Adriano Machado/ Reuters
O ministro concordou que, apesar das medidas tomadas pelo governo e pelo Banco Central, como redução do depósito compulsório, o dinheiro não está chegando na ponta Adriano Machado/ Reuters

Governo estuda ampliar para R$ 15 bilhões garantias para estimular empréstimos a médias empresas

Guedes falou nesta quinta-feira, 23, por cerca de uma hora com representantes de vários setores da indústria, por videoconferência

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 19h30

BRASÍLIA - Para estimular a concessão de crédito e fazer frente à pandemia do coronavírus , o governo estuda ampliar os recursos de fundos garantidores, entre eles o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI). Em reunião com representantes da indústria nesta quinta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que os recursos do fundo poderão ser aumentados para cerca de R$ 15 bilhões, segundo apurou o Estadão/Broadcast.

Esse tipo de fundo é usado como garantia por um tomador de empréstimo junto ao banco. Isso reduz o risco da operação, já que, se o tomador não pagar, o fundo cobre parte ou todo o pagamento devido. No caso do FGI, a gestão é feita pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)

O fundo tem hoje cerca de R$ 1,2 bilhão e é usado como garantia em empréstimos principalmente para investimentos. Mas poderia receber novos aportes do Tesouro Nacional e financiar outras linhas de crédito em estudo pelo governo, como empréstimos para empresas médias, com faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 360 milhões.

Guedes falou nesta quinta-feira, 23, por cerca de uma hora com representantes de vários setores da indústria, por videoconferência. De acordo com participantes, o tema central do encontro foi a falta de crédito. O ministro concordou que, apesar das medidas tomadas pelo governo e pelo Banco Central, como redução do depósito compulsório (recursos que os bancos precisam deixar no BC), o dinheiro não está chegando na ponta. 

A avaliação dos empresários e do governo é que as instituições financeiras estão segurando o dinheiro por temer a inadimplência dos tomadores diante dos impactos econômicos da pandemia do coronavírus. 

Na reunião, Guedes cobrou da equipe novas ações para acabar com o “empoçamento” de dinheiro nos bancos. Segundo participantes, ele frisou a necessidade de ampliar mecanismos que garantam que os recursos sejam, de fato, emprestados, e disse que um dos que estão em estudo é a ampliação dos depósitos em fundos garantidores. 

A ideia é que, ao aumentar a garantia, o governo assume os riscos dos financiamentos e, sem o temor da inadimplência, os bancos passem a emprestar mais. 

A ampliação do FGI agradou os empresários, que já vinham pedindo por isso antes mesmo da pandemia do coronavírus. 

 Na reunião, os industriais expuseram as dificuldades dos diferentes setores. Representantes da indústria farmacêutica reclamaram do congelamento do reajuste de medicamentos. A indústria da transformação demonstrou o temor de que, com as fábricas brasileiras paradas e a China em retomada, os produtos chineses ganhem ainda mais participação no mercado brasileiro. 

Os empresários disseram ainda que, apesar de positivo, o adiamento no pagamento de impostos sem crédito não será suficiente porque, daqui a dois ou três meses, as companhias terão que quitar esses e novos tributos. 

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Em nova lista de pedidos, CNI quer nova linha de crédito com 95% de recursos do Tesouro

Medida faz parte de um documento com 30 propostas, que foi entregue a Paulo Guedes e Jair Bolsonaro; órgão também pede o adiamento de tributos federais

Lorenna Rodrigues, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2020 | 19h29

BRASÍLIA - A Confederação Nacional da Indústria (CNI) propôs ao governo a criação de uma linha de financiamento emergencial para médias e pequenas empresas, com 95% dos recursos financiados pelo Tesouro Nacional, além do adiamento de outros tributos federais.

As medidas fazem parte de um documento com 30 novas propostas que foi encaminhado pela confederação ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para o presidente da República, Jair Bolsonaro, entre outras autoridades.

É o segundo conjunto de sugestões encaminhado pela confederação para fazer frente à pandemia do novo coronavírus. O primeiro documento foi encaminhado em março com 39 ideias – 30 foram adotadas pelo governo, como a redução proporcional de jornada de trabalho e salário e a suspensão temporária do contrato de trabalho.

O novo pedido é que seja criada uma sociedade de propósito específico com bancos privados e públicos com 5% e o Tesouro Nacional cubra os 95% restantes. No caso das medidas para o financiamento da folha de pagamentos para pequenas e médias empresas, o governo assumiu 75% do risco.

De acordo com a CNI, a ideia é inspirada em programa do Federal Reserve, o BC americano. A linha de crédito para micro e pequenas empresas teria um teto de taxa de juros, carência durante o período de calamidade pública e prazo longo para pagamento. A CNI também pediu a ampliação de fundos garantidores do BNDES e do Banco do Brasil.

“O governo e o Banco Central tentaram aumentar a oferta de crédito público. No entanto, há um empoçamento da liquidez nos agentes financeiros e os recursos não estão chegando às empresas. O Tesouro e o BNDES poderiam assumir o risco devido à complexidade do momento que vivemos hoje”, explica o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

As propostas englobam ainda medidas para tributação, infraestrutura, regulação e comércio exterior. Uma das medidas é permitir que o Banco Central financie as empresas com a compra de títulos privados no mercado primário. Já existe uma proposta nesse sentido no Congresso Nacional.

A CNI também pede que o BNDES compre debêntures (títulos de dívidas corporativas) e que estenda a suspensão de pagamentos de empréstimos por mais tempo.

A confederação quer ainda a suspensão temporária da exigência de certidão negativa de débitos para se acessar os financiamentos públicos, o adiamento dos pagamentos do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), além da postergação no pagamento de todos os tributos federais por 90 dias (contribuições como a do PIS/Pasep já foram postergadas por 60 dias).

A CNI também sugere uma espécie de Refis, como parcelamento em, pelo menos, seis vezes, dos tributos adiados. A entidade quer ainda a facilitação de importações e exportações, com prorrogação de licenças por 90 dias e retirada de barreiras ao tráfego aéreo e ao trânsito de cargas.

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Confiança da indústria tem queda sem precedentes com incertezas com covid-19

Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) registrou queda de 25,8 pontos entre março e abril

Sandra Manfrini, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 17h06

BRASÍLIA - A confiança do empresário industrial chegou ao menor nível da história, com uma queda "sem precedentes", segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta quarta-feira. O recuo, segundo a entidade, "traduz o cenário atual de forte contração na atividade e elevada incerteza em razão da pandemia da covid-19".

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) registrou queda de 25,8 pontos entre março e abril e atingiu 34,5 pontos neste mês. O indicador varia numa escala de zero a 100 pontos e índices abaixo de 50 pontos significam falta de confiança. Segundo a CNI, até agora, a maior queda registrada em um único mês nesse indicador havia sido de 5,8 pontos, em junho de 2018, como consequência da greve dos caminhoneiros. 

"Há dificuldades no fluxo de insumos, mercadorias e trabalhadores e as medidas de isolamento social e o consequente 'desaparecimento do consumidor' resultaram em forte queda na receita das empresas. As despesas fixas continuam e, nesse momento de maior necessidade, a oferta de capital de giro diminuiu e seu custo aumentou. A queda na confiança dos empresários vai contribuir para a paralisação dos investimentos, ou seja, para o agravamento da crise econômica", destaca o documento da CNI. 

O ICEI é resultado de dois componentes: o indicador de confiança com relação às condições atuais e com relação às expectativas. O índice de condições atuais caiu 20,2 pontos, para 34,1 pontos, enquanto o índice de expectativas caiu 28,6 pontos, para 34,7 pontos, apontando para um quadro de expectativas negativas que geram incertezas. 

A pesquisa da CNI indica ainda que a queda de confiança é generalizada entre as regiões geográficas do Brasil, mas ainda é mais sentida entre os empresários do Sul, onde o indicador acumula queda de 34,6 pontos entre janeiro e abril. Na região Norte, foi registrada a menor queda na mesma base de comparação, apesar de significativa, de 26,8 pontos. 

O levantamento foi feito entre os dias 1º a 14 de abril, com 2048 empresas.

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Pandemia de covid-19 provocará queda de US$ 18,6 bi em exportações brasileiras, aponta CNI

O estudo inédito considera que uma retração de 1,1% no PIB mundial, o que provocaria uma redução de 56 milhões de toneladas nos embarques brasileiros

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 09h00

BRASÍLIA - O avanço da pandemia do coronavírus resultará em uma queda de, no mínimo, US$ 18,6 bilhões nas exportações brasileiras em 2020. A projeção, feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), representa um recuo de 8,3% nos valores vendidos ao exterior no ano passado.

O estudo inédito, repassado ao Estadão/Broadcast, considera que uma retração de 1,1% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial devido ao avanço da doença, o que provocaria uma redução de 56 milhões de toneladas nos embarques de produtos brasileiro. O montante representa queda de 11% na comparação com o ano passado.

“A América Latina, grande destino dos nossos produtos manufaturados, poderá ter, nas próximas semanas, um aumento maior nas medidas para contenção do vírus, o que poderá vir a afetar ainda mais as exportações de manufaturas do Brasil”, afirma o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Ele ressalta que as previsões são baseadas em um cenário de recessão ampla e não considera a performance de países específicos, já que essas projeções ainda estão sendo revisadas.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, a redução nas exportações poderá ser ainda maior, principalmente por causa da queda no preço do petróleo.

 Outro produto importante da pauta exportadora brasileira que vem sofrendo os impactos da retração na demanda mundial é o minério de ferro. Castro lembra que os embarques do produto já caíram pela metade nos dois primeiros meses do ano, mas que o preço vem se mantendo em patamar elevado. Entre os principais itens exportados, a soja vem apresentando embarques ainda normais porque a safra está no início.

“A única certeza é que as exportações vão cair. O quanto, ainda não sabemos. Não conseguimos saber nem como estaremos daqui a dois meses”, pondera.

A expectativa é de recuo também nas importações, que devem diminuir com o mercado interno desaquecido pelos impactos da covid-19.

Restrições na logística

Abijaodi ressalta que, além da queda na demanda mundial, a pandemia tem provocado problemas logísticos, com medidas restritivas a cargas marítimas, rodoviárias e deslocamento de pessoas, o que pode aprofundar ainda mais a crise nos negócios.

“Temos muitos navios que estão na China e não conseguem sair. Ainda não temos um problema de oferta, a questão é o produto sair do produtor e chegar no destino”, completa Castro.

Para o diretor da CNI, o real desvalorizado frente ao dólar representa uma janela a ser aproveitada pelos exportadores, principalmente daqueles setores com cadeias de produção mais longas e envolvendo  pequenas empresas, como alimentos e bebidas, calçados, joias, móveis e vestuário. “Mas o câmbio é um elemento temporário de melhora da competitividade”, afirmou.

 A confederação defende que sejam adotadas medidas para sustentar e ampliar as exportações na retomada da economia pós-crise, aumentando e preservando a competitividade em setores intensivos em tecnologia, como aeronáutico, automotivo, eletroeletrônicos e de máquinas e equipamentos.

A Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex) preparou estudos e documentos para auxiliar os exportadores frente à pandemia. Uma cartilha foi preparada com orientações, entre elas a de viabilizar o trabalho remoto dos empregados em cada empresa e de elaborar um plano de ação para um possível aumento de reclamação dos clientes.

A agência orienta ainda que os empresários acompanhem  mudanças do mercado doméstico e internacional, como no padrão de consumo, oferta de crédito e mudanças regulatórias e que estejam prontos para avançar rapidamente caso sejam identificadas “oportunidades em potencial”. “Mapeie possíveis cenários e desenvolva planos de ação para cada um deles”, aconselha.

No ano passado, o Brasil exportou US$ 224 bilhões e importou US$ 177,3 bilhões, resultando em um saldo positivo de US$ 46,7 bilhões.

Neste ano, até o dia 22 de março, as exportações somam US$ 44,1 bilhões e as importações US$ 40 bilhões, saldo de US$ 4,1 bilhões. As exportações em 2020 apresentam uma queda de 6,2%, enquanto as importações avançaram 4,8%. 

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