no marketing do BlackBerry como o telefone mais seguro, dizendo que hackers conseguiram violar seus sistemas. Mas algumas agências federais mostram-se lentas na adoção de outros celulares para os funcionários e ainda continuam testando o iPhone da Apple e outros aparelhos que utilizam o sistema operacional Android, da Google.

Segundo analistas, as agências estão flexibilizando suas políticas nesta área e o BlackBerry não conseguiu provar como vai reconquistar clientes perdidos. O Departamento de Estado e a DEA já estudam alternativas para o aparelho./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.