Governo grego renuncia e FMI suspende resgate

Partido de extrema-esquerda é favorito para vencer as eleições convocadas para janeiro e promete o fim da austeridade no país

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

29 Dezembro 2014 | 16h02

GENEBRA - O governo grego é obrigado a renunciar, novas eleições foram convocadas para o final de janeiro e a União Europeia teme que o partido que saia vencedor nas urnas peça uma renegociação do pacote de resgate para Atenas. Em resposta à crise, o FMI suspendeu a entrega da nova parcela de ajuda para a economia grega, enquanto europeus proliferaram alertas aos eleitores gregos para que não optem pelo "caminho errado". 


A queda do governo de coalizão do primeiro-ministro Antonis Samaras - que negociou um resgate de € 245 bilhões para a Grécia - ocorreu depois que os deputados não conseguiram chegar a um acordo para a eleição de um presidente nesta segunda-feira. O cargo de chefe de estado tem uma conotação apenas simbólica. Mas era um teste para o governo Samaras, que indicou ao cargo o ex-comissário da UE, Stavros Dimas. 


Mas, para ser presidente, Dimas precisaria de 180 votos dos 300 deputados. Ele somou apenas 168 apoios e, pela Constituição da Grécia, um impasse deve ser seguido por uma nova eleição geral, o que foi marcado para o dia 25 de janeiro. 


A manobra deve abrir caminho para a vitória do Syriza, partido de esquerda e que defende uma renegociação dos pacotes de resgate para a Grécia. Preferido da população por rejeitar as medidas que geraram seis anos de recessão e mais de 20% de desemprego, o Syriza é temido pelas instituições em Bruxelas, pelos bancos e credores. 


Horas depois do anúncio, o FMI mandou seu recado, alertando que suspendeu a entrega de uma das parcelas do pacote de resgate da Grécia até que um governo seja de fato formado. O resgate terminaria ao final de 2016, mas a sexta parcela ainda aguarda uma liberação. Dentro do pacote de 130 bilhões de euros, o FMI se encarregaria de € 29 bilhões. 


A eleição ocorrerá justamente em um momento em que a Grécia negociava a liberação do pacote de ajuda para 2015 e que, desde 2012, vinha garantindo a sobrevivência do estado. Mas, para o FMI e UE, essa nova entrega deveria exigir maior austeridade dos gregos, que atravessaram seis anos de recessão e que finalmente voltou a crescer 


O FMI indicou que, ao contrário das situações anteriores, a Grécia não precisa de forma urgente de dinheiro. Mas a suspensão do pagamento é uma demonstração de que o pacote não será liberado sob qualquer condição. 


Não por acaso, a bolsa de Atenas sofreu uma queda imediata de 11%, enquanto bancos chegaram a perder mais de 20% de suas ações. Ao final do dia, as perdas eram de 4%. 


Entre os políticos gregos, a campanha eleitoral começou ontem mesmo. O candidato favorito para vencer a eleição, Alexis Tsipras, "A austeridade acabou", declarou. "O governo Samaras que roubou a sociedade acabou", disse. Seu partido lidera as pesquisas de opinião com quatro pontos sobre o grupo de Samaras. 


"Precisamos acabar com a incerteza e restaurar a estabilidade para que possamos continuar com as reformas e sair de forma real do pacote de resgate", rebateu Samaras.


A queda do governo gerou uma reação coordenada por parte da Europa de alerta velado à população grega para que não vote por Tsipras. "Um compromisso forte com a Europa exige reformas para que a Grécia possa prosperar uma vez mais na zona do euro", indicou Pierre Moscovici, comissário de Economia do bloco. Ele chegou a dizer que a proposta do partido favorito seria "suicida". 


Na Alemanha, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, também ameaçou. "Queremos dar apoio à Grécia para as reformas. Mas se a Grécia optar por outro caminho, vai ser difícil", disse. Ou seja, o dinheiro vai acabar. 


Ele também mandou um recado a Tsipras. "Qualquer novo governo deve manter os acordos assinados por seu predecessor".   


Em Atenas, as ameaças também já começaram. Gikas Hardouvelis, ministro das Finanças, alertou que as instituições internacionais "ainda tem a chave do cofre e que a economia grega pode ser estrangulada em segundos se a torneira for fechada". 


Impacto. No restante da Europa, o impacto profundo inicial da renúncia do governo foi amenizada ao longo do dia. A Bolsa de Frankfurt e Paris terminaram sem perdas, enquanto Madri caiu em 1%. 


Parte do impacto reduzido ocorre por conta da nova política do BC Europeu de compra de papéis da dívida, o que deu certa segurança aos investidores de que a Grécia não voltará a contaminar o mercado como antes. 


Outro fator considerado pelos investidores é que o partido de extrema esquerda quer renegociar dívidas da Grécia com instituições europeias, e não com o setor privado. Na Itália Matteo Renzi, primeiro-ministro, rejeitou qualquer risco de contaminação.

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