Governo reduz investimento e Embrapa sofre a maior crise da história

Considerada uma das áreas de excelência do governo na ramo da pesquisa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), enfrenta uma das piores crises da sua história pela falta de dinheiro. Com um orçamento de custeio previsto para este ano em R$ 159 milhões, esse montante foi reduzido para apenas R$ 94 milhões em agosto passado, o que levou os credores à porta da empresa e ao cartório de protestos de títulos.Diante da crise, a Embrapa conseguiu uma adicional de R$ 20 milhões e agora administra a escassez de verbas até o final do ano. "Priorizamos projetos de pesquisas, postergamos tudo que pudemos, mas evitamos prejuízos aos projetos em andamento", diz o presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal.A empresa está preocupada com a imagem diante dos fornecedores e com o moral dos pesquisadores. "A Embrapa teve cobradores em cima, títulos indo para cartório, por atraso de dívidas com fornecedores de reagentes, de combustível, agências de viagem. Isso prejudica a imagem da empresa", afirma. "Se você conseguia preços relativamente bons porque a empresa vinha tendo um comportamento no mercado de bom cliente, de repente tudo volta à estaca zero. Depois disso, quando o fornecedor for vender algo, já coloca o custo governo, porque não sabe quando irá receber".Portugal acredita que a empresa já está conseguindo funcionar razoavelmente e ressalta que os principais estudos estão em andamento. São cerca de 2.500 projetos. "Alguns experimentos menores foram paralisados, porque nós priorizamos outros mais relevantes. Mas não há uma perda significativa", ressalta.Para ele, o prejuízo maior é o que ele chama de sentimento de desamparo do pesquisador. "Ele se sente meio ameaçado, e se pergunta se isso é uma coisa conjuntural ou algo que veio para ficar". Surge uma lição dessa crise, na opinião de Portugal: a necessidade de discutir um novo modelo para a ciência e a tecnologia no País, preservando o setor da "lógica burocrática perversa da Esplanada dos Ministérios", que impõe corte de gastos lineares, sem observar a natureza da atividade."O desestímulo decorre do corte no fluxo de recursos, que até então havia sido excelente nos sete anos anteriores do governo FHC. Esta fragilidade preocupa. A Embrapa é uma empresa considerada "top", reconhecida no mundo como uma instituição líder. De repente, se aplica um corte linear e ponto", critica.Na opinião do presidente da Embrapa, há um conflito entre a lógica da empresa e a burocracia de um ministério. "Na Embrapa, você tem animais em experimento. Pesquisas no campo que seguem uma lógica biológica. Você tem o Cenargem, com material estocado em câmara fria, laboratórios funcionando. Não dá para simplesmente parar uma máquina dessas sem um prejuízo gravíssimo".

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