Governo mantém prazo para capitalização

Mantega confirma a data de 30 de setembro, mas risco de atraso preocupa especialistas

Sabrina Valle e Kelly Lima, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que o governo continua trabalhando com o prazo de 30 de setembro para a capitalização da Petrobrás, apesar das indicações de que há dúvidas em relação à viabilidade do cronograma estipulado pela estatal. Segundo ele, a escolha do preço das reservas da cessão onerosa será técnica e chegará a um valor justo tanto para a companhia quanto para a União.

"Nós estamos dentro dos prazos e, portanto, vamos procurar cumpri-los. Fica mantido aquilo que a Petrobrás vem dizendo nas suas informações", afirmou Mantega, após participar da assinatura de um empréstimo do Banco Mundial à Prefeitura do Rio. O governo já recebeu as avaliações sobre o preço das reservas da cessão onerosa, contratadas por Petrobrás e Agência Nacional do Petróleo (ANP), que balizarão as discussões sobre o processo.

O ministro da Fazenda não confirmou os valores sugeridos pelas certificadoras e disse não saber de onde surgiram os valores publicados na imprensa - que variam entre US$ 6, na avaliação contratada pela Petrobrás, e US$ 12, no trabalho entregue à ANP. "Não sei quem falou em discrepância (dos preços). Eu não falei em discrepância. Ninguém está autorizado a falar sobre isso", comentou.

Preliminares. Os valores apresentados anteontem são preliminares, reforçou Mantega, e podem mudar após análise dos técnicos. "Vamos nos basear objetivamente nos resultados técnicos. Não haverá nenhuma manipulação nem para um lado nem para o outro", acrescentou. "Não se trata de jogo de quem vai ganhar e quem vai perder."

Em comunicado distribuído ontem, a Petrobrás informou que os detalhes do contrato de cessão onerosa, que incluem o valor das reservas, serão avaliados previamente pelo comitê de minoritários criado para acompanhar o processo de capitalização. Formado pelos dois representantes dos minoritários no conselho de administração da estatal mais o advogado Ary Oswaldo Mattos Filho, o comitê, porém, tem pouca ingerência sobre a aprovação do contrato, uma vez que a União é quem tem a palavra final.

A possibilidade de adiamento provocou mais preocupação no mercado financeiro, que vê dificuldades para a Petrobrás sustentar seu plano de investimentos em 2010, que prevê gastos de R$ 88,6 bilhões. No primeiro semestre foram investidos R$ 32,5 bilhões e, tradicionalmente, a estatal faz a maior parte de seus aportes no terceiro trimestre.

"Se a capitalização não acontecer em setembro, a Petrobrás certamente terá de ir a mercado via captação ou buscar novos financiamentos, porque mesmo aumentando seu caixa, como é esperado para o terceiro trimestre, não tem como chegar ao total previsto sem recursos extras", disse Eduardo Roche, analista-chefe do Modal Asset.

A busca de novos financiamentos, porém, é prejudicial à política de gestão financeira da empresa, que estipula um limite de alavancagem (relação entre dívida e patrimônio) de 35% - ao fim do segundo trimestre, estava em 34,7%. "Certamente, este limite já foi ultrapassado", disse Roche, fazendo coro a vários analistas financeiros que não podem se identificar por trabalharem em instituições que participam do processo de capitalização.

Para os analistas, no entanto, mesmo que não aconteça em setembro, a capitalização deve ocorrer ainda este ano. "Quanto mais o tempo passar, pior é para a Petrobrás e para os acionistas, porque tudo fica congelado: investimentos, ações, projetos, tudo", disse uma fonte.

A preocupação, completa, refere-se principalmente ao caixa da companhia ao fim do terceiro trimestre. A Petrobrás encerrou 2009 com caixa de R$ 29 bilhões. Em 30 de junho, tinha R$ 24 bilhões, mesmo tendo tomado cerca de R$ 10 bilhões em financiamentos no segundo trimestre.

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