Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

‘Governo ganhou o benefício da dúvida’

Para Goldfajn, ajustes diminuem percepção de risco sobre o Brasil

Entrevista com

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2015 | 18h29

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, acredita que a nova equipe econômica conseguiu uma trégua dos mercados e das agências de classificação de risco com os ajustes em andamento. Essa “boa vontade”, diz Goldfajn, deve evitar a perda de grau de investimento do País. O cenário, porém, ainda está longe do ideal. Nas projeções do banco, o Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 deve encolher 1,5% e a inflação encerrar o ano acima de 8%. “Eu acho que o benefício da dúvida foi ganho, mas ainda não vejo muita gente achando que o cenário é otimista. Nem acho que ele vai surgir tão rápido”, afirmou. Na terça-feira, o banco reúne no Hotel Unique, em São Paulo, economistas, analistas políticos e empresários na 6.ª edição do Itaú BBA+ Macrovision, para debater o cenário econômico e político do Brasil e do mundo. A seguir trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como o sr. vê o começo da nova equipe econômica?
Vejo a equipe econômica batalhando, fazendo vários ajustes ao mesmo tempo. Há esforços na área fiscal e parafiscal – aí me refiro às questões de bancos públicos, TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo). Esforços de realismo tarifário, colocando um pouco os preços nos lugares onde eles devem estar, e no balanço de pagamentos, com o câmbio flutuando para fazer o déficit em conta corrente diminuir. Tem a menor intervenção do Banco Central (no câmbio). E, finalmente, a questão do regime de metas de inflação com a busca de 4,5% no fim do ano que vem. Esse é o objetivo. É uma equipe que está fazendo os ajustes, tentando ir na direção certa. Mas há várias questões que são sempre mais difíceis: o cenário político, as dificuldades internas e externas. Isso tudo trabalha fora do contexto da equipe, e ela tem de lidar com isso. 

Houve uma deterioração da economia brasileira muito rápida no 1.º trimestre que não era esperada?
O processo de deterioração da economia não começou no trimestre passado. É algo que a gente teve durante vários anos com políticas que nos levaram para uma desaceleração econômica. No primeiro trimestre, houve choques de confiança ligados tanto a investigações, denúncias, quanto a questões de racionamento, que entraram nesse processo e fizeram esse trimestre ter desaceleração mais forte. 

No seu último artigo, o sr. disse que o mundo nos vê como um ‘reality show’, mas está preocupado com outro BBB: a nota de classificação de risco do Brasil. A economia brasileira escapa do rebaixamento?
Essa brincadeira de que o mundo está olhando para a gente como um reality show é porque vemos as demonstrações na rua, a questão das denúncias de corrupção. É um reality show. Mas, em termos econômicos, o que importa no fundo é a percepção de risco. E nessa parte tenho a impressão que estamos começando a ver que o Brasil pode estar saindo dessa confusão e indo para o período no qual vamos ter de discutir como recuperar o crescimento. A decisão sobre o risco pode estar sendo adiada para o ano que vem.

O País sai dessa confusão mesmo se não cumprir a meta de superávit de 1,2% do PIB?
Se cumprir a meta ganha bastante credibilidade. Mesmo se ficar um pouquinho abaixo disso – a gente projeta 0,8% do PIB –, a equipe econômica tem seu mérito. É um ajuste que vem (de um déficit primário) de -0,6% do PIB e vai para 0,8% do PIB. Ou seja, é um ajuste de quase 1,5% numa situação em que está se pagando gastos de períodos anteriores. Além disso, o ajuste está sendo feito numa economia em recessão e, portanto, o esforço é bem maior do que se a economia estivesse crescendo. 

Então a percepção de risco sobre a economia brasileira ficou para 2016? 
Eu acho que a equipe econômica conseguiu a boa vontade das agências de risco e está conseguindo a boa vontade dos mercados. Não para achar que vai mudar da água para o vinho, mas para não perder o grau de investimento. Acho que esse benefício da dúvida foi ganho, mas ainda não vejo muita gente acreditando que o cenário é otimista. Nem acho que ele vai surgir tão rápido. Estamos saindo da crise e indo para o cenário de estabilidade.

Como o sr. vê a qualidade do ajuste?
Eu acho que a gente está hoje com um conjunto de ajustes para tentar evitar a crise e fazer com que a recessão fique para trás. São medidas emergenciais. Não são medidas que podem fazer o Brasil avançar mais.

Quais medidas poderiam ser tomadas para acelerar o crescimento?
São medidas pelo lado da oferta. Fazer com que o Brasil cresça aumentando produtividade. O que está por trás disso? São desde questões que dificultam fazer negócio no Brasil e investimentos – como a reforma tributária – ou questões que tenham a ver com problemas fiscais mais de médio prazo, como as questões previdenciárias. Ou, às vezes, são coisas pequenas: burocracia, se você quer uma liberação do projeto de infraestrutura. O tempo que se leva para abrir ou fechar um negócio. Não dá para chamar de reformas, mas são medidas que fazem você produzir mais. Além disso, é preciso fazer uma abertura da economia. O Brasil tem de voltar a fazer parte dos acordos comerciais. E, finalmente, educação. A gente sabe que o mais relevante para o crescimento da produtividade da economia no médio prazo é a capacidade de um país produzir, se educar, gerar conhecimento e, portanto, melhorar independentemente dos recursos naturais. 

Diante desse quadro, quando a economia brasileira deve voltar a crescer?
Uma pergunta é quando o País sai da recessão e começa a virar a página, e a segunda é quando o Brasil consegue ter um crescimento mais robusto. Esse crescimento robusto vai demorar mais porque, de novo, não estamos fazendo reformas. Portanto, o que a gente tem de pensar é no primeiro ponto que eu coloquei: de quando sai do crescimento negativo para positivo. Eu acho que este trimestre ainda vai ser de crescimento negativo e vai se juntar ao crescimento negativo do trimestre passado. No segundo semestre, talvez, a gente saia da recessão, mas não será para um crescimento muito positivo. 

Essa agenda de reformas está posta nesse governo?
Eu acho que o governo entende da necessidade dessa agenda. Ele fala em investimento em infraestrutura, em educação. A equipe econômica fala das questões de burocracia, de facilitar. Eu acho que tudo isso não é falta de conhecimento, de saber o que precisa. Mas há uma dificuldade de um consenso, de um apoio político mais amplo, não só do governo, mas do Congresso e da sociedade para poder seguir adiante com reformas que, às vezes, precisam de um pouco mais de força para saírem do papel.

A desaceleração parece ter alcançado o emprego. Como o sr. vê esse cenário?
Infelizmente, o Brasil já sofre com perda de postos de trabalho há algum tempo. Isso não tinha se refletido em aumento de desemprego, porque as pessoas estavam saindo do mercado de trabalho – seja para estudar ou por causa da renda que estava permitindo que uma parte da família não precisasse procurar emprego. Essa fase terminou. Agora, provavelmente, o recuo do PIB vai se refletir na queda de emprego. O emprego está sob ameaça porque dois ciclos relevantes acabaram. Primeiro, o ciclo mundial de commodities. Segundo, acabou o ciclo das nossas reformas que fez com que o Brasil crescesse. Quando esses ciclos acabaram, o PIB parou de crescer. Como não conseguimos reverter esse cenário nos últimos anos, essa piora passou a atingir o mercado de trabalho.

Com o realismo tarifário, qual é a expectativa para a inflação?
O realismo tarifário está levando ao aumento dos preços administrados de 13% ou mais. A inflação de março já levou os 12 meses para acima de 8% e a gente acha que, ao longo do ano, ela não vai ficar abaixo disso. 

E como ela deve se comportar no ano que vem? 
A inflação de 2016 vai ser bem menor do que a deste ano. De 8% e pouco vira 5,5%. Será uma queda boa, mas ainda não chega na meta. É um desafio grande chegar na meta no ano que vem com esse ajuste tarifário. Pensa na energia elétrica subindo 50%, 60%. É muito difícil fazer tudo em um ano. 

Como o sr. enxerga os próximos passos da política de juros do BC?
A nossa impressão é que a política monetária chegou ao máximo dos juros nesse ciclo de alta. O ciclo começou lá atrás, quando os juros saíram de 7,25%. Agora, estamos chegando perto de 13%. E acho que vai parar por aí. E aí a discussão lá na frente será por quanto tempo os juros vão parar, se em algum momento vai poder aliviar um pouco a economia com a redução dos juros. Eu acho que isso vai acontecer a despeito da queda de inflação não ser tanto quanto gostaria o governo. O governo e o BC gostariam de que a inflação chegasse a 4,5% no fim do ano que vem. Eu acho que não chega.

O BC decidiu intervir menos no mercado de câmbio. Qual é a expectativa para dólar? 
A nossa última projeção tem sido de R$ 3,10 no fim do ano. Claro que o câmbio pode flutuar. E esse câmbio de R$ 3,10 este ano e R$ 3,40 no ano que vem faz com que o déficit em conta corrente saia de um resultado em torno de 4% do PIB e vá para 2,5% do PIB em três anos. Não é o câmbio que vai ajustar tudo de uma vez, na marra, porque aí teria de ser mais. Nem é o câmbio apreciado que não permite fazer o ajuste. É um câmbio que consegue fazer o ajuste de uma forma gradual.

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