Governo já admite racionamento de energia em 2008

"Não estou dizendo que vai ter problema. Não é impossível haver um racionamento este ano", adverte diretor da Aneel

Leonardo Goy, da Agência Estado,

08 de janeiro de 2008 | 20h38

O governo já admite racionamento de energia neste ano. A situação crítica dos reservatórios das hidrelétricas levou o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, a admitir nesta terça-feira, 8, que "não é impossível" que o Brasil passe por um novo racionamento de energia ainda em 2008. "Não estou dizendo que vai ter problema. Não é impossível haver um racionamento este ano, mas o mais provável é que não tenha", disse ele.   Veja também:  Estiagem faz governo acionar térmicas  Novo apagão pode vir antes de 2010    Kelman defendeu até a elaboração de contingenciamento para evitar situação parecida com a de 2001, quando a sociedade foi pega de surpresa e o governo teve que elaborar um plano de racionamento às pressas. No inicio, as medidas eram tratadas como racionalização.   "Você só discute temas como apólice de vida e sepultura quando você está bem de saúde. Assim deve ser com coisas desagradáveis, como o racionamento. Esse assunto deve ser discutido muito antes. Não sob pressão", disse. Além de elaborar um plano de contingenciamento para um eventual apagão, o governo também deveria fazer campanhas para estimular a população a economizar recursos energéticos, disse Kelman.   A segurança no abastecimento de energia vem sendo questionada devido à redução do nível dos reservatórios de água das hidrelétricas, causada pela falta de chuvas. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, por exemplo, os lagos das usinas operavam na segunda-feira passada com 44,73% da capacidade, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). No dia 7 de janeiro de 2007, os reservatórios dessas mesmas regiões estavam com 60,2% da capacidade.   A situação é ainda mais grave porque as usinas do Sudeste e Centro-Oeste estão tendo de enviar energia para o Nordeste desde o fim do ano passado. No Nordeste, os reservatórios estão com menos água ainda. Na segunda-feira, eles operavam com apenas 27,04% de seu volume - no mesmo período do ano passado, as represas nordestinas estavam com 65,4% da capacidade.   Governo aciona termelétricas   Para poupar água dos reservatórios, o ONS determinou que todas as usinas termelétricas convencionais disponíveis, movidas a gás, carvão ou óleo, entrassem em operação. Na segunda-feira passada essas térmicas estavam produzindo 4.622 megawatts médios, ou 8,8% do total da produção nacional.   Para Kelman, além da chuva vários outros "vilões" fizeram com que o nível dos reservatórios baixasse. Em primeiro lugar, o atraso - causado, principalmente, por entraves ambientais - nas obras de novas hidrelétricas. Com o atraso nas obras e o crescimento do consumo, as hidrelétricas existentes tiveram de ser utilizadas com mais intensidade, o que reduziu mais rapidamente o nível da água.   Outro ponto importante é a escassez de gás natural. A falta do combustível levou a Aneel a retirar do planejamento do setor elétrico 3,6 mil megawatts (MW) que deveriam ser produzidos por usinas térmicas, mas que não estavam sendo gerados."A conjunção desses fatores fez com que o País ficasse mais dependente das chuvas", disse.   Semelhanças com 2001   Para Kelman, há algumas semelhanças entre a situação atual e a de 2001, quando foi decretado o racionamento. Uma delas está no que ele classificou como "frustração da oferta". Segundo ele, algumas usinas, como Itaipu, produzem menos do que deveriam produzir. "Quando foi calculado, na origem, o lastro de Itaipu foi superestimado. O fato é que tem menos pessoas carregando o piano em relação ao que se imaginava. Aí, o peso que cada um carrega é maior", disse o especialista.   O ex-ministro de Minas e Energia e atual presidente da Companhia Energética de Brasília (CEB), José Jorge, avalia que a situação do setor elétrico é "parecidíssima" com a que antecedeu o racionamento em 2001. Jorge, que assumiu o ministério em março daquele ano, pouco antes da crise energética, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, disse que é necessário que o governo Lula reconheça que pode haver problema de abastecimento.   "A primeira coisa é rezar para chover, e a segunda é reconhecer a dificuldade", disse Jorge à Agência Estado. "Não adianta tapar o sol com a peneira, porque só faz piorar", acrescentou o ex-ministro, que até o ano passado cumpriu mandato de senador pelo DEM (ex-PFL) de Pernambuco. Segundo ele, o caminho para atenuar a crise é criar um comitê de gestão, como foi feito em 2001, e começar a falar em economizar energia.   Jorge observa que faltam dois meses para o fim do "período molhado" e que ainda pode chover. O aumento do nível dos reservatórios nesses dois meses, na opinião dele, pode até resolver o problema para este ano, mas não garante o abastecimento para 2009. Ele lembra que foi isso que aconteceu em 2000, mas o racionamento acabou ocorrendo em 2001.

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