Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Governo estimula consumo e isola ainda mais o BC no combate à inflação, segundo economistas

Medidas para impulsionar o consumo e o crédito em ano eleitoral vão na contramão do que deveria ser feito para controlar a disparada de preços; com isso, inflação tende a ficar mais alta por mais tempo

Francisco Carlos de Assis e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2022 | 10h00

Enquanto o Banco Central (BC) tem elevado os juros para esfriar a economia e combater a escalada da inflação, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) tem atuado, em sintonia com o Congresso, como um adversário e aprovado medidas que estimulam o consumo, pressionando ainda mais a alta de preços no País. 

Medidas como cortes de impostos, estímulos ao crédito e a liberação do saque extraordinário do FGTS vão na direção contrária do que deveria ser feito para controlar a inflação, segundo economistas. Isso tende a adiar os efeitos dos remédios adotados pelo BC, mantendo a inflação elevada por mais tempo. 

O movimento feito pelo governo desde o fim do ano passado isolou o BC no momento em que ele enfrenta os impactos nos preços de alimentos e combustíveis vindos da guerra na Ucrânia. Como consequência, os juros podem subir mais, e não devem voltar a cair antes de março do ano que vem.

"É como dirigir um carro e pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo”, diz Fábio Akira, economista-chefe da BlueLine e ex-JP Morgan. “O freio não terá a mesma eficiência. O mesmo acontece quando políticas de estímulo à demanda atuam contra o aperto monetário." 

Assim como Akira, economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast são categóricos na avaliação de que o BC está sozinho para realizar um trabalho que já seria naturalmente desafiador após a pandemia, quando governos e bancos centrais do mundo todo injetaram dinheiro na economia para evitar um colapso financeiro.

“É uma tarefa hercúlea, essa do BC de combate à inflação. Ele não tem nenhuma ajuda vinda do outro lado da Esplanada", aponta o ex-diretor de Política Monetária da Banco Central, Aldo Mendes, que classifica como solitária a batalha do BC no combate à inflação.

O governo pisou no acelerador ao antecipar a liberação do décimo terceiro de aposentados e ao autorizar o saque de até R$ 1.000 do FGTS para os trabalhadores. Em paralelo, a expectativa é que os investimentos públicos, incluindo os de governos estaduais e prefeituras, ganhem força em ano eleitoral. Mais gastos para o consumo e para investimentos contribuem para transferir ao segundo semestre os efeitos da alta de juros na atividade econômica.

Para Aldo Mendes, a política fiscal se vinculou à agenda eleitoral, e não restou outra opção a não ser manter a taxa de juro em elevação. Segundo o ex-diretor do BC, o quadro, que já era complicado por causa da inflação disseminada, ficou mais difícil diante do aumento de juros mais rápido nos Estados Unidos, que estimula uma saída de capital estrangeiro e pressiona a cotação do dólar. "Vejo o governo continuando a gastar na ilusão de que a arrecadação está aumentando, e um BC mantendo o juro em elevação, sem decretar o fim do ciclo de alta", resume.

Expectativas

O governo não compromete a eficácia da política monetária do Banco Central apenas lançando medidas que reforçam a demanda. Os preços refletem também as expectativas, e o Planalto não contribui para melhorar as previsões para a inflação quando alimenta incertezas sobre os rumos das contas públicas.

Para Adauto Lima, economista-chefe da gestora Western Asset, enquanto a política monetária tenta, com aumento de juros, esfriar o consumo, o governo tem lançado medidas de expansão no sentido contrário. Como resultado, a tarefa do BC torna-se mais árdua. "Com a surpresa da arrecadação, era para o governo caminhar a um superávit primário, não déficit primário", diz Lima.

Nos últimos três meses, o presidente Jair Bolsonaro promoveu uma desoneração de impostos, que não chega ao consumidor na forma de preços mais baixos justamente porque a medida mantém a demanda aquecida. O governo também acenou com um aumento de 5% nos salários dos servidores. Esta seria uma despesa permanente, assim como o pagamento de R$ 400 do Auxílio Brasil, após medida provisória aprovada pelo Congresso.

Tudo isso ocorre depois de o governo ter tornado flexível o regime fiscal, abrindo espaço a mais gastos no orçamento, na PEC dos Precatórios.

Além disso, o presidente Jair Bolsonaro já indicou que planeja rever a regra do teto de gastos para poder investir mais se conseguir a reeleição, alinhando-se à ideia defendida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu principal adversário nas eleições de outubro.

Essa sinalização preocupa porque, enquanto o governo aumenta os gastos e reduz impostos, ele não poderá contar com um aumento da arrecadação de impostos por muito tempo. 

O aumento da arrecadação é atribuído por economistas a causas temporárias, como a própria inflação persistente, o salto das cotações das commodities e a recuperação cíclica após o choque da crise sanitária.

Na quarta-feira passada, ao comunicar o aumento da taxa básica de juros, a Selic, em mais um ponto porcentual, para 12,75%, e antecipar que a taxa seguirá subindo em junho, o BC voltou a citar a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal entre os riscos de alta da inflação.

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