Governo se preocupou em evitar prejuízos eleitorais para Dilma

Bastidores

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

O Planalto trabalhou ontem, o tempo todo, com uma preocupação: evitar os estragos político-eleitorais que o adiamento do leilão de Belo Monte, uma obra do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), fariam na candidatura de Dilma Rousseff (PT). Nas conversas dos assessores que, nas últimas semanas, trataram do assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prevaleceu sempre a visão de que era preferível um leilão "com algumas dúvidas sobre a formação dos consórcios e o desempenho das empresas" a um leilão adiado.

No leilão, ontem, a Advocacia Geral da União (AGU) assumiu outra tarefa estratégica, de cunho jurídico, mas também de "segurança eleitoral". Ao decidir que o vencedor do leilão só seria anunciado depois de cassada a terceira liminar, o governo praticamente enterrou as chances de os próximos recursos jurídicos prosperarem. Essa foi a orientação do chefe da AGU, o ministro Luís Inácio Adams, que só desgrudou de Lula, numa solenidade do Itamaraty, ontem, depois de assegurar, ao pé do ouvido do presidente, às 12h12 que o leilão estava garantido.

No meio da tarde, na sede provisória do governo, o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), enquanto comemorava a realização do leilão, o presidente Lula enumerava as razões que seus ministros, assessores e líderes políticos devem usar para defender a usina das críticas dos movimentos ambientalistas. Irritado com a acusação de que o governo forçou o leilão por interesses eleitorais, o presidente reclamou em especial da atuação do bispo de Altamira.

"O governo rompeu com todo tipo de demagogia ao defender Belo Monte", disse ao Estado um auxiliar de Lula. "É uma enorme bobagem associar o projeto ao momento político", acrescentou, mostrando que o temor não era o confronto com ambientalistas, mas a manutenção de uma obra do PAC na gaveta. Esse auxiliar disse que o presidente poderia deixar para o próximo governo o leilão da usina, mas que isso seria visto mais à frente como uma omissão. "Do ponto de vista eleitoral, era melhor não entrar nessa questão, adiar o leilão e ficar bem com setores que têm bom trânsito com o governo".

O presidente também não digeriu um dos argumentos do Ministério Público, de que foi apenas "de fachada" o diálogo com as comunidades tradicionais. Lula lembrou que recebeu em audiência duas vezes o bispo de Altamira, dom Erwin Krautler, e representantes de ribeirinhos.

O Planalto orientou seus assessores e ministros a rebaterem as críticas e argumentarem que a construção da hidrelétrica evitará a instalação de uma "série de termelétricas", que não produziriam energia limpa. "O governo não tem medo de ser acusado de antiambiental, pois tem certeza de que a construção de Belo Monte, feita com todos os cuidados, evitará um prejuízo bem maior ao meio ambiente e ao País", afirmou um ministro com assento na assessoria presidencial. "Pior seria se omitir e aceitar essas críticas desqualificadas."

Outro ministro fez até um paralelo com as obras do Rio São Francisco. "A disputa política vai continuar porque há setores fundamentalistas na sociedade, gente que insiste em criticar o projeto por questões ideológicas, como aconteceu na transposição do Rio São Francisco. Hoje o projeto está em plena execução e a polêmica faz parte do passado, é uma página virada."

A área do governo que administra o meio ambiente vai bater na tecla de que "o lago (de Belo Monte) será 40% menor do que o projeto original", como já vem dizendo o presidente. Ontem, um ministro complementou: "É um projeto amigável ecologicamente".

Chesf . O governo já avisou a diretores da Chesf que vai rediscutir o projeto de fortalecimento da holding da Eletrobrás, vista como uma redução da força e da autonomia de suas subsidiárias. A possível perda de autonomia da Chesf uniu, nas últimas semanas, na região Nordeste, sindicatos, governos estaduais e partidos governistas e oposicionistas.

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