Dida Sampaio/Estadão - 3/7/2020
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Governo não vai fazer intervenção em preços de alimentos, diz Tereza Cristina

Segundo a ministra da Agricultura, não há nenhum risco de desabastecimento dos itens da cesta básica; nas últimas semanas, produtos como arroz, feijão, carne e óleo de soja têm apresentado forte alta

André Borges, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 15h41
Atualizado 08 de setembro de 2020 | 20h55

BRASÍLIA - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços dos principais alimentos da cesta básica brasileira, que têm apresentado forte inflação nas últimas semanas, como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja. Há registros de crescimento de mais de 100% nas gôndolas de supermercados.

Ao Estadão, Tereza Cristina afirmou nesta terça-feira, 8, que não há nenhum risco de desabastecimento desses produtos para o consumidor brasileiro, e que o governo monitora em tempo real a situação do mercado. “Estamos vivendo uma situação de transição, é uma questão pontual e que vai passar. O governo não vai fazer nenhuma intervenção em preços de mercado, o que estamos fazendo é monitoramento constante”, disse à reportagem.

Nesta quarta-feira, 9, representantes da Abras têm reunião com o governo, em Brasília, para discutir o assunto. A associação deve apresentar um panorama geral sobre a inflação dos alimentos e tratar de eventuais medidas que possam reduzir o preço dos produtos nas gôndolas. A expectativa é de que o encontro reúna representantes do Ministério da Economia, Agricultura e Palácio do Planalto.

Na semana passada, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), que representa 27 associações estaduais afiliadas, afirmou que “vê essa conjuntura com muita preocupação, por se tratar de produtos da cesta básica da população brasileira”.

“O setor supermercadista tem sofrido forte pressão de aumento nos preços de forma generalizada repassados pelas indústrias e fornecedores. Itens como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja com aumentos significativos”, declarou a associação, afirmando que isso se deve ao aumento das exportações desses produtos e sua matéria-prima e a diminuição das importações desses itens, motivadas pela mudança na taxa de câmbio, que provocou uma forte valorização do dólar frente ao real.

Somam-se a isso a política fiscal de incentivo às exportações e o crescimento da demanda interna impulsionada pelo auxílio emergencial. A alta, no entanto, ocorre no mesmo período em que houve redução à metade do valor do auxílio, de R$ 600 para R$ 300, cuja primeira parcela da prorrogação até o fim do ano começa a ser paga no dia 17 de setembro. O auxílio emergencial é considerado o grande responsável pelo aumento da popularidade do presidente. 

“Reconhecemos o importante papel que o setor agrícola e suas exportações têm desempenhado na economia brasileira. Mas alertamos para o desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado interno para evitar transtornos no abastecimento da população, principalmente em momento de pandemia do novo coronavírus”, afirmou a Abras.

A associação declarou que o setor supermercadista tem se esforçado para manter os “preços normalizados” e vem garantindo o abastecimento regular desde o início da pandemia nas 90 mil lojas de todo o País. “Apoiamos o sistema econômico baseado na livre iniciativa, e somos contra às práticas abusivas de preço, que impactam negativamente no controle de volume de compras, na inflação, e geram tensões negociais e de ordem pública”, disse a instituição.

Tereza Cristina disse que deverá haver uma nova acomodação de preços dos alimentos. A ministra comentou que o governo tem analisado a situação dos estoques de cada região que está atento às necessidades.

“Há um conjunto de fatores. Não se trata apenas de aumento de exportação. Houve aquecimento interno, por causa do auxílio emergencial. As pessoas passaram a comprar mais, porque houve uma mudança de hábito, mas haverá uma acomodação”, disse a ministra.

Na avaliação do Ministério da Agricultura, os preços tendem a cair nos próximos meses. “Assim como já aconteceu com o leite, que subiu e depois caiu, os preços tendem a se acomodar.”

A ministra lembrou que houve uma safra recorde neste ano e que, apesar do aumento das exportações, não há risco de faltar alimento neste ano e no próximo.

Bolsonaro apela a comerciantes a fim de conter preço do arroz

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na tarde desta terça-feira, 8, que fez um "apelo" a donos de supermercados para conter a alta do preço do arroz. O presidente acrescentou que não pretende tabelar preços.

“Tenho apelado para eles, ninguém vai usar a caneta Bic para tabelar nada, não existe tabelamento, mas pedindo para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero. Acredito que nova safra começa a ser colhida em dezembro, janeiro, de arroz em especial, a tendência é normalizar o preço”, disse o presidente.

Ao falar sobre o tema, Bolsonaro disse que o governo prepara outras medidas para encarar a inflação dos alimentos e "dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados”. O presidente não detalhou o que será feito.

Na última semana, em viagem ao interior de São Paulo, Bolsonaro já havia falado sobre um "apelo" aos comerciantes. Em um vídeo, o presidente disse que está pedindo apoio a intermediários e donos de grandes redes de supermercados para evitar a alta do valor dos alimentos básicos.

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), a pandemia fez os brasileiros comprarem mais alimentos, o que forçou preços para cima antes mesmo das altas provocadas pela entressafras. Além disso, a disparada do dólar em relação ao real encareceu os insumos da agropecuária.

 

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