Governo intervém por bandas, diz Pastore

Para ex-presidente do BC, movimento indica que meta é elevar o dólar a R$ 1,90 ou mais

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h05

O governo adotou um regime de bandas para o câmbio, para o economista e consultor Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC). "Eu achava que estavam buscando um câmbio de pelo menos R$ 1,80, mas, com o andar da carruagem nesta semana, penso que talvez haja a ambição de buscar um nível um pouco mais elevado, de R$ 1,90, ou talvez até um pouco mais depreciado", disse Pastore ao 'Estado' na sexta-feira.

O consultor, que deve divulgar na segunda-feira um relatório sobre o assunto, não está entre os críticos da política de intervenção cambial do governo. Ele acha que não se pode descartar a possibilidade de que o câmbio esteja fora do seu equilíbrio por um longo prazo. "Se estivesse lá, faria também. É diferente de uma situação na qual você tem um câmbio mais valorizado do que o seu equilíbrio durante três meses, e na qual o certo é não fazer nada."

Se for uma mudança permanente de equilíbrio para um câmbio mais valorizado, continua Pastore, seria preciso pensar em mudar a estrutura produtiva da economia. Mas a dúvida sobre se é um desequilíbrio de longa duração, de alguns anos, e prejudicial à indústria, recomenda cautela.

O economista, porém, é taxativo quanto à melhor forma de abordar o problema: "Constatada a necessidade de intervir, se eu tiver de escolher entre protecionismo e câmbio, prefiro intervir no câmbio. Porque o câmbio é reversível, mas, se você for para essa brincadeira de aumentar o conteúdo nacional em automóveis, ou de meter uma tarifa em cima de qualquer produto, você cria uma cristalização de interesses que não se revoga mais no futuro - e que é extremamente custosa para a economia".

Outra questão, para Pastore, é a de saber se é possível ou não ser eficaz numa política de intervenção no câmbio. Ele acredita que sim, e que isso se tornou possível porque o governo dificultou fortemente as entradas de fluxos de capital até cinco anos com uma série de medidas desde janeiro de 2011, envolvendo impostos e compulsórios sobre captações externas e posições vendidas em dólares dos bancos.

O economista explica que, quando o BC atua mais agressivamente no câmbio, o chamado cupom cambial tende a subir. O cupom cambial é uma taxa de juros em dólares no mercado brasileiro, que comumente aparece em operações sintéticas envolvendo os mercados futuros.

Se o Banco Central compra mais do que o fluxo de dólares que ingressa no País, o cupom cambial tende a subir. Há explicações técnicas complicadas para isso, mas uma forma simples de se pensar é que a intervenção do BC faz a moeda americana escassear no mercado à vista, o que eleva a taxa de juros em dólares.

Num mercado sem restrições a entradas de capital, os estrangeiros veem que têm uma operação de lucro certo captando dólares no mercado internacional a taxas próximas de zero e aplicando no cupom cambial brasileiro, o que elimina o risco de câmbio entre o dólar e o real. Assim, a intervenção do BC para elevar o dólar, ao atrair fluxos de capital para o cupom cambial, é neutralizada pela massa de novos dólares que ingressam. "O Banco Central enxuga gelo, fazendo uma ação que produz uma reação", diz Pastore.

Agora, porém, com as medidas de controle de capital, os fluxos externos não conseguem ser lucrativos na operação do cupom cambial. Assim, a ação do Banco Central no mercado à vista mantém o seu poder.

O economista nota que uma outra alternativa, além do bloqueio dos fluxos que buscam o cupom cambial, seria uma atuação conjunta do BC no mercado à vista e no mercado futuro. Por razões técnicas, isso impediria o cupom de subir, tirando também a atratividade dos fluxos especulativos. Mas Pastore frisa que o Banco Central provavelmente teme ações judiciais contra seus diretores por contas de operações no mercado futuro que possam trazer perdas para a instituição.

Carlos Kawall, economista-chefe do banco de investimentos J. Safra, concorda com a análise de Pastore: "A cotação do real, se a gente compara com a do dólar australiano, está superbarata, mas a diferença é que lá o mercado cambial é livre e aqui tem controle de capital".

Já Fernando Rocha, economista-chefe e sócio da gestora de recursos JGP, acha que a principal razão para a recente desvalorização do real é a queda do fluxo de capitais, com o País sendo percebido de forma um pouco menos favorável.

Pastore não vê maior risco inflacionário na desvalorização recente, desde que ela fique em torno de R$ 1,90. "Se a gente pegar a aparente sinalização de que estão buscando um câmbio da ordem de R$ 1,90 - e não tenho nenhuma certeza disso -, não é incompatível com o controle de inflação."

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