Governo pode adotar medida de emergência por falta de chuva

Chuvas ficam 53% abaixo da média histórica; ONS determina operação de térmicas, mas falta de gás atrapalha

Alaor Barbosa, da Agência Estado,

07 de janeiro de 2008 | 13h34

As chuvas na primeira semana de janeiro ficaram 53% abaixo da média histórica dos últimos 76 anos na região Sudeste/Centro-Oeste e em torno de 50% na região Nordeste, segundo divulgou nesta segunda-feira, 7 o Operador Nacional do Sistema (ONS) elétrico. Com isso, os reservatórios da região Sudeste continuam perdendo água e estavam em 44,9% da capacidade máxima de armazenamento no domingo, o que representa uma folga de apenas 5,6 pontos percentuais em relação à curva de aversão ao risco (CAR), mecanismo criado pelo governo após o racionamento de 2001/2002 para dar mais segurança à oferta de energia.   Se os reservatórios continuarem caindo, teoricamente, o governo poderá adotar medidas de emergência para economizar água e energia nas hidrelétricas visando evitar um quadro que leve ao racionamento de energia. Fontes do setor admitem, porém, que mesmo que não haja sinais de um novo racionamento nos próximos dois anos, o governo está sem alternativas para ampliar a oferta no curto prazo.   "Os preços no atacado, por si só, mostram que as opções são pequenas", explicou um especialista. Até porque o ONS está "despachando" (determinando a operação) de todas as térmicas que estão em condições de gerar energia. Embora o País disponha de uma capacidade de geração de até 12.000 MW médios de usinas térmicas movidas a gás natural, o ONS não pode lançar mão desses recursos devido à falta do combustível.   O compromisso da Petrobras é gerar cerca de 3.900 MW médios no primeiro semestre, subindo para 4.700 MW no segundo semestre. Para isso, porém, a empresa terá de contratar gás natural liquefeito (GNL), já que a produção interna e a importação da Bolívia estão abaixo das necessidades do mercado.   No domingo, o ONS despachou o equivalente a 4.557 MW médios de usinas térmicas (gás natural, carvão, óleo diesel e óleo combustível), o que representa menos de 10% do atual consumo nacional, que oscila em torno de 52.000 MW médios. "As térmicas, no Brasil, apenas complementam o suprimento de energia. As hidrelétricas respondem por 90% do consumo nacional e se faltar água não vai dar para improvisar só do lado da oferta", complementou o técnico do setor.   Além de hidrelétricas e térmicas convencionais, o Pais conta com cerca de 2.000 MW de energia nuclear e uma produção incipiente de usinas eólicas (produção de apenas 33 MW).     Reservatórios   Tradicionalmente, ocorre recuperação nos reservatórios em janeiro, com o aumento das chuvas. Este ano, porém, os reservatórios do Sudeste estão perdendo água/energia devido à falta de chuvas. No final de dezembro as hidrelétricas da região tinham o equivalente a 87.428 MW médios armazenados e no domingo esse montante caiu para 85.236 MW, com redução de 2.192 MW médios em seis dias. No Nordeste, os reservatórios estão em 27% da capacidade máxima de armazenamento, com folga de 17 pontos na curva de aversão. O volume armazenado no Nordeste, porém, soma menos de 14.000 MW.   O ONS aumentou para quase 3.000 MW médios a transferência de energia elétrica do Sudeste para as regiões Norte e Nordeste esta semana, o que está acelerando o esvaziamento dos reservatórios do Sudeste. Tradicionalmente há chuvas intensas na região Norte no início do ano, o que permite que o operador transfira energia daquela região para o Nordeste, mas isso não está ocorrendo este ano.   As chuvas na região Norte estão 64% abaixo da média histórica de longo prazo, o que se caracteriza como um dos períodos mais secos, na região, nas últimas décadas. "Sem chuvas no Norte, o suprimento do Nordeste também é comprometido", complementou um técnico do setor.   Os especialistas afirmam, porém, que, a curto prazo, não há sinais de que o Brasil vá caminhar para algum tipo de racionamento de energia elétrica ao longo dos próximos dois anos, já que o "período molhado" (de chuvas) no Sudeste perdura até abril. "Ainda temos três meses para aguardar chuvas", observa um especialista. "Se as chuvas forem intensas em apenas em um mês e nos locais certos, a situação se estabiliza", complementou.   Preços   Com a falta de chuvas, os reservatórios das hidrelétricas estão perdendo água/energia, o que pressiona os preços no atacado. Os preços de referência de energia elétrica no mercado atacadista subiram para R$ 473,30 por MWh para os negócios a serem realizados esta semana, conforme dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Esse patamar representa aumento de 91,61% em relação ao vigente na semana passada e são os mais elevados desde o final do racionamento de energia, em junho de 2002.   Atualmente, cerca de metade de toda a energia consumida pelo setor industrial no Brasil é no mercado livre, que sofre impacto dos preços no atacado.   O panorama atual é radicalmente diferente em relação ao observado nos últimos cinco anos, em que houve excesso de chuvas e os reservatórios das hidrelétricas estavam cheios, o que se refletia nos preços no atacado. Na primeira semana do ano passado, por exemplo, os preços da CCEE estavam em R$ 28,16 por MWh na região Sudeste e em R$ 17,59 no Nordeste. Em 2006, a situação era ainda mais tranqüila, com os preços estabelecidos em R$ 16,92 por MWh, que é o piso do "preço da água", fixado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

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