Governo não crê em onda protecionista na Argentina

O governo brasileiro deu a entender que não teme uma nova onda protecionista na Argentina, decorrente da implementação do pacote econômico aprovado no final de semana pelo parlamento local. Segundo o embaixador José Botafogo Gonçalves, que assumirá a representação do Brasil em Buenos Aires, as medidas de proteção aos setores produtivos adotadas na gestão do ex-presidente Fernando de la Rúa "não deverão desaparecer da noite para o dia, em um passe de mágica". Mas ele completou que não acredita na retomada de uma política de isolamento econômico pelo novo governo argentino.A observação do diplomata foi compartilhada pelo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca, para quem a desvalorização do peso argentino deverá, em teoria, provocar a redução do protecionismo mantido pelo país vizinho.Giannetti defendeu ainda que o pacote econômico permitirá, em prazo "muito breve", a retomada das discussões sobre a convergência macroeconômica no Mercosul - uma meta abandonada no ano passado, com o agravamento da crise argentina."Na medida que a Argentina desvalorizar a sua moeda e criar melhores condições de competitividade, a tendência será a redução das medidas protecionistas", afirmou. "Teoricamente, não vejo razão para a proteção comercial aumentar, a não ser no discurso político interno." De acordo com Botafogo, a adoção de uma nova política cambial pela Argentina eliminará o principal foco de fricção entre os dois países nos últimos dois anos.Repasse de custoConforme explicou, esse atrito não era provocado simplesmente pela existência de duas políticas cambiais distintas - a flutuante, no Brasil, e a fixa, na Argentina. Sua origem estava na insistência argentina em repassar para o Brasil o custo de sua própria política cambial, por meio da criação de sobretaxas sobre os desembarques de produtos brasileiros naquele mercado. A tese foi defendida pelo ex-ministro da economia, Domingo Cavallo, que renunciou no final de dezembro."A política econômica argentina mudou. Mas a realidade continua a mesma. Não será com um passe de mágica que as coisas serão resolvidas", ponderou Botafogo, que assume a embaixada do Brasil em Buenos Aires com a orientação de manter uma política de "paciência estratégica" com o governo local.ReaquecimentoDe acordo com Gianntetti, o maior mérito do pacote argentino está na possibilidade de reaquecer uma economia em recessão há quatro anos. Para ele, o fato de a desvalorização do peso "encarecer" os desembarques de produtos brasileiros deverá ser compensado pelo aumento da demanda por essas mesmas mercadorias.Ele lembrou que as exportações brasileiras para a Argentina caíram 50% em dezembro, em comparação com igual período de 2000, por conta do bloqueio dos depósitos bancários no país e da recessão."O Brasil está em uma condição excepcional de continuar sendo o maior parceiro da Argentina. Mas não adianta ter um parceiro estagnado. Nós queremos um parceiro saudável, que esteja crescendo e comprando cada vez mais do Brasil", afirmou o secretário-executivo da Camex.PreocupaçãoApesar da "tranqüilidade" de Giannetti e de Botafogo, fontes do governo se mostraram preocupadas com sinais de elevação do protecionismo na Argentina, contidos no pacote e na nova equipe econômica do país vizinho. Um dos indicadores seria a aplicação do câmbio flutuante para as importações de bens considerados não-essenciais.Em princípio, há temores de que esse grupo concentre os bens de consumo, que correspondem à maior parte das vendas do Brasil para a Argentina. Para Botafogo, esse dado não traria maior problema, já que o comércio do Brasil com o exterior segue também o câmbio flutuante.Leia o especial

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