Governo quer baixar 'cocuruto' da inflação

Prioridade do BC é reduzir a expectativa de inflação para o ano que vem e limitar a alta dos preços em 2015

RICARDO GRINBAUM, JOÃO CAMINOTO, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2015 | 02h03

O Banco Central resolveu dar um recado claro ao mercado, após anos de desencontros: sua prioridade agora é abater a expectativa de inflação para o fim de 2016, dos atuais 5,6% previstos por analistas de mercado no Boletim Focus, do próprio BC, para o centro da meta estabelecida pelo governo, de 4,5% ao ano. A curto prazo, o BC conformou-se com o estouro do teto da meta da inflação em 2015.

A inflação atingiu um patamar alto, um "cocuruto", como descreve um integrante da equipe econômica, e seguirá elevada até o fim de 2015, quando se leva em conta o resultado acumulado em 12 meses.

Para a equipe econômica, a alta é resultado da correção dos preços administrados (definidas pelo governo), e da influência da alta do dólar nos últimos seis meses.

"Vimos o 'cocuruto' da inflação. O governo precisa evitar que a inflação se propague agora e precisamos reancorá-la num preço mais baixo lá na frente", disse o integrante da equipe econômica.

Os analistas financeiros viram a mesma mensagem na Ata do Copom (Comitê de Política Monetária), documento que explica por que o BC elevou a taxa de juros em 0,5 ponto porcentual na semana passada, para 13,25%. Para eles, o BC voltará a elevar os juros na próxima reunião do Copom, em junho, para evitar que o "cocuruto" inflacionário cresça e para reverter as expectativas para 2016.

A possibilidade de a recessão se agravar e levar o BC a interromper o ciclo de alta de juros e começar a cortar a taxa ainda este ano, como preveem alguns analistas, é questionada no governo. O BC quer mudar primeiro a expectativa da inflação de 2016 e só depois cortar os juros.

Além de querer devolver a inflação ao centro da meta depois de seis anos com valores mais altos, o governo também quer se preparar para as turbulências provocadas pela alta da taxa de juros dos Estados Unidos, prevista para este ano.

"Temos de estar preparados. A primeira linha de defesa é o câmbio flutuante, estamos realizando o ajuste fiscal e vamos consolidar as expectativas de inflação para o centro da meta", disse a fonte da área econômica.

No câmbio, os planos são de manter a intervenção no mercado, por meio da rolagem das operações de swap cambial, pelo tempo que for necessário. "Não temos pressa de reverter essa posição", explicou a mesma fonte.

O governo quer administrar a alta do dólar para conter o repasse para os preços, mas não vê risco de crise com a quebra de empresas que têm dívidas corrigidas pela moeda americana.

O governo fez um estudo sobre o tamanho do problema. As empresas devem o equivalente a 50% do Produto Interno Bruto (PIB). Desse total, 40% são corrigidas pelo dólar. Mas, na maior parte dos casos, as empresas têm algum tipo de proteção para a alta do dólar. Apenas 6% das dívidas (o equivalente a 3% do PIB) estão desprotegidas. "Foi feito um teste com o dólar a R$ 3,40, não há risco sistêmico", disse a fonte.

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