Governo e mercado disputam os "sem-banco"

A decisão do governo de expandir o crédito coincide com o momento em que o mercado disputa a tapa cada cliente do universo dos chamados "sem banco". A entrada dos gigantes Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal, apoiados pelo BNDES, deve acirrar a competição entre as empresas. Desde que escolheu o aumento do crédito como caminho para recuperar a economia e o emprego, o governo tem feito consultas ao mercado para conhecer mais de perto como funciona a concessão de empréstimos para as pessoas de baixa renda, e principalmente, para aquelas que não têm como comprovar ocupação e renda pelos meios tradicionais e que compõem o universo do mercado informal de crédito.Duas equipes da direção do BB e da Caixa visitaram nesta sexta-feira a sede da Sorocred, em Sorocaba, São Paulo, empresa especializada na concessão de cartões de crédito para quem não tem conta em banco.A corrida é pelo cidadão que vive na informalidade e não aparece nas estatísticas oficiais, nem nos balanços das instituições financeiras. Mas está nas campanhas publicitárias das grandes financeiras, que competem por esse filão. Um dos instrumentos para se alcançar esse mercado é o "cadastro positivo", que leva em conta o passado do consumidor como pagador de contas, sejam aluguel, água, luz, de prestações em lojas populares, como o famoso cadastro de 10 milhões de clientes da Casas Bahia. E já há no mercado pelo menos três desses cadastros.O principal argumento para o lançamento desses cadastros positivos é que os financiamentos só giravam com base nas consultas às informações negativas disponíveis no mercado, diz o presidente da Acrefi, Ricardo Malcon. Com isso, as instituições só dispunham de informações sobre os maus pagadores. O cadastro positivo, comum em outros países, fornecerá às instituições financeiras o histórico do cliente, incluindo suas qualidades de bom pagador, desde que com a autorização de cada cliente. Do total de 54 milhões de pessoas que podem obter crédito hoje, menos de 20 milhões têm conta em banco.Enquanto o mercado procura seus próprios instrumentos, o governo abre uma cunha para atender de forma mais direta, rápida e adequada aquelas pessoas sem nenhum acesso até ao crédito para informais. O microcrédito que será distribuído por toda a rede financeira do setor público e vai alcançar lotéricas, postos de gasolina, padarias, hoje tem um valor avaliado em R$ 300 milhões pela própria Organização Internacional do Trabalho (OIT). A mesma organização preconiza para o universo de pobres no Brasil pelo menos R$ 6 bilhões.

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