Celso Junior/AE
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'Governo não dará tiro de canhão em formiga'

Para conter o câmbio, quem vai comprar dólar com recursos do FSB será o BC, diz Mantega

Adriana Fernandes, Fabio Graner / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Com a enxurrada de dólares entrando no País para a capitalização da Petrobrás, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou ontem que não é só "gogó" o uso do Fundo Soberano do Brasil (FSB) para a compra da moeda dos EUA. O poder de fogo do governo para evitar especulações no mercado de câmbio e uma valorização excessiva do real, disse ele, vai "duplicar" com o FSB.

Mantega informou que o Banco Central (BC) vai fazer as compras de dólares para o FSB numa ação coordenada com o Tesouro Nacional para evitar "conflitos" na hora da atuação. BC e FSB, afirmou, não vão deixar "sobrar" no mercado os dólares que virão para a Petrobrás. "Eu falo e faço. Mas faço com prudência. Não vamos dar tiro de canhão em formiga", disse, ao rebater as críticas que ganham força no mercado de que ele vem tentando segurar o câmbio no "gogó", sem cumprir a ameaça de uso do FSB.

A definição de que o BC será o agente comprador de dólares do Fundo Soberano, no entanto, representa uma vitória pelo menos parcial de Henrique Meirelles (presidente do BC) sobre Guido Mantega nas discussões sobre o problema cambial. Afinal, se é a autoridade monetária quem vai centralizar as intervenções, ainda que em parte feitas em nome do FSB, o caráter de imprevisibilidade que a Fazenda queria vai diminuir.

Além disso, como o BC é quem vai entrar comprando os dólares do FSB, nada impede que ele diminua as compras que hoje têm engordado as reservas internacionais, que estão sob sua administração, neutralizando a ideia inicial de Mantega. O maior ou menor impacto da medida vai depender de o BC aumentar a frequência de suas intervenções e fazê-las com maior dose de surpresa para o mercado. Esse modo de operar não tem sido o padrão, mesmo nos momentos de maior volatilidade, pois o BC prefere deixar o mais visível possível ao mercado como pauta suas atuações. Mas até ontem à noite o BC não detalhou como vai operar.

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou que ainda não está definido se o BC comunicará ao mercado se uma eventual operação de compra de dólares estará sendo feita com recursos do BC ou do FSB. Segundo Barbosa, o BC sempre comunica ao mercado quando realiza leilões. Mas, se haverá esse detalhamento, é uma questão que ainda será decidida.

Operador. Apesar dessas dúvidas deixadas em aberto pelo governo, Mantega procurou mostrar que caberá ao Tesouro decidir pela compra dos dólares. "A coordenação é da Secretaria do Tesouro, que determina a compra. O BC age como operador do FSB", disse, destacando que a regulamentação está pronta e o Fundo já pode comprar dólares.

A ideia inicial era usar o Banco do Brasil como operador, que já é o gestor do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização (FFIE), o fundo de investimento multimercado, onde estão depositados R$ 18 bilhões de recursos do FSB. Mas o BC nunca gostou da ideia de perder tanto poder na política cambial.

Mantega disse que a atuação do FSB no câmbio terá duas fontes de recursos. Uma, que chamou de orçamentária, vem dos recursos do próprio FFIE. A segunda, que chamou de financeira, lidará com as disponibilidades de caixa do Tesouro.

Mantega disse que não haverá mudança de regras para a entrada de dólares no País para a capitalização da Petrobrás. Ele avaliou que depois da operação o mercado de câmbio deverá voltar ao normal. Na sua avaliação, não é apenas a capitalização da Petrobrás que está influenciando o câmbio, mas também o apetite das empresas, que estão aproveitando as taxas de juros muito baixas para tomar dinheiro emprestado no exterior.

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