Dida Sampaio/Estadão
Soja no cerrado. Desmatamento deve respeitar limites do Código Florestal, defenderam participantes do Summit; em paralelo, governos e produtores têm de focar na regularização ambiental Dida Sampaio/Estadão

Governo e agro devem afinar discurso ambiental 

Representantes do setor reafirmam sustentabilidade no campo, mas criticam ruídos de comunicação aqui e lá fora 

Clarice Couto, Julliana Martins e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

Um momento de autocrítica e de sugestões para melhorar a imagem do setor agropecuário aqui e no exterior e consolidar, enfim, o País como uma potência agroambiental. Assim podem ser resumidas as discussões do primeiro painel do Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão nos dias 23, 24 e 25 de novembro e que teve como tema “Reputação do agro – erros, acertos e exigências aqui e lá fora”. 

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, foi enfático ao dizer que “o erro principal” do agronegócio brasileiro é a falta de alinhamento de discurso, “principalmente no nível do governo federal”. “Talvez a gente não consiga mudar a lógica de como o governo pensa; governos são eleitos e o pensamento sempre vai ser na base da sociedade”, continuou, mas reforçou que é necessário um “alinhamento de discurso com o agro”. 

Nassar defendeu ainda que o produtor que desmata ilegalmente tenha a oportunidade de se regularizar, com base na lei ambiental do Brasil, o Código Florestal. “O desmatamento tem, logicamente, que ser controlado, mas com a chance de o produtor poder se regularizar e não ficar congelado, sem ter como voltar a produzir”, disse. Segundo o presidente da Abiove, essa prática vai permitir que se fale lá fora que o Código Florestal funciona.

Nassar lembrou ainda que, apesar de a União Europeia considerar a soja como uma cultura de risco ambiental, desde 2008 apenas 8% da expansão da área de soja na Amazônia foi proveniente de áreas desmatadas. No Cerrado, de 2014 para cá, somente 2% foram derrubados para aumentar a área de soja. 

Discurso correto

Na visão do presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito, o setor tem uma atuação “fantástica”, mas, para ser melhor julgado aqui e lá fora, é preciso que dirigentes entendam que “discurso é importante”. Brito falou sobre as discussões em torno da conservação da Amazônia e a forma como isso deve ser feito, em paralelo às atividades agropecuárias.

Para o presidente da Abag, é preciso contar mais sobre os benefícios que a conservação da região pode trazer para o País. “A Amazônia hoje é uma região pobre e difícil de desenvolver. A sociedade precisa entender qual é a ambição com a floresta protegida, o que a Amazônia conservada traz de vantagem ao País.”

Ainda para ele, o agronegócio brasileiro deve colocar foco em manter boas relações internacionais, comunicar corretamente as ações de preservação ambiental e se manter atento às novas tendências de consumo. “A mensagem dita para o eleitorado de fora (do País), que também é seu cliente e competidor, é que faz a grande diferença. Não sejamos ingênuos, os concorrentes não elogiam, e o jogo do mercado não é o jogo político”, afirmou Brito. O representante da Abag argumentou, ainda, que o partidarismo deve ser colocado de lado para que as relações comerciais do Brasil com outros mercados evoluam.

Algumas ONGs têm adotado discurso mais pragmático em relação à preservação ambiental aliada à produção agropecuária. Segundo o diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), André Guimarães, que também é cofacilitador da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, a ONG que representa quer “a mesma coisa que o agro quer, a mesma harmonia no campo e desenvolvimento”, garantiu. “Mas para o bem da nossa contribuição (ambiental) lá fora e para o próprio futuro da agropecuária brasileira, temos de eliminar o desmatamento ilegal”, disse. “Espero que em 2021 o vento comece a soprar na direção correta.” Guimarães acrescentou que o setor agropecuário brasileiro também deve entender que “preservar a Amazônia e cumprir o Código Florestal são ativos brasileiros”. 

Evidências

Ao citar a ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que dizia que, assim como a Amazônia “tira o Brasil do mundo”, também “coloca o Brasil no mundo”, provocou: “Então, por que não fazer um esforço coordenado para mostrar, com evidências, o que estamos fazendo (em termos de preservação ambiental no setor agropecuário)?”.

Guimarães afirmou também que conversa com muitas pessoas do exterior sobre o agronegócio brasileiro e elas não entendem que o produtor rural aqui tem direito, por lei, a desmatar. “Enquanto isso, a Amazônia e o nosso Código Florestal são atacados, embora a Amazônia seja de fato um problema com o qual temos de lidar.”

Para o presidente executivo da CropLife Brasil, Christian Lohbauer, porém, as críticas internacionais às políticas do governo do presidente Jair Bolsonaro e suas consequências para o agronegócio apenas potencializam um “problema que já existia”. “Os estrangeiros são influenciados pelo que os próprios brasileiros comentam. As nossas entidades (abrigadas na CropLife) vêm sofrendo por críticas ao agronegócio em geral, e o agro agora vem sendo avaliado como não seguro, por causa dos defensivos e outros temas, mas o governo Bolsonaro só potencializou um problema que já existia”, afirmou.

O diretor de Desenvolvimento Sustentável da Arcos Dorados – a maior franquia do McDonald’s no mundo, Leonardo Lima, reforçou que a política da companhia é não comprar insumos agropecuários provenientes de áreas desmatadas. “Somos uma empresa de mais de 50 anos e que pretende seguir por mais de 50 anos como Arcos Dorados”, disse, acrescentando que a empresa “não tem outra opção” a não ser olhar o que compra. Citou também que a empresa tem “planejamentos e compromissos públicos que vão além das exigências governamentais”. Lima informou que 90% do que a Arcos Dorados adquire é proveniente do próprio Brasil. “Hoje só a batata frita vem da Argentina”, mencionou. 

Para ele, a agenda ambiental é essencial. “Se nós não atuarmos de forma responsável e não tivermos políticas de compras sustentáveis, sem olhar o amanhã, não teremos a empresa no amanhã.”

Agenda positiva

Além disso, complementou que o que a Arcos Dorados procura fazer é “ter políticas claras do posicionamento da empresa”. “Temos falado sempre do desmatamento, mas que tal passarmos a falar das coisas positivas? Em vez de falar do desmatamento, que tal falar da floresta que está em pé em vez e abordar a que foi derrubada?”, questionou. “Não que tenhamos de deixar de lado o problema do desmatamento; aquele que estiver ilegal é o primeiro da fila (a ser inibido); isso não tem discussão.”

Ele comentou que participa do Grupo de Trabalho de Pecuária Sustentável (GTPS) e que, em 2014, a Arcos Dorados firmou compromisso de não comprar carne de áreas desmatadas. Disse, porém, que se anteriormente o McDonald’s não comprava “um grama” de carne da Amazônia, reconhece que atualmente há áreas desmatadas e em recuperação e podem ter atividades desenvolvidas ali. 

“Quando a gente olha a sustentabilidade, olhamos dois pontos – como se aumenta a eficiência e a produtividade e, na Amazônia, as áreas abertas já são mais do que suficientes para isso.” Ele defendeu, ainda, uma agenda positiva para o agronegócio brasileiro, tema que vem tratando dentro do GTPS. “Temos de dar luz a projetos positivos, tirar o negativismo da agenda ambiental do País”, exemplificou. “Temos de falar da pujança e exuberância da floresta amazônica como modelo de discussão e de como conseguimos alcançar o desenvolvimento com a floresta em pé.” 

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Summit Agronegócio Brasil 2020: Convivência possível

Tecnologia garante preservação; agronegócio e governo devem afinar discurso; pecuária pode ter visão mais inclusiva; implementar o Código Florestal é urgente e regularização fundiária é para ontem

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

O setor agropecuário brasileiro se tecnificou, elevou a produtividade e vem reduzindo fortemente a pressão por desmatamento ao recuperar áreas degradadas com tecnologias que, ao mesmo tempo em que mitigam as emissões de gases do efeito estufa, garantem produção maior de alimentos. Entretanto, toda a pujança dessa “potência agroambiental” e a comprovação, por meio de inúmeros exemplos, de que é possível aliar produção com preservação, nem sempre aparecem para quem olha de fora. Ao contrário. O agro do País ainda leva a fama de “desmatador”, principalmente no exterior.

O tema permeou os debates do Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão entre os dias 23 e 25 de novembro, em formato online. Uma das sugestões para contornar o problema foi de que o governo federal deveria evitar ruídos desnecessários e alinhar seu discurso ao do agronegócio que produz e preserva. Além disso, o País precisa continuar a fazer a lição de casa, implementando o Código Florestal em sua plenitude, sobretudo quanto à regularização ambiental, e não se demorar na criação de um amplo programa de regularização fundiária – uma das medidas para inibir a retirada ilegal de floresta nativa. Afinal, as cobranças só aumentarão, inclusive as dos Estados Unidos, que acabaram de eleger Joe Biden presidente.

Nos debates sobre a pecuária, a mensagem que fica é a de que não adianta apenas excluir o produtor que cometeu irregularidades ambientais. Em vez disso, governos e cadeia produtiva podem trabalhar juntos em favor da regularização e posterior reinclusão desses pecuaristas no mercado – outra medida que contribui para evitar mais derrubada de matas nativas. Já na ponta tecnológica, os Painéis Tech do Summit apresentaram soluções que contemplam a economia de insumos, de recursos e crédito mais barato e seguro, além de contribuírem com a profissionalização do campo e a otimização da atividade agropecuária. 

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Campo está na mira, mas tem o que mostrar

Para Justin Adams, da TFA, País conta com iniciativas sustentáveis e deve divulgá-las 

Clarice Couto, Julliana Martins e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

O agronegócio brasileiro tem pela frente desafios e oportunidades para mostrar o que vem fazendo e avançar na agenda de preservação ambiental. Neste sentido, o ano de 2021 será crucial, disse o diretor executivo da Tropical Forest Alliance (TFA), Justin Adams, que proferiu a palestra de abertura do Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão nos dias 23, 24 e 25 de novembro. No próximo ano, lembrou que será realizada em Glasgow, na Escócia, a COP26 (26.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), “o mais importante evento sobre clima desde Paris 2015”. 

Adams citou que o mundo vem observando os impactos das mudanças climáticas e que produtores rurais estão entre os que mais sofrem os efeitos dessas transformações. “Nos Estados Unidos tivemos 16 eventos com prejuízo de US$ 1 bilhão neste ano, e o Banco Mundial estimou que US$ 44 trilhões do PIB global dependem da natureza”, informou. “O agronegócio e o uso da terra estão sob escrutínio como nunca antes”, reforçou o representante da TFA.

Adams comentou que 18 grandes empresas e varejistas criaram recentemente uma coalizão de ação contra o desmatamento, a Forest Positive Coalition of Action, que pretende intensificar os esforços para adquirir soja e outros produtos que não venham da derrubada de florestas. 

Fundos

A pressão vem não somente dos consumidores, mas também dos investidores internacionais, segundo Adams, que informou que 246 deles, que administram US$ 17,5 trilhões, se engajaram em iniciativas contra o desmatamento. “Esses fundos estão deixando de investir em ações relacionadas à derrubada de florestas na Amazônia.”

O governo chinês e o novo presidente dos EUA, Joe Biden, também devem reforçar a pressão sobre a redução de emissões de gases de efeito estufa e o combate ao desmatamento no Brasil. Adams afirmou que o mercado de carbono é uma oportunidade promissora no curto prazo e que o País pode liderar em ações nesta área. “Não subestimem declaração recente do presidente chinês em Nova York sobre neutralizar emissões da China antes de 2060”, alertou. 

Prioridade

Ele chamou a atenção para as demandas da administração Biden. “A recuperação verde e as mudanças climáticas serão prioridade para Biden. Acredito que ele vai cobrar o Brasil em relação à redução das emissões de gases de efeito estufa”, alertou. Adams lembrou, ainda, que cresce a pressão de países europeus sobre o acordo da União Europeia e do Mercosul e o risco de “importar desmatamento”. Reforçando que o Brasil “claramente exerce papel fundamental na segurança alimentar global”, o representante da TFA fez algumas recomendações ao País para mostrar o que vem fazendo na área ambiental e progredir neste sentido. A primeira delas é eliminar o desmatamento ilegal. 

Outra proposta é avançar na implementação do Código Florestal. “O Brasil tem de indicar quando e como vai fazer isso.”

Na sua avaliação, o País também deve “abraçar a transparência, envolvendo-se em diálogos e negociações internacionais” sobre mudanças climáticas e meio ambiente. “Há tantas oportunidades para o Brasil se envolver e liderar. O País tem feito um trabalho incrível no campo, é hora de liderar também na área ambiental”, disse. Um exemplo, segundo ele, seria o Estado de Mato Grosso levar à COP26 as ações adotadas no Estado para mitigar emissões de gases de efeito estufa e de respeito a leis ambientais. Adams chamou a atenção, por fim, para o interesse de grandes companhias produtoras de chocolate de aumentar a aquisição de cacau da Amazônia. “Hoje, 78% do cacau vem do oeste da África.” 

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Inclusão do criador no campo ajuda a reduzir desmatamento

Iniciativas visam regularizar situação ambiental do pecuarista para que ele saia da lista de vetos de frigoríficos e volte a fornecer

Clarice Couto, Julliana Martins e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

Uma das iniciativas que podem contribuir para a redução do desmatamento não só na Amazônia, mas também de outros importantes biomas brasileiros, como o Cerrado, é a regularização ambiental e a consequente reinclusão de pecuaristas vetados como fornecedores de bovinos para os frigoríficos. Este foi um dos principais assuntos defendidos no painel “Pecuária, o calcanhar de aquiles da boa imagem ambiental do agronegócio brasileiro”, durante o Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão entre os dias 23 e 25 de novembro. 

O diretor de Sustentabilidade da JBS, Márcio Nappo, detalhou o programa recentemente lançado pela companhia, “Plataforma Verde JBS”, que visa rastrear 100% da cadeia de fornecedores de bovinos até 2025 e, além disso, contribuir para a regularização ambiental de pecuaristas que tenham cometido alguma ilegalidade prevista no Código Florestal

“Vamos trabalhar com inclusão; vimos, ao longo da nossa experiência em relação ao monitoramento dos fornecedores diretos (de gado à companhia), que apenas excluir o produtor não adianta para frear o desmatamento.” Atualmente, a JBS monitora 50 mil pecuaristas na Amazônia. “Todo dia atualizamos o cadastro, rodamos o sistema e vemos os produtores que estão ou não em conformidade.”

Sem exclusão

A diretora executiva da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Liège Vergili Nogueira, disse que a entidade vem fazendo um esforço muito grande para trazer os produtores rurais que têm embargos e problemas ambientais a serem resolvidos para continuarem na atividade pecuária. Ela também concordou que “não se resolve o problema excluindo, já que isso acaba causando outro problema no setor”. Afinal, como se costuma dizer no meio pecuário, os bois criados em propriedades não conformes “não morrem no pasto”. 

Ela comentou, ainda, que é preciso olhar para os lados ambiental e econômico, mas também o social, que muitas vezes acaba sendo deixado de lado. “A Abiec tem feito tem feito esse movimento de olhar para o produtor rural que está vetado da lista de frigoríficos que fazem monitoramento da cadeia”, disse ela, ressaltando que o objetivo é enxergar de que forma essa matéria-prima pode continuar no mercado.

Para o diretor de Produtos da empresa de soluções digitais Agrotools, Breno Felix, apenas cerca de 10% das propriedades pecuárias têm algum problema ambiental – a Agrotools trabalha há dez anos com monitoramento de propriedades pecuárias na Amazônia. Ainda conforme o executivo, desse porcentual, mais da metade dos produtores nem tem conhecimento que cometeu ilegalidades. “Nesses casos, os problemas se resolvem de forma muito fácil”, afirmou. 

Ele acrescentou que os casos de difícil solução, porém, representam uma parcela ínfima da produção e que o produtor rural também quer acabar com as ilegalidades ambientais para se reinserir no sistema. Para auxiliar a cadeia produtiva, Felix diz que a Agrotools pretende, agora, “entrar de cabeça” no monitoramento de fornecedores indiretos de gado aos frigoríficos – aqueles criadores que produzem bezerros e bois magros para vender ao pecuarista que vai engordar o boi e vender para abate. 

Foco na China

Para o diretor da área de Grandes Animais da Boehringer Ingelheim, Nivaldo Grando, é essencial a conformidade ambiental de toda a cadeia para atender a exigências externas e internas. “A China, por exemplo, está se preparando para ser um grande importador de carne bovina nos próximos anos”, citou. Ele disse, ainda, que quando se pensa em carne bovina, principalmente Brasil e Estados Unidos terão condições de garantir o abastecimento no futuro. “São os dois principais players; por isso nossos investimentos vão para esses países.”

O presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), Caio Penido, mencionou que o Brasil entrou em 2020 com um pacote robusto de biodiversidade, fixação de carbono e políticas de bem-estar animal, “o que nenhum outro país tem”. Contudo, ainda assim, o Brasil e sua pecuária ainda precisam lidar com uma imagem prejudicada no mercado internacional. 

Ele comentou, também, que o Brasil “assusta” os outros países, pela velocidade com que parou de importar alimentos para ser um dos maiores produtores e exportadores do mundo, com uma “produção bem mais eficiente e com biodiversidade”. 

Situação fundiária ainda aguarda solução

Embora o setor agropecuário tenha avançado em tecnologia e sustentabilidade, ainda há obstáculos a serem removidos para carimbar a produção do País com o selo verde. Os dois principais são a regularização ambiental dos produtores com as regras do Código Florestal e a regularização fundiária, defenderam os participantes do painel “Caminhos trilhados e ainda por trilhar para um agronegócio sustentável de fato”. 

A advogada especialista em direito ambiental Samanta Pineda disse que, no âmbito do Código Florestal, o preenchimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) pelos produtores revelou um problema fundiário de sobreposições de áreas no País. Assim, o primeiro problema a ser atacado seria esse, “para depois se partir para a regularização ambiental”. Ela disse também que “não será possível fugir da tecnologia” na regularização fundiária. “Se por exemplo todos os processos atuais no Incra fossem avaliados manualmente, seria preciso 162 anos para zerá-los.” Ela lembrou que o País detém 150 milhões de hectares “que nunca foram atribuídos a ninguém”. “Isso é prato cheio para grilagem, traficantes de madeira e garimpo ilegal.”

O especialista em Agronegócio Sustentável da National Wildlife Federation (NWF), Francisco Beduschi, defendeu uma melhor estrutura do Incra para a regularização fundiária. “Temos de avançar em direção à regularização fundiária e ambiental, mas trabalhando para que os órgãos governamentais façam a sua parte”, afirmou. “O Incra deve ter mais gente e meios para isso.”

O deputado federal Marcelo Ramos (PL-AM) disse que fará “todos os esforços” para incluir o Projeto de Lei 2.633/2020, da regularização fundiária, como prioridade na pauta da Câmara e que há condições para levar o projeto ao plenário até o fim deste ano. Ele contou que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), assumiu o compromisso de colocar o PL em pauta, mas até agora não se chegou a um consenso. Ele garantiu que o novo projeto “não será um convite à grilagem e ao desmatamento”. 

Segurança

Para o presidente da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Muni Lourenço, “a regularização fundiária elimina a insegurança jurídica e facilita o controle ambiental”. “E, com a regularização, o poder público pode promover um ordenamento territorial para o consequente monitoramento ambiental.”

O diretor regional da Basf para a América Latina, José Eduardo Vieira, chamou a atenção para o fato de que a agricultura sustentável é o caminho certo para o aumento da produtividade. “O conjunto da obra, com melhoramento genético, agricultura de precisão, menor emissão de gases e melhor gerenciamento é que vai fazer com que agricultores enfrentem o desafio de escalonar produção com qualidade e segurança alimentar.” 

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Agronegócio preserva o meio ambiente, defende César Hanna Halum

Secretário de Política Agrícola lembrou que produtores deixaram de desmatar 123 milhões de hectares em 50 anos

Clarice Couto, Julliana Martins e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, César Hanna Halum, garantiu que o setor agropecuário brasileiro preserva o meio ambiente e conclamou detratores do País a vir aqui para checar, in loco, essa preservação. Halum participou da abertura do Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão. Segundo o secretário, o Brasil tem números que permitem dizer, “com tranquilidade, que o agronegócio brasileiro preserva”.  

Ao citar a importância econômica do setor para a economia, o secretário disse que 45% das exportações do País são do agro, que também perfaz 21% do Produto Interno Bruto (PIB). O representante do ministério acrescentou que, ao longo dos últimos 50 anos, quando começaram as pesquisas da Embrapa, o País cresceu em produção utilizando menos área. Garantiu que os produtores rurais deixaram de desmatar 123 milhões de hectares no período por causa do expressivo aumento da produtividade.

Voluntário

O secretário comentou, além disso, que o País está no Acordo de Paris “porque quer, porque é voluntário”. “Não fomos obrigados a entrar no acordo e estabelecemos planos, por causa dele, que hoje são copiados em todo o mundo, como o Plano ABC, de agricultura de baixo carbono.”

Citou também que o Brasil colhe duas safras por ano na mesma área e, com maiores investimentos em irrigação, deve passar a colher três safras anuais, o que aumentaria ainda mais a sustentabilidade do agronegócio brasileiro em termos mundiais. “Não há exemplo maior de preservação do que isso”, reforçou. “Além disso, 66% da nossa área territorial está preservada, temos uma política ambiental rígida, como o Código Florestal. Não há país no mundo que preserve tanto e consiga produzir tanto.”

Sobre o desmatamento na Amazônia, ele disse que a legislação para o bioma permite que se desmate no máximo 20% para atividades agropecuárias. “E a floresta amazônica foi, até agora, 18% desmatada. Ou seja, ainda se desmatou aquém do permitido.” 

Gargalos

Ele citou também que o Estado do Amazonas tem 90% da área preservada, embora ali ainda haja problemas sociais a serem solucionados. “Por isso, temos de investir em regularização fundiária; o Ministério da Agricultura tem atuado nisso e o presidente Jair Bolsonaro já disse que é prioridade do governo dele.” 

Em relação aos problemas sociais, o representante acrescentou que logicamente ainda há muitos problemas no bioma que têm de ser resolvidos, como garimpo ilegal. “Mas a Amazônia é uma área imensa para ser fiscalizada, e isso é um desafio.”

O secretário disse, ainda, que o Ministério da Agricultura está trabalhando no sentido da preservação ambiental com base em três plataformas: inovação e sustentabilidade, agricultura familiar (para que seja mais inclusiva e combata a pobreza rural) e ordenamento territorial, com base na regularização fundiária.

Acrescentou, além disso, que o governo tem convidado os detratores a conhecerem in loco como o Brasil preserva. “Recentemente a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, fez um tour pela Amazônia com vários embaixadores”, lembrou. Ele finalizou sua fala acrescentando que, no quadro geral, o Brasil tem números diferentes dos que os críticos divulgam lá fora. “Recomendo, para isso, o teste de São Tomé: venham para crer.” 

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Tecnologia no mundo agro cresce e conectividade é gargalo

Iniciativas ligadas a empresas e à pesquisa ampliam o uso de soluções high tech, que ainda necessitam, porém, de informação imediata 

Clarice Couto, Julliana Martins e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

Pelo terceiro ano consecutivo no Summit Agronegócio 2020, promovido pelo Estadão, empresas, startups e outras instituições com serviços voltados à tecnologia no agro puderam apresentar soluções e iniciativas que contribuem para o aumento de produtividade no campo, redução de custos, monitoramento de lavouras e crédito mais barato. 

Entre os dias 23 e 25 de novembro, sete iniciativas foram apresentadas, como o Ideas for Milk – programa de desenvolvimento de tecnologia para o setor lácteo da Embrapa Gado de Leite –, os serviços da TerraMagna, da Xarvio e da Arpac, além de investimentos e projetos de ampliação de uso de ferramentas tocados por grandes empresas, como Ericsson, John Deere e SLC Agrícola. 

O coordenador de Agricultura Digital da SLC Agrícola, Ronei Sana, por exemplo, confirmou que a conectividade “é um grande acelerador” dos negócios da companhia, um das maiores produtoras de grãos do País. Segundo o executivo, quando uma propriedade troca a transferência de dados de colheita de um pen drive para a conectividade em tempo real “há uma grande aceleração no processo”. “As decisões passam a ser tomadas em tempo real e aí vem o grande salto”, garantiu ele, informando ainda que por isso a SLC trabalha com 20 plataformas de tecnologia nas lavouras. 

‘Vacathon’

Para o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, Paulo do Carmo Martins, de fato, a propriedade rural “deve caber no smartphone”. Em sua exposição, ele apresentou um amplo projeto de expansão de tecnologias dentro da cadeia pecuária leiteira, o Ideas for Milk. “Desde 2016 a iniciativa traz inovação ao segmento leiteiro”, comentou ele, garantindo que a “pegada digital no agro” começou, surpreendentemente, pelo setor leiteiro, que é visto como o menos organizado das cadeias produtivas do País.

Iniciativas como desafios de startups e o “Vacathon” contribuem, segundo Martins, para garantir a inovação ao setor, inclusive pelo fato de startups desenvolvidas dentro do Ideas for Milk já estarem se internacionalizando.

Outra empresa que é reconhecida por fortes investimentos em tecnologia, a John Deere, lembrou, em painel, da importância de investimentos em conectividade no campo. Conforme o diretor de Tecnologia e Soluções Inteligentes da John Deere para América Latina, Rodrigo Bonato, o papel da indústria é mostrar para as operadoras de celular que existe demanda de tráfego de dados no campo, com os produtores utilizando a comunicação e a tecnologia para mudar a forma de administrar as suas fazendas. “Além disso, é preciso reforçar que o campo apresenta ótimas condições para implementação de maior conectividade, com produtores bem capitalizados dispostos a fazerem investimentos nesse aspecto e regulamentação muito bem descrita”, reforçou.

O diretor de Soluções de Redes da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, Paulo Bernardocki, concordou que o atual momento é para se trabalhar a conectividade, “que é o primeiro passo para uma longa jornada de automatização e melhoria tecnológica na agricultura”. 

Segundo o executivo, por muito tempo o foco das operadores esteve no varejo e nos grandes centros urbanos. Com a chegada de tecnologias como a fibra óptica, por exemplo, a possibilidade de implementação na área rural melhorou muito. “A tecnologia deu um passo à frente, o que facilita nossa conexão no campo. Não podemos esperar o governo para dar esses passos, temos que fazer acontecer”, acrescentou. 

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Liga do Araguaia prova que pecuária ‘sequestra’ carbono

Fazendas participantes tocam projetos com Embrapa e empresas do setor para tornar a atividade cada vez mais sustentável 

Moacir José, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

Em tempos de pressão internacional por um Brasil mais atuante na área ambiental, um movimento de produtores localizados em uma das áreas de floresta mais importantes de Mato Grosso comprova que a pecuária pode não só ser sustentável como contribuir fortemente para o sequestro e a redução dos gases do efeito estufa (GEE). 

A Liga do Araguaia, movimento nascido em 2014 no Vale do Araguaia, na divisa com Goiás, reúne 63 fazendas com 149 mil hectares de pasto e rebanho bovino de corte de 130 mil cabeças. O objetivo do grupo é a realização de projetos que resultem em diferenciação dos produtores da região e em agregação de valor à carne, por intermédio da implementação de práticas de pecuária sustentável. 

Desde 2015, seis projetos em parceria com a Embrapa e grandes empresas do setor de carnes foram idealizados, sendo dois já concluídos, um terceiro em fase final e três em andamento.

Cálculos

O coordenador executivo da Liga do Araguaia, José Carlos Pedreira de Freitas, exemplifica: “Sabemos que uma pastagem intensificada (com pasto reformado e com capacidade de alimentar mais animais por área) remove mais carbono da atmosfera do que um pasto degradado. Mas quanto? Teremos essa resposta em breve”, diz ele, referindo-se ao projeto “Carbono Araguaia”, um dos primeiros da Liga, iniciado em 2015 e que deve estar concluído até janeiro de 2021.

Para o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária, os projetos tocados na Liga do Araguaia – dos quais ele participa – são superimportantes, na medida em que mostrarão caminhos para se ter um conhecimento mais efetivo sobre o carbono no solo, sobretudo em pastagens. “O que precisamos? De pontos de referência. E as fazendas da Liga são uma referência; são 82.000 hectares no projeto Carbono Araguaia”, cita, e continua: “Talvez seja o maior projeto de acompanhamento de propriedades privadas no que diz respeito a como boas práticas podem melhorar a intensificação da pecuária. E, para intensificar, é preciso ter mais carbono no solo”, diz ele.

O pesquisador – que também é membro do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas – explica, por exemplo, que um pasto degradado emite cerca de 3 mil quilos de gás carbônico (CO²) equivalente por ano, 66% mais do que emite um bovino adulto na forma de metano (expelido pelo “arroto”) e óxido nitroso (emitido através de urina e fezes). “Como em pastos degradados não existe muita proteção no solo, não há retenção de CO² e a emissão fica maior. Já um pasto recuperado não só deixa de emitir gases do efeito estufa como sequestra 3,66 toneladas de CO² equivalente por ano”, explica o pesquisador da Embrapa.

Várias práticas

Pedreira acrescenta que pecuária sustentável é um conjunto de práticas e que a mitigação de gases do efeito estufa é apenas uma delas. “Uso de integração lavoura-pecuária, integração lavoura-pecuária-floresta, bem-estar animal, regularização ambiental são outros conceitos utilizados pela Liga.”

Sob este aspecto, mais um projeto – o primeiro deles e já concluído – trouxe resultados bastante satisfatórios, o “Campos do Araguaia”, cujo principal objetivo era a preservação e a regularização ambiental das fazendas.

Iniciado em 2015 e finalizado em 2017, deixou a marca de 44 mil hectares de pastos recuperados e intensificados em 36 propriedades, representando quase 30% da área total das fazendas da Liga. Além disso, foram mantidos intocados 38 mil hectares de florestas em áreas de Reserva Legal e 9.500 ha de áreas de preservação permanente (APPs). Recuperaram-se também 3.286 hectares de APPs desmatadas.

“Este é o grande legado desse projeto: não só evitou que se desmatasse mais, como recuperou parte das APPs e intensificou uma grande área de pastos”, diz Pedreira, lembrando ainda que as propriedades, localizadas no Médio Araguaia, bioma Cerrado, têm como exigência do Código Florestal a manutenção de mata em 35% da área da propriedade.

Em parceria com a JBS/Friboi, a Liga do Araguaia foca também na redução da idade de abate – o que, por tabela, contribui para a menor emissão de gases do efeito estufa, já que o bovino passa menos tempo no pasto emitindo metano. No âmbito do projeto “Rebanho Araguaia”, a JBS/Friboi, que possui 12 frigoríficos na região do Médio Araguaia, firmou parceria com 13 fazendas da Liba e deve agregar 10 propriedades a cada ano dos três de duração do projeto. A companhia não esconde que o principal mercado visado para os animais abatidos dentro do Rebanho Araguaia é o da China, principal importador de carne do Brasil, que tem como exigência comprar carne de animais com no máximo 30 meses de idade.

Gestão e ambiente

O projeto contempla também práticas de melhor gestão da atividade, para maior profissionalização dos pecuaristas e também intensificação de pastagens, seja por meio de adubação das áreas ou integração com lavouras.

Assad, da Embrapa, confirma a menor emissão de gases do efeito estufa também neste projeto. “Além da qualidade melhor da carne proveniente de um animal mais jovem”, afirma. “Como os chineses são um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, buscam compensação em outros setores”, diz. 

Criador que formou a Liga recuperou 2,2 mil ha de pasto

O idealizador da Liga da Araguaia foi o pecuarista Caio Penido que, inconformado com a má imagem da atividade, resolveu reunir seus pares no Médio Araguaia. Depois de muitas reuniões, a Liga foi criada no fim de 2014. Sua Fazenda Água Viva, em Cocalinho (MT), virou referência. “Na agropecuária tropical é possível recuperar áreas degradadas, aumentar a lotação do gado, reduzir a idade de abate e manter um bom estoque de CO2 no solo sem desmatar.” A própria Água Viva recuperou 75% de um total de quase 3 mil hectares de pastos degradados. Pôde, assim, alojar mais animais por área, o que permitiu ampliar o rebanho de 1.779 para 3.453 cabeças. 

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Dez anos de práticas de baixo carbono na lavoura e no pasto

Plano ABC, do governo federal, já conta com 27 milhões de hectares de cultivos que reduzem ou sequestram emissões 

Roberto Nunes Filho, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

Política nacional focada em estimular a agricultura sustentável e fomentar tecnologias com alto potencial para reduzir as emissões de gases do efeito estufa (GEE), o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) completou, em 2020, dez anos colecionando resultados animadores e superando as metas do Brasil ligadas à agropecuária sustentável no âmbito do Acordo do Clima. A iniciativa contempla crédito rural a juros subsidiados para atividades agropecuárias que comprovadamente sejam sustentáveis e contribuam para mitigar emissões. 

Dados mostram que, entre 2010 e 2018, foram recuperados 26,8 milhões de hectares de pastagens que possuíam algum nível de degradação – área bem superior à meta do plano, que era de 15 milhões de hectares, conforme estudo da Universidade Federal de Goiás. A área recuperada equivale a pouco mais do que o tamanho do Reino Unido, que tem 24 milhões de hectares. “Deste total, 10 milhões de ha estavam totalmente degradados”, diz o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Celso Manzatto. 

Outro indicador de sucesso é o de financiamento de soluções voltadas à redução de gases do efeito estufa. Conforme o Ministério da Agricultura, somente no primeiro trimestre do atual ano-safra 2020/2021, que se iniciou em 1.º de julho, as áreas financiadas pela linha de crédito do Plano ABC passaram de 245 mil para 485,1 mil hectares, notável salto de 97,9%, em comparação com igual trimestre do ano-safra anterior. Além disso, as operações totalizaram R$ 1,068 bilhão, aumento de 36,8%. O número de contratos subiu, passando de 796 para 1.202, ou 51% a mais. Desde que foi criado, o Plano ABC já financiou mais de R$ 20,8 bilhões. 

Mais resultados

De 2010 a 2018, mais de 40 milhões de hectares no País adotaram as tecnologias previstas no Plano ABC, segundo o relatório da Embrapa. Os dados consideram as áreas financiadas tanto com recursos do plano, quanto investimentos dos próprios produtores e outras linhas de crédito. Considerando apenas o financiamento do ABC, a área contemplada soma quase 10,5 milhões de hectares. 

Todos esses avanços, consequentemente, reduziram significativamente as emissões de GEE. Os resultados mapeados indicam que, entre 2010 e 2018, o Plano ABC permitiu sequestrar entre 100,21 milhões e 154,38 milhões de Mg CO² equivalente, contribuindo de maneira significativa com os compromissos nacionais de redução de emissões até 2020. Este dado integra um amplo estudo realizado pela consultoria Agroicone. 

Para a diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, Mariane Crespolini, o grande diferencial do Plano ABC, como política pública, é que ele traz ganhos ambientais, sociais e econômicos – caráter que estimula a adesão dos produtores. “As tecnologias que integram o Plano ABC aumentam a produtividade das fazendas e, consequentemente, a renda do produtor.” 

“Todas as tecnologias que estão no Plano ABC fazem sentido do ponto de vista produtivo”, corrobora Celso Manzatto. “Além do ganho econômico, outro fator que está estimulando a adesão é a exigência do próprio mercado. “Todo o sistema financeiro está mobilizado em reduzir riscos e a investir com segurança. Os grandes frigoríficos também estão com essa agenda por pressão do mercado. Essa é a nova lógica e um caminho sem volta.” 

Novo plano deve contemplar também a irrigação

O Plano ABC está passando por uma revisão para a próxima década. No foco do Comitê Diretor, abrigado no Ministério da Agricultura, está a definição de novas metas e medidas, como a inclusão de novas tecnologias mitigadoras de gases do efeito estufa. “Atualmente, as soluções envolvem recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, sistema de plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, plantio de florestas e tratamento de dejetos”, revela a diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, Mariane Crespolini. “Agora, estamos discutindo a adoção de novas tecnologias, como a agricultura irrigada, por exemplo”, cita. “Há também discussões em torno de avanços para o sistema de integração lavoura-pecuária e no sistema de confinamento de bovinos”, complementa o pesquisador Celso Manzatto, da Embrapa. 

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‘Quem exporta já provou ser sustentável’

Segundo analista, exigências ambientais tendem a crescer com Biden, mas multilateralismo pode facilitar negociação

Entrevista com

Felipe Novaes, analista de agronegócio e alimentos da consultoria Tendências

Leticia Pakulski, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 07 de dezembro de 2020 | 16h51

A exigência de sustentabilidade para o agronegócio brasileiro tende a ganhar a força com a presidência de Joe Biden nos Estados Unidos, avalia o analista de agronegócio e alimentos da consultoria Tendências, Felipe Novaes. Por outro lado, com o fortalecimento de órgãos multilaterais, será possível discutir uma agenda de longo prazo que permita ao País mostrar avanços em preservação ambiental. Segundo Novaes, o agro já atende a protocolos de sustentabilidade, e o uso de tecnologia pode disseminar a prática ainda mais. 

O agronegócio do Brasil pode ser considerado sustentável?

O agronegócio brasileiro mais voltado às exportações ganhou espaço tendo que comprovar ser sustentável. As atividades que se direcionam para o mercado externo precisaram atender a protocolos objetivos de garantia de segurança do alimento, rastreabilidade dos produtos e responsabilidade social e ambiental. E as exigências vêm aumentando. Existe um agro de menor tecnologia, mais voltado para o mercado interno, e nesse caso há uma dificuldade de cobertura de política pública para ajudar os produtores no quesito modernização.

Por que o agro brasileiro vem tendo imagem negativa lá fora?

Muito da percepção negativa que se tem do agro brasileiro é resultado de uma agropecuária com margem de modernização ainda alta ante os países desenvolvidos. Por exemplo, a pecuária europeia é diferente da brasileira, com menos uso de área e mais confinamento. Com o esgotamento de áreas por lá, há quase um movimento forçoso para aumentar a produção com os mesmos recursos. A disparidade de etapas de desenvolvimento entre regiões acaba fomentando discursos negativos em relação ao agronegócio brasileiro. Um segundo elemento são interesses resistentes a uma agenda de abertura comercial no mercado internacional para produtos brasileiros, que são competitivos. Mas isso é só uma parte da questão. Há um uso desse discurso como meio protecionista, mas ele varia no tempo e tende a ser menos justificável no contexto de maior preocupação com segurança alimentar.

Qual é a influência da eleição de Joe Biden para a presidência nos EUA sobre exigências de sustentabilidade para o Brasil, especificamente para o agro?

Biden já deu sinais favoráveis ao fortalecimento dos órgãos multilaterais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio). Parece haver convergência em favor do multilateralismo, o que beneficia o Brasil. E a preocupação de Biden com meio ambiente não deve trazer só prejuízos ao País. Ele deve ser mais rigoroso com a implementação da mistura de etanol à gasolina nos EUA. Isso influencia a demanda por etanol e milho, que o Brasil também produz e é competitivo, e o agronegócio brasileiro pode ser beneficiado. Na relação bilateral, os principais produtos do agro brasileiro exportados para os EUA são madeira e celulose. Celulose, em função dos protocolos que a indústria precisa atender, está menos suscetível a pressões do que madeira. Em 2019, órgãos de fiscalização ambiental como o Ibama tiveram quadros de funcionários estratégicos esvaziados. Assim, muitas das cobranças de Biden, inclusive nas esferas multilaterais e com respaldo da União Europeia, devem vir no sentido de reconstituir quadros desses órgãos.

Como você vê a posição do Brasil quanto ao Acordo de Paris?

Não é desprezível o risco de esse tema ser instrumento de pressão de países que estão na dianteira da defesa do acordo, tendo como contrapartida exportações do agronegócio. Neste caso, pode haver um cenário de conflito ministerial. O Ministério da Agricultura vem demonstrando relativo pragmatismo maior (sobre benefícios do acordo) em relação ao Itamaraty e ao Ministério do Meio Ambiente. Pode prevalecer a agenda da Agricultura, que ganhou força.

O quanto o governo ajuda ou atrapalha na imagem ambiental do agro brasileiro?

As demonstrações têm sido em geral negativas para a imagem e a credibilidade do agronegócio brasileiro no exterior. Se fizéssemos uma ponderação do efeito líquido, seria negativo.

A pressão de varejistas europeus para bloquear compras ligadas a desmatamento no País é uma mudança de paradigma? 

Sim, e em um governo Biden, deve ganhar força. Mas, com o fortalecimento de instâncias multilaterais, o Brasil pode fazer com que uma possível ameaça se torne agenda de longo prazo em que o País mostre avanço (em preservação).

De que maneira o agro brasileiro pode trabalhar para melhorar a imagem lá fora?

O agronegócio já mostrou sua capacidade de mobilizar influências políticas. O setor pode buscar linhas de crédito ou programas de fomento ao agro social e ambientalmente responsável. É difícil atribuir a responsabilidade só a empresas e produtores. Se há algo que precisa de cumplicidade entre esfera privada e pública, é a preservação ambiental. 

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Um cadastro ambiental à espera de validação

Um total de 6,5 milhões de propriedades rurais foi inserido no CAR; certificação agora depende de checagem federal e estadual 

Julliana Martins, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h00

O prazo para produtores inserirem suas propriedades rurais no Cadastro Ambiental Rural (CAR) se encerra em dia 31 de dezembro – respeitando esta data, o produtor terá benefícios na recomposição de florestas em sua propriedade, caso seja necessário. A grande maioria dos produtores cumpriu este prazo, já que pelo menos 6,5 milhões de imóveis rurais foram inseridos na base do CAR. A “bola” está agora com os órgãos oficiais – Ministério da Agricultura e governos estaduais – para validar esses cadastros e implementar de fato os Programas de Regularização Ambiental (PRAs)

Uma das principais medidas será, por exemplo, entender por que 6,5 milhões de propriedades rurais foram cadastradas quando há 5,5 milhões de proprietários rurais no País, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – o que provoca a suspeita de que algumas terras foram cadastradas mais de uma vez, por diferentes proprietários.

Insegurança

É consenso entre as entidades ligadas ao agro que a validação do CAR é o desafio mais urgente. Para o vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Renato Junqueira, porém, o trabalho do governo “ainda é incipiente e a segurança jurídica do produtor só virá depois que tudo estiver implementado”. 

O Ministério da Agricultura tem discutido com o setor um sistema de validação informatizado do CAR – já que analisar 6,5 milhões de cadastros manualmente seria quase impossível. Até o momento, porém, a ferramenta ainda não foi lançada.

A digitalização, contudo, não precisa ser o ponto de partida, na opinião da secretária executiva do Observatório do Código Florestal, Roberta del Giudice. Para ela, os Estados podem começar definindo um critério próprio de validação. “Precisamos de políticas nos Estados que digam o que vai ser analisado primeiro. O cadastro é gigantesco, se não disserem por onde começar essa análise, perde-se em eficiência.”

Outro ponto que merece atenção é a base a ser utilizada para a validação, dada uma série de problemas cartográficos nos mapas de biomas brasileiros, diz a advogada especialista em direito ambiental Samanta Pineda. Ela explica que o mapa de biomas do IBGE, de 2004, é o mais aceito, mas tem problema nas escalas. Nesse sentido, uma solução seria adotá-lo em áreas que não são passíveis de discussão, como no meio do bioma Cerrado, por exemplo. “Já em áreas transição, onde é difícil saber onde acaba uma coisa e começa outra, cada Estado poderia identificar a sua base”, diz.

Em paralelo a isso, está o PRA, que é de alçada estadual, mas o governo federal deve lançar uma base para nortear a elaboração nos Estados. “Quando o governo federal soltou o sistema do CAR, em 2014, cada Estado criou um sistema diferente, mas eles tinham uma base para aprimorar. É isso o que falta para que se comece a fazer o PRA”, afirmou ela, acrescentando, contudo, que os Estados podem ir adiantando as suas legislações e deixando tudo encaminhado para agilizar o processo, como São Paulo fez. 

O Ministério da Agricultura informou que o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) – subordinado à Pasta – está desenvolvendo soluções, incluindo uma ferramenta digital para ajudar os Estados na validação do CAR. “Com uso de tecnologia de sensoriamento remoto e inteligência artificial, poderemos avançar de forma mais célere e com maior segurança jurídica no processo”, finalizou, sem porém dar um prazo para o lançamento da ferramenta.  

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