Governo quer esvaziar CDI como referência

Ordem é substituir o indicador, usado para reajustar aplicações financeiras, por temor de manipulação, como ocorreu com a Libor, no Reino Unido

LEANDRO MODÉ / SÃO PAULO , ADRIANA FERNANDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2012 | 03h07

O escândalo de manipulação da Libor, a taxa de juros do mercado interbancário de Londres que baliza operações financeiras mundo afora, deu ao governo Dilma Rousseff mais um argumento para desidratar o Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Para fontes da equipe econômica, o CDI, como a Libor, pode ser manipulado. Por isso, a ordem é acelerar o processo de substituição do indicador, principal referência para o sistema financeiro nacional.

Para se ter uma ideia do que está em jogo, a remuneração dos quase R$ 700 bilhões aplicados em CDBs no Brasil é calculada com base em um porcentual do CDI. Na BM&FBovespa, os contratos futuros de juros, que movimentam trilhões de reais mensalmente, também têm como referência o CDI. Em qualquer ranking de investimentos, o CDI é o termômetro que baliza o desempenho de uma aplicação.

Além de mudar as regras da previdência privada aberta - medida anunciada há cerca de um mês -, o governo vai desestimular o uso do CDI nos fundos de investimentos com um mix de mudanças tributárias regulatórias. Assim como a Libor, o CDI é uma taxa calculada com base nos juros de empréstimos entre bancos. O problema, na avaliação do governo e de especialistas, é que o número de operações e o volume negociado são baixos.

Em setembro, por exemplo, os dias mais agitados para o mercado de CDI registraram 19 operações. Em volume, foram no máximo R$ 2 bilhões por dia. Quem conhece mercado financeiro sabe que são dados irrisórios. "Como uma taxa que é formada por menos de 20 negócios pode servir de referência para mais de R$ 1 trilhão em aplicações?", indaga uma fonte da equipe econômica.

Dez anos atrás, o cenário era bem diferente. Em janeiro de 2002, havia, em média, entre 150 e 160 negócios por dia. Segundo fontes do setor, o enxugamento ao longo dos anos é explicado, entre outras razões, pela expansão do crédito na economia.

Risco. Um ex-presidente do Banco Central (BC) explica o temor das autoridades. "As instituições que fazem as operações interbancárias que resultam na taxa do CDI são as mesmas que emitem os CDBs, que, como sabemos, são referenciados no próprio CDI." Ou seja: os bancos têm grande poder de definir a remuneração dos CDBs e outros produtos lastreados no CDI.

A mesma fonte completa o raciocínio: em tese, o CDI tem de seguir de perto a taxa básica de juros (Selic). "Mas existe o risco de os bancos negociarem os empréstimos entre si com juros relativamente inferiores à taxa básica para que, no fim do dia, o CDI seja menor", disse. "Com CDI mais baixo, a remuneração paga pelos CDBs e outros produtos financeiros cai também."

O ex-dirigente do BC lembra que, do lado do ativo, as instituições financeiras têm praticamente todo o patrimônio atrelado à Selic. Em síntese, portanto, está se falando do ganho potencial dos bancos com a diferença entre o que recebem aplicando em Selic e o que pagam aos investidores remunerando pelo CDI.

No Brasil, lembra o ex-presidente do BC, não há informações de que o CDI tenha sido manipulado. "Mas, dado o pequeno número e volume de negócios, fica no ar um certo desconforto." Ainda assim, ele avalia que a principal razão de o governo pressionar pela troca do CDI por outro indexador é puramente econômica. "Numa economia estável como a brasileira, com juros em queda, não faz sentido ter como referência de mercado uma taxa diária (overnight)."

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