André Dusek/Estadão - 9/1/2018
Banco Central já reconheceu que pode estourar a meta de inflação deste ano. André Dusek/Estadão - 9/1/2018

Governo mantém estratégia de redução e estipula meta de inflação em 3% para 2024

Objetivo fixado pelo Conselho Monetário Nacional é mais ambicioso do que nos anos anteriores e dá sequência ao processo de redução gradual da meta de inflação

Idiana Tomazelli e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 19h08

BRASÍLIA - No momento em que o Banco Central reconhece fortes chances de estourar a meta de inflação em 2021, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deu continuidade à estratégia de reduzir a meta a ser perseguida pela autoridade monetária nos próximos anos. Para 2024, o objetivo será uma inflação de 3%.

A meta de inflação é o norte do Banco Central em suas decisões sobre o rumo dos juros no País. Além do alvo central, ela tem uma margem de tolerância, que será de 1,5 ponto porcentual para mais ou menos em 2024. Isso significa que a inflação deverá ficar entre 1,5% e 4,5%.

O índice de oficial de inflação é o IPCA, divulgado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e que mede o impacto da variação de preços para famílias com renda entre um e 40 salários mínimos.

A nova redução da meta para 2024 é uma tentativa de mostrar compromisso com a ancoragem das expectativas para a inflação, isto é, de que ela seguirá sob controle apesar do estouro em 2021.

Em nota, o Ministério da Economia informou que a fixação da meta de 2024 em 3% é “coerente com a elevada credibilidade da política monetária” (ou seja, a atuação do BC para controlar a alta dos preços). 

Segundo o governo, a expectativa de inflação futura, projetada no Boletim Focus (pesquisa feita pelo BC com uma centena de instituições), “mostrou-se ancorada” à trajetória de reduções da meta anteriores, assim como a variância das expectativas de inflação tem caído substancialmente. “Tais evidências revelam que a política monetária e as metas são críveis, o que elimina os possíveis custos de redução de seus percentuais”, disse.

Nos últimos dias, analistas se dividiram entre as apostas de 3% ou 3,25% para a meta porque a busca de uma inflação ainda menor poderia, para uma ala, representar maior custo em termos de juros.

Mais ambicioso

O objetivo fixado pelo governo é mais ambicioso do que nos anos anteriores e dá sequência ao processo de redução gradual da meta de inflação, iniciado em 2017. Desde aquele ano, o CMN tem cortado o objetivo em 0,25 ponto porcentual a cada ano.

Na época, a meta de inflação era de 4,5%, objetivo que foi mantido para 2018. Em seguida, o porcentual caiu para 4,25% em 2019 e 4,0% em 2020.

Neste ano, o objetivo perseguido pelo Banco Central é de 3,75%, também com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual para mais ou menos. Os próprios analistas, porém, já esperam um estouro da meta em 2021.

Alta nos preços de alimentos, câmbio e mais recentemente a perspectiva de aumento nas tarifas de energia elétrica, diante da seca histórica que ameaça o abastecimento, são fatores que têm impulsionado a inflação. O Boletim Focus, coletado pelo Banco Central junto a analistas de mercado, mostra que as projeções apontam alta de 5,90% no IPCA em 2021. O próprio BC vê 74% de chance de estouro do teto da meta.

Em março, o Comitê de Política Monetária (Copom) reagiu à alta de preços e começou a subir a taxa básica de juros, a Selic, que até então estava no piso histórico de 2% ao ano. Desde então, já foram três altas seguidas, e a Selic agora está em 4,25% ao ano.

No último comunicado, o Copom destacou que o horizonte relevante para essas decisões incluem o ano de 2022 - para o qual as expectativas estão em 3,78%, dentro da meta de inflação já estipulada para o período, hoje confirmada em 3,5%, com margem de 1,5 ponto porcentual para mais ou menos.

Para 2023, a meta de inflação foi mantida em 3,25%, com a mesma margem de tolerância.

Hoje mais cedo, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reafirmou que a instituição usará "todos os instrumentos" para atingir a meta de inflação em 2022. Divulgado hoje, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do BC trouxe projeção de 5,8% para a inflação este ano e de 3,5% para o próximo. Se estes porcentuais se confirmarem, o BC terá descumprido a meta de 2021, mas cumprido a de 2022.

Ambiente favorável

Para o Ministério da Economia, a nova meta de inflação para 2024 “reduz incertezas e aumenta a capacidade de planejamento das famílias, das empresas e do governo”. Além disso, na avaliação do governo, o processo de consolidação fiscal da economia cria um ambiente favorável para uma redução estrutural da inflação e dos juros de equilíbrio.

“Medidas como o teto de gastos e a reforma da Previdência produziram expectativas de uma redução na trajetória de gastos, enquanto a Emenda Constitucional 109/21 (PEC emergencial) estabeleceu gatilhos para ajuste de gastos da União, Estados e municípios e se somou à aprovação de outras leis complementares que reforçam o equilíbrio fiscal dos entes federativos”, disse a pasta.

“Mesmo diante de choques adversos, o compromisso do governo com o equilíbrio fiscal intertemporal, refletido na manutenção do teto, mantém o ambiente favorável à estabilidade macroeconômica”, acrescentou.

A Economia disse ainda que a inflação traz “custos substanciais” para a sociedade, reduzindo os rendimentos reais de capital e trabalho e desestimulando a atividade produtiva. “A redução da meta produz, portanto, um ambiente estável e previsível, estimulando o investimento e a produção e elevando o bem-estar da sociedade brasileira”, afirmou.

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BC sobe para 5,8% estimativa de inflação e vê 74% de chance de estouro da meta este ano

Segundo relatório do Banco Central, os preços controlados pelo governo devem exercer maior pressão sobre a inflação no curto prazo, principalmente as tarifas de energia elétrica

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 09h51

BRASÍLIA - O Banco Central informou nesta quarta-feira, 24, que subiu de 5% para 5,8% sua estimativa de inflação para o ano de 2021 e que passou de 41% para 74% as chances de a alta nos preços superar o teto da meta, de 5,25%, previsto para este ano. Se a meta não é cumprida, o BC tem de escrever uma carta pública explicando as razões que fizeram com que a inflação fugisse do controle da instituição.

A expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) que consta no relatório de inflação do segundo trimestre deste ano, divulgado nesta quinta-feira, 24, considera a trajetória estimada pelo mercado financeiro para a taxa de juros e de câmbio neste ano e no próximo.

O centro da meta de inflação, em 2021, é de 3,75%. Pelo sistema vigente no País, será considerada cumprida se ficar entre 2,25% e 5,25%. Ou seja, a projeção do BC está bem acima do teto do sistema de metas.

Segundo o BC, os preços administrados (controlados pelo governo) devem exercer maior pressão sobre a inflação no curto prazo. Isso vai ocorrer sobretudo em função da alta das tarifas de energia elétrica advinda tanto de reajustes quanto da transição para a bandeira vermelha 2.

No relatório desta quinta, o BC publicou projeções para a inflação no curto prazo, de 0,62% em junho, 0,39% em julho e 0,26% em agosto. Ao avaliar o movimento mais recente dos preços, o BC ponderou ainda que a inflação no segundo trimestre foi particularmente afetada pela mudança na bandeira de energia.

Além da pressão de alta para a inflação exercida pela energia elétrica, o BC destacou um fator de baixa ligado às tarifas dos planos de saúde individuais. “Merece menção a expectativa de reajuste negativo das tarifas de planos de saúde individuais, motivada pela queda em 2020 das despesas assistenciais das operadoras desses planos”, disse o BC. 

Porém, a própria autarquia relativizou o peso deste item sobre a inflação. “O reajuste negativo apenas moderará as variações mensais do subitem plano de saúde ao longo dos próximos meses, na medida em que sua apuração no IPCA é diluída por doze meses e que ainda serão contabilizadas parcelas referentes ao reajuste de 2020, que entrou em vigor apenas em janeiro de 2021”.

Ao avaliar a trajetória dos preços livres (que não controlados pelo governo) no curto prazo, o BC disse esperar que os bens industriais sigam apresentando “alta relevante”. A autarquia também espera que os alimentos tenham uma “variação pequena” no curto prazo, “mas acima do padrão sazonal tipicamente favorável, dado que os preços de alimentos in-natura recuaram anteriormente em razão da antecipação do período seco”.

No documento, o BC também afirmou que os preços de serviços devem acelerar “moderadamente”, “refletindo o arrefecimento da pandemia em comparação à situação observada em março e abril”.

Em suas últimas publicações e em comentários públicos de autoridades, o BC vem defendendo que o avanço da vacinação pode criar uma “euforia” de consumo de serviços, com impactos na inflação. Conforme o BC, isso vem ocorrendo em países onde a vacinação está mais avançada, como os Estados Unidos.

Revisões

O BC também citou os fatores que levaram às revisões das projeções de inflação no documento anterior, de março, para o RTI publicado nesta quinta. Os cinco principais fatores de alta para a os índices de preços foram: inflação observada recentemente maior do que a esperada; revisão das projeções de curto prazo, refletindo as pressões correntes; elevação dos preços de commodities (produtos básicos), incluindo o preço do petróleo; crescimento das expectativas de inflação da pesquisa Focus; alteração da hipótese sobre a bandeira tarifária da energia elétrica para os finais de 2021, 2022 e 2023, que aumentou a projeção para o primeiro.

Além disso, o BC citou três principais fatores de revisão para baixo das projeções: trajetória mais elevada da taxa Selic da pesquisa Focus, que representou um aumento significativo da taxa real considerada; apreciação cambial; queda do indicador de incerteza econômica em ritmo inferior ao considerado.

As projeções de inflação no cenário básico do BC são de 5,8% para 2021, 3,5% para 2022 e 3,3% para 2023.

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Após alimentos e combustíveis, energia e serviços são ameaças inflacionárias

Gasolina e gás de botijão acumulam altas de 24,7% e 14,25% este ano, respectivamente, e agora, com a crise hídrica, a conta de luz também deve subir

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - A escalada mais recente da inflação no Brasil é resultado, em grande parte, da pandemia de covid-19. Em primeiro lugar, a reaceleração de algumas das maiores economias ainda em 2020, principalmente a chinesa, elevou a demanda pelas commodities (produtos básicos) agrícolas brasileiras. Isso se traduziu na alta dos preços dos alimentos no mercado interno. 

Um segundo fator está ligado à elevação dos preços do petróleo no mercado internacional, que afetou o custo dos combustíveis no Brasil. O preço da gasolina encerrou 2020 praticamente estável, mas em 2021 até maio já subiu 24,7%. O gás de botijão - item importante para o orçamento das classes mais baixas - subiu 9,2% no ano passado e 14,25% este ano.         

Outro fator que contribuiu para a inflação foi o dólar. A moeda americana à vista se manteve em níveis superiores a R$ 5,50 durante boa parte do ano passado e deste ano, a despeito de o Brasil estar recebendo mais dólares em função da exportação de commodities.

Por trás disso estão as preocupações com o futuro da economia brasileira e com a sustentabilidade do déficit orçamentário do País. Como muitos produtos consumidos no Brasil são influenciados pelo câmbio, o dólar mais alto ajudou a sustentar a inflação. Somente recentemente a moeda americana perdeu força ante o real e se reaproximou dos R$ 5.

“Quando a pandemia veio, havia o temor de que os gastos (para fazer frente ao coronavírus) se tornassem permanentes. Houve uma desconfiança em relação à política fiscal que gerou alta do dólar, combinada ao aumento nos preços das commodities”, resume o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo Souza Junior. 

Mais recentemente, dois novos fatores entraram no radar do governo: o custo da energia elétrica e a inflação de serviços. No primeiro caso, a seca que atinge a região das hidrelétricas tende a elevar os preços da energia, como forma de compensar os gastos extras que o País terá com a produção das termoelétricas. Em 2020, a energia elétrica residencial ficou 9,14% mais cara. Em 2021 até maio, há uma baixa de 0,53%, mas a tendência é de elevação nos próximos meses. 

“O mercado coloca no cenário de inflação diversos riscos e um deles é a questão energética”, explica o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. Desde junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mantém acionada a bandeira vermelha patamar 2 no sistema elétrico - os brasileiros estão pagando R$ 6,24 a mais por cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

Para piorar, estão em discussão na agência reguladora novos valores para as bandeiras tarifárias. Pela proposta apresentada em março, no patamar 2, o mais caro do sistema, o reajuste pode chegar a 21%, passando para R$ 7,57 a cada 100 kWh. “O risco é de termos mais inflação, e não menos”, alertou Serrano.

Outro fator que ganhará importância nos próximos meses é o custo dos serviços. O Banco Central já vem alertando que, em países onde a vacinação está mais avançada, surgiu uma “euforia de consumo” entre a população. Nos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas passaram a alugar mais automóveis, a reservar mais hotéis e a comprar mais passagens aéreas. “Acreditamos que esta euforia da reabertura vai acontecer no Brasil também”, disse no início do mês o presidente do BC, Roberto Campos Neto, durante evento virtual do JP Morgan.

Todo este conjunto de fatores fez as projeções de inflação para 2021 e também 2022 subirem nos últimos meses. O Relatório de Mercado Focus - que compila os cálculos do mercado financeiro - indica atualmente que a inflação terminará 2021 em 5,82%, bem acima da meta de 3,75% perseguida pelo BC. A projeção para 2022 está em 3,78%, também acima da meta de 3,50%. 

Para evitar um descontrole inflacionário, o BC vem elevando os juros desde março deste ano. Na semana passada, a autarquia promoveu o terceiro aumento consecutivo de 0,75 ponto porcentual da Selic (a taxa básica da economia), para 4,25% ao ano. Os economistas do mercado financeiro esperam que, até o fim de 2021, a Selic chegue a 6,25% ao ano. 

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Nada indica que inflação vai 'arrefecer muito' nos próximos meses, diz Mailson da Nóbrega

Ex-ministro da Fazenda diz que os choques de alimentos, combustíveis e, mais recentemente, o risco trazido pelo setor elétrico têm sustentado os índices de inflação no Brasil

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - A pressão inflacionária deve diminuir nos próximos meses, mas nada indica que ela vai “arrefecer muito”. Essa é a avaliação do economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e sócio da Tendências Consultoria Integrada.

Segundo ele, os choques de alimentos, combustíveis e, mais recentemente, o risco trazido pelo setor elétrico têm sustentado os índices de inflação no Brasil. Confira os principais trechos da entrevista.

Por que a inflação está mais elevada?

Essa inflação se deve na sua maior parte a uma pressão de custos. Portanto, é uma inflação de oferta. Primeiro, temos os custos decorrentes do aumento dos preços das commodities, que é uma consequência da forte recuperação das economias da China, dos Estados Unidos e agora da Europa. Isso esteve associado a uma depreciação cambial, que não é normal em ciclos positivos de commodities. Quando as commodities sobem, a tendência é a valorização da moeda do País que exporta esses produtos. No Brasil, aconteceu o contrário: houve uma depreciação do real. Isso decorrente de riscos percebidos tanto no campo fiscal quanto no político. Essas duas forças - depreciação e aumento de preços das commodities - levou a um aumento expressivo de alimentos e matérias-primas. Além disso, houve um aumento no preço de combustíveis e, mais recentemente, de energia, em função da crise hídrica.   

O que o governo pode fazer?

Esse tipo de inflação não tem como ser combatida pelos instrumentos convencionais de política monetária. A Selic (a taxa básica de juros) está aumentando - e é necessário que aumente - para combater os efeitos secundários da inflação. Isso diz respeito ao que influencia expectativas e produz remarcações de preços. Além disso, é preciso evitar que essa inflação mais alta, provocada pelo lado da oferta, contamine a inflação para 2022. O que o Banco Central nesta altura está fazendo é olhar a inflação em 2022, e não mais em 2021. O BC não tem como evitar que a inflação este ano fique acima do limite superior da meta.

O BC vinha defendendo no ano passado que a inflação de alimentos era passageira. Mas o choque continua. 

O BC tinha razão meses atrás ao estimar que esse choque seria temporário. Porque não havia estimativa de crescimento de 6,5% dos EUA este ano nem perto de 9% da China. O que era verdade três ou quatro meses atrás não é mais verdade hoje.

A inflação de serviços preocupa para o futuro? 

Há dois fatores de pressão, que virão do andamento da economia. Em primeiro lugar, à medida que a renda aumenta, sobe a possibilidade de as empresas repassarem aos preços finais custos reprimidos. As empresas estão operando hoje com margens mais baixas, porque não conseguem repassar. O segundo ponto está ligado ao fim da pandemia. A inflação de serviços em 12 meses até maio foi de apenas 1,7%. É menos de um quarto da inflação em 12 meses do IPCA cheio. As pessoas deixaram de ter contato entre si, de ir a cinemas, teatros, restaurantes. À medida que a vacinação avança, vamos ter daqui a pouco a liberação de estádios e festas, por exemplo. Tudo isso será uma demanda adicional por serviços. Então, nada indica que a inflação vai arrefecer muito nos próximos meses. Ela vai cair, de 8,06% em 12 meses até maio para 5,8% (no acumulado de 2021), segundo nossas estimativas. Mas não para 3,50%. 

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Inflação para os mais pobres chega a 8,57% desde o início da pandemia

Enquanto o IPCA, a inflação oficial do País, ficou em 7,39%, famílias com renda de até cinco salários mínimos sentiram mais a alta nos preços no período, principalmente por causa do aumento nos alimentos

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - Estigma ainda recente da economia nacional, a inflação voltou a pressionar o orçamento das famílias no Brasil, em especial as de menor poder aquisitivo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a alta de preços atinge de maneira diferente ricos e pobres.

Desde que a pandemia do novo coronavírus começou, em março do ano passado, a inflação oficial acumulada medida pelo IPCA foi de 7,39%. Para as famílias com renda de até cinco salários mínimos, porém, o índice medido pelo INPC foi maior, de 8,57%.

No início da pandemia, os índices chegaram a registrar deflação nos meses de abril e maio de 2020, em meio à retração da atividade econômica e à onda de bloqueios em todo o País. Mas nos meses seguintes os indicadores voltaram a subir, puxados por questões específicas.

O primeiro grande choque foi a alta do preço dos alimentos. Base da alimentação do brasileiro, o arroz disparou 76% no ano passado e o feijão preto subiu 45%. A alimentação em domicílio ficou 18% mais cara.

O que os economistas veem nos números, a população em geral sente no bolso. Morador de Santa Maria, região administrativa do Distrito Federal, o pintor Valdo Rocha, de 47 anos, diz que deixou de comprar carne no último ano por causa do preço do produto. “Não sei nem te falar a frequência com que como carne. Compro de vez em quando só para não esquecer o gosto”, disse.  

Rocha, que tem renda mensal de cerca de R$ 2 mil, reclama também do preço do gás de cozinha e diz que vem deixando de comprar outros itens por conta da alta de preços. “Hoje em dia está tudo um absurdo.”

Embora a inflação atinja todas as famílias, o impacto maior recai sobre as classes mais baixas. Isso ocorre justamente porque produtos básicos - como alimentos, gás e serviços de energia elétrica - têm um peso maior na cesta de consumo destas famílias. Em outras palavras, os pobres gastam uma parcela maior da renda com comida, na comparação com os ricos. Quando o preço do arroz sobe muito, são os pobres os mais prejudicados.

“A inflação não é igual para todo mundo e incide mais desastrosamente sobre os mais pobres. As classes mais baixas estão tendo uma queda real no consumo enquanto as classes mais altas, que acumularam poupança durante a pandemia, se preparam para um aumento no consumo de serviços, que tem uma demanda represada”, explica o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Felipe Salto.

É por esse motivo que, no Brasil, economistas costumam repetir que a inflação é o principal encargo sobre a população mais pobre. Era assim no período de hiperinflação, entre o fim da década de 1980 e o início da década de 1990, e continua sendo assim agora.

“É um ‘imposto inflacionário’”, resume o economista Fernando Ribeiro Leite Neto, professor do Insper em São Paulo. “Com o mercado de trabalho fragilizado, o espaço para recomposição salarial é muito reduzido. Boa parcela da população está tendo perda de renda real (descontada a inflação).”

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que, em meio à crise provocada pela pandemia de covid-19, apenas 38,5% dos reajustes salariais em 2020 resultaram em ganhos reais - ou seja, em aumentos acima da inflação. Outros 34% dos reajustes foram equivalentes à inflação e 27% ficaram abaixo do índice de preços.

Para o economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney e sócio da Tendências Consultoria Integrada, as classes mais baixas estão sofrendo um “duplo efeito” na renda. “Primeiro pela pandemia, que afetou de forma mais séria o mercado informal, onde estão os mais pobres”, explicou. “Segundo porque isso é agravado pela inflação mais elevada.”

Mailson lembra que a inflação é sempre uma espécie de “imposto inflacionário”. “Claro que isso é tolerável em níveis baixos, de 2% a 3%. Mas sempre que o índice sai disso, o imposto inflacionário se acentua, como está acontecendo agora”, diz.

“Quando a inflação aumenta, os preços ficam mais altos e o governo arrecada mais sem aumentar a alíquota de imposto. A inflação produz um aumento de receita sem o governo fazer esforço nenhum”, completa Salto.

O efeito é ainda maior sobre os mais pobres, que consomem bens e serviços que são mais tributados do que a renda. Assim, as camadas mais vulneráveis bancam a maior parte do “imposto inflacionário”. 

O diretor da IFI ressalta que o aumento da inflação tem um efeito de “melhora artificial” das contas públicas, mas que não se sustenta no longo prazo. A inflação faz com que suba o valor nominal do Produto Interno Bruto (PIB). Isso ocorre porque o preço dos bens produzidos na economia está mais alto, e não porque há aumento da atividade econômica propriamente dita. Crescendo o PIB, a relação entre dívida e PIB também fica menor em um primeiro momento.

“O problema é que não é sustentável. Não tem nada de estrutural acontecendo. O PIB potencial não aumentou, a produtividade está caindo, não aprovamos reformas para valer desde a da Previdência”, diz Salto. “A partir de 2022, voltamos aos problemas conhecidos. Temos risco de aumento de juros, de políticas externas afetarem a dinâmica da economia brasileira e o não avanço nas agendas que importam.” 

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Mercado prevê alta de 0,75% da Selic em agosto

Maioria das 28 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast espera que a taxa básica de juros suba para 5% na próxima reunião do Copom

Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 18h21

Após o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) vir menos austero, a elevação das previsões para a Selic (taxa básica de juros) deu uma desacelerada no ritmo. Segundo a pesquisa feita pelo Projeções Broadcast, das 28 instituições financeiras consultadas, nove preveem aumento de 1 ponto porcentual dos juros no próximo Copom, em agosto. A mediana indica alta de 0,75 ponto dos juros em agosto, elevando a Selic a 5%.

Na pesquisa feita pela Agência Estado no dia seguinte ao Copom de junho, apenas duas de 37 instituições esperavam aumento dos juros de mais do que 0,75 ponto porcentual em agosto. Mas a ata da reunião mencionou que o Banco Central (BC) já havia discutido uma alta da Selic de 1 ponto porcentual, que havia se tornado o cenário-base de 12 de 34 instituições no levantamento da última terça-feira, 22.

Para o fim de 2021, a mediana se manteve inalterada, com previsão de Selic a 6,5% a partir de estimativas de 6% a 7,25%. No fim de 2022, o mercado vê aumento dos juros a 7,0%, acima da estimativa intermediária do relatório Focus, de 6,5%. Nesta base, as projeções vão de 5,5% a 8%.

Diante da expectativa de juros mais altos, a mediana da pesquisa Projeções Broadcast para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022 já está em 3,70%, abaixo da registrada pelo último relatório Focus - de 3,78% - mas ainda acima do centro da meta do ano que vem, de 3,50%. Para 2021, o mercado espera IPCA de 6,0%.

A maior parte do mercado leu no RTI um discurso menos austero que o da ata, além de uma sinalização do BC de que o plano é repetir em agosto o ritmo de aumento da Selic de junho, de 0,75 ponto porcentual. As projeções de inflação da autoridade monetária para 2022 (3,5%) e 2023 (3,3%) indicam conversão do IPCA para a meta no horizonte relevante mesmo usando a previsão de taxa Selic em 6,25% no fim deste ano e de 6,5% no fim do ano que vem.

A elaboração do BC sobre os riscos para a inflação a partir dos possíveis cenários de reversão de commodities e de aumento dos juros dos Estados Unidos também chamaram a atenção de analistas, em especial porque a autoridade monetária já havia citado os fatores no seu balanço da ata.

"No líquido, o RTI foi um pouco mais dove (expansionista) do que a ata, eu diria que deve ter um pouco de pressão para baixo nas projeções de alta de 1 ponto porcentual. O mercado vai seguir dividido, mas retira pressão", disse o economista-chefe do Haitong, Marcos Ross, após a divulgação do documento. O analista elevou a projeção de Selic em agosto para alta de 1 ponto após a ata do Copom, mas reconhece que o RTI imprime um viés de baixa à estimativa.

Para o economista sênior do Banco ABC Brasil Daniel Xavier, o posicionamento do BC no RTI sinaliza a alta de 0,75 pp em agosto. "Não parecem propensos a subir o ritmo de alta, ainda que tenham sinalizado essa possibilidade. E vai seguir bastante dependente das expectativas de inflação", diz Xavier, que espera IPCA de 6,0% em 2021, com alívio a 3,9% em 2022.

O analista prevê controle nas projeções de inflação do mercado para o ano que vem, com pouco espaço para uma mediana acima de 3,9% no Relatório Focus. "O coeficiente de variação está menor, e a distância entre piso e teto também. E o BC subindo juros e mantendo discurso mais duro atua de forma relevante para conter as expectativas, junto com o câmbio", explica.

A economista sênior da LCA Consultores Thais Zara avalia que o RTI sinalizou que o BC só deve migrar para um aumento de 1 ponto porcentual da Selic em caso de deterioração forte das expectativas de inflação de 2022. A analista lembra que a expectativa de bandeira vermelha 2 em dezembro deve pressionar o IPCA de 2021, mas oferecer alívio para o ano que vem.

"Claro, o BC deixou a porta aberta para uma alta mais forte, mas isso dependeria de uma deterioração adicional das expectativas de inflação para o ano que vem e, por enquanto, não nos parece que a deterioração vai ser tão forte a ponto de intensificar o ritmo de ajuste do Copom", explica Zara. A LCA espera Selic de 7,0% no fim de 2021 e IPCA de 6,2% neste ano e de 3,8% no próximo.

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PIB sobe, mas sensação de bem-estar da população é a pior desde 2002, aponta estudo

Levantamento dos economistas Aloisio Campelo Junior e Anna Carolina Gouveia, do Ibre/FGV, considerou os indicadores de desemprego e de inflação durante a pandemia

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 14h00

Apesar dos dados positivos sobre a retomada econômica, com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, a realidade da população brasileira não traduz essa melhora. O sentimento de bem-estar continua em baixa e pode piorar ainda mais até o terceiro trimestre deste ano, conforme um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Elaborado pelos economistas Aloisio Campelo Junior e Anna Carolina Gouveia, o trabalho mostra a evolução do índice de desconforto econômico brasileiro, medido pela agregação das taxas de desemprego e de inflação. O indicador no período da pandemia, entre fevereiro de 2020 e março de 2021, é o maior desde o ciclo entre outubro de 2002 e junho de 2003 - 103,8 ante 128,3.  

“Recentemente temos visto notícias de um PIB maior, melhora na área fiscal e retomada de alguns setores econômicos. Mas isso não corresponde ao bem-estar da população”, diz Anna Carolina. Segundo ela, hoje o País tem um mercado de trabalho ruim e que deve se manter com taxas elevadas no curto prazo por causa do retorno das pessoas na procura por emprego.

O dado mais negativo, segundo a economista, é que o nível de desconforto do brasileiro tem persistido em patamar elevado há muito tempo. Em 2002, por exemplo, o índice atingiu um pico por causa da inflação elevada e da taxa de desemprego, que estava em torno de 10% e 11%. Mas o indicador cedeu logo. “Agora essa patamar esta alto há alguns anos. Mal saímos da crise de 2015/2016, com crescimento baixo nos últimos anos, e já caímos em nova recessão por causa da pandemia. É um acúmulo de mal-estar”, diz Anna Carolina.

De acordo com o trabalho, historicamente, “a manutenção de níveis elevados de desconforto por muito tempo termina levando a pressões por mudanças de política econômica, além de consequências de natureza social e política”. A análise feita por Campelo e Anna Carolina mostra que a persistência do desconforto econômico no período entre 2014 e 2021 é o pior dos últimos 25 anos.

Medo da pandemia

Para avaliar mais profundamente a sensação de desconforto da população, já que a dimensão subjetiva de bem-estar não está contemplada no índice, o Ibre/FGV calculou outros dois indicadores. “Procuramos resolver essa carência com a introdução de uma variável que reflete a porção do Índice de Confiança do Consumidor da FGV que não é determinada por fatores econômicos”, diz a economista, no estudo. 

Assim, o Índice de Desconforto II incluiria aspectos de natureza não econômica como, por exemplo, o medo da pandemia e a tendência à depressão devido às medidas de isolamento social, entre outros fatores. O resultado foi pior que o Índice I, que só inclui desemprego e inflação. Se no primeiro o indicador era de 103,8, no segundo chegou a 118,4.

“A pandemia não está controlada e o ritmo de vacinação é lento. Isso faz o sentimento de mal-estar continuar alto. Quanto mais a pandemia demora, mais tempo vai levar para o nível de desemprego diminuir”, diz Anna Carolina. 

No Índice de Desconforto III, a economista conta que incluiu dados do PIB per capita e do consumidor. Nesse caso, os níveis máximos da série ocorreram durante a recessão de 2014-16 e em junho de 2020, quando a confiança dos consumidores, em média móvel trimestral, alcançou o menor nível histórico. 

De acordo com o estudo, entre o final de 2020 e março de 2021, todos os indicadores de desconforto subiram, influenciados pelo aumento da inflação, queda lenta do desemprego, fim dos auxílios emergenciais e o recrudescimento da pandemia no Brasil.

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Banco Central eleva para 4,6% a previsão de crescimento do PIB em 2021

Projeção ainda está abaixo da expectativa do mercado financeiro, que já vê alta de 5% na atividade econômica este ano

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 09h56

BRASÍLIA - O Banco Central ampliou de 3,6% para 4,6% sua estimativa para o crescimento da economia brasileira em 2021, de acordo com o relatório de inflação do segundo trimestre, divulgado nesta quinta-feira, 24.

Mesmo assim, a previsão do BC está abaixo da expectativa do mercado financeiro da última semana, que prevê uma alta de 5% para o nível de atividade neste ano. Em maio, o Ministério da Economia estimou uma expansão de 3,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano.

A expectativa para o nível de atividade foi feita em meio à pandemia de covid-19, que derrubou o PIB em 2020. Entretanto, a economia tem mostrado forte reação nos últimos meses, com a recuperação da atividade mundial e a alta dos preços das commodities (produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo).

Segundo o Banco Central, o aumento na previsão para o PIB deste ano reflete, principalmente, o resultado melhor do que o esperado no primeiro trimestre, quando foi registrada uma alta de 1,2%, apesar da piora da crise sanitária. O BC diz esperar resultado próximo à estabilidade para o nível de atividade no segundo trimestre e "crescimento ao longo da segunda metade do ano".

"Adicionalmente, recuperação parcial da confiança dos agentes econômicos, medidas de preservação do emprego e da renda, prognóstico de avanço da campanha de vacinação, elevados preços de 'commodities' e efeitos defasados do estímulo monetário [cortes de juros do ano passado] indicam perspectivas favoráveis para a economia", acrescentou a instituição.

A instituição informou, ainda, que apesar da redução significativa dos riscos para a recuperação econômica, ainda há "bastante incerteza sobre o ritmo" de crescimento.

"Entre os fatores que podem diminuir a taxa de expansão destaca-se o risco de surgimento ou disseminação de novas variantes de preocupação do SARS-CoV-2. Dificuldade para obtenção de insumos e custos elevados em algumas cadeias produtivas e eventuais implicações da crise hídrica na bacia hidrográfica do Paraná para a geração de energia elétrica são fatores adicionais que podem atenuar o ritmo de recuperação da atividade", avaliou o Banco Central.

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