Governo Kirchner acusa oposição de aliança com fundos

Alguns sindicatos e meios de comunicação também são incluídos no ataque, cujo objetivo, segundo analistas, é buscar culpados para a crise

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h01

BUENOS AIRES - Cada vez mais isolado em sua estratégia de confronto com os credores holdouts, o governo da presidente Cristina Kirchner está acusando os setores que não a respaldam de serem "cúmplices" ou "aliados" dos "fundos abutre", que é como a Casa Rosada chama os fundos hedge que levaram a Argentina aos tribunais em Nova York, Nevada e na Califórnia.

Ontem o chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina, Jorge Capitanich, disse que os partidos da oposição (da esquerda à direita) e os sindicatos críticos do governo, além de "alguns" meios de comunicação, "estão financiados e respaldados pelos fundos abutre".

Os sindicatos peronistas estão na mira da Casa Rosada nesta semana, já que a Confederação Geral do Trabalho (CGT) "rebelde" (que rachou com a presidente Cristina há dois anos) e a CGT "Azul e Branca", além da ala dissidente da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) protagonizarão uma greve geral na quinta-feira em protesto contra a política econômica do governo Kirchner. Os sindicatos dizem que a presidente Cristina traiu os "ideais trabalhistas" do peronismo.

Segundo Capitanich, a "defesa do interesse soberano da Argentina" depara-se com políticos da oposição, sindicatos e meios de comunicação "que defendem os interesses estrangeiros dos fundos abutre". "Isso é muito claro", disse Capitanich.

Amanhã o projeto de lei de Cristina começará a ser analisado nas comissões e tudo indica que será debatido em plenário no dia 4 de setembro.

O chefe do gabinete de ministros também declarou que as notícias publicadas nos últimos dias sobre a escalada inflacionária, as crescentes demissões no setor industrial e a perda do poder aquisitivo dos salários, além da alta do dólar no mercado paralelo, consistem numa "manipulação" que tenta "induzir um processo de desvalorização para que os bancos obtenham grandes lucros à custa de todos os argentinos".

Segundo Capitanich, não passam de "instrumentos" dos fundos hedge os partidos políticos de oposição que rejeitam o projeto da presidente Cristina de trocar a jurisdição dos títulos da dívida pública que desde 2005 estão sob a lei dos Estados Unidos e são pagos em Nova York. O governo encaminhou um projeto para uma nova reestruturação - em caráter voluntário -, com o objetivo de colocar os novos bônus sob a lei argentina e com pagamento no Banco de La Nación em Buenos Aires.

Dólar. Dentro da estratégia de encontrar bodes expiatórios para todo tipo de problema econômico argentino, o governo também indica que existem "setores empresariais desvalorizadores" para tentar explicar a disparada da cotação do dólar no mercado paralelo nos últimos dias, coincidindo com a entrada da Argentina em estado de "calote seletivo" no dia 30 de julho. Naquele dia a brecha entre a cotação do dólar paralelo e o oficial era de 49,6%. Nos últimos dias ultrapassou os 60%.

O vice-ministro da Economia, Emmanuel Agis, disse que o governo Kirchner não desvalorizará a moeda nacional, o peso. No entanto, de forma gradual e persistente, desde o início deste ano a Casa Rosada implementou microdesvalorizações que, de forma acumulada, já desvalorizaram o peso em 18%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.