Carlos Silva/Mapa
Carlos Silva/Mapa

Governo teme que barreira americana à carne seja adotada por outros países

Ministro da Agricultura tenta se encontrar na próxima semana com autoridades dos EUA para conseguir a reversão da medida anunciada na quinta-feira

Fabrício de Castro, Broadcast

23 Junho 2017 | 22h34

BRASÍLIA - Sob ameaça de perder mercados importantes para a carne brasileira, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, vai tentar se encontrar, já na próxima semana, com autoridades norte-americanas. O receio é de que a proibição à compra de carne bovina in natura (fresca) do Brasil, anunciada na quinta-feira pelo Departamento de Agricultura americano, o USDA, provoque um efeito em cadeia e acabe fechando portas para o produto brasileiro em outros países.

A decisão americana foi motivada pela identificação de abscessos na carne – espécie de cisto que, de acordo com o Ministério da Agricultura, é resultado de reações a componentes da vacina contra a febre aftosa. O secretário de Agricultura americano, Sonny Perdue, determinou diretamente a suspensão da compra da carne, até que o Brasil adote medidas consideradas satisfatórias. 

O embargo temporário dos EUA foi mais um entrave num mercado que ficou extremamente fragilizado pelas consequências da Operação Carne Fraca, deflagrada em março pela Polícia Federal. A preocupação aumenta pelo fato de os EUA servirem de referência internacional. “Comemoramos muito, quando saiu, a equivalência sanitária com os EUA, que é referência. Com a decisão (do embargo), outros mercados ficam em alerta”, disse secretário executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki. 

Os exportadores brasileiros conseguiram permissão para vender aos EUA em junho de 2015. O primeiro embarque, no entanto, ocorreu apenas em setembro do ano passado. O volume de exportação ainda não é relevante – representa apenas 5% da carne in natura que o Brasil vende para o exterior. Mas o mercado americano, por ser um dos mais exigentes, serve de referência para que outros países, como o Japão e a Coreia, por exemplo, decidam comprar a carne brasileira.

Para o governo, o interesse dos produtores americanos em barrar a carne brasileira também contribuiu para o bloqueio. “Depois da Carne Fraca, vários países decidiram fiscalizar 100% da carne brasileira”, disse ontem Maggi, ao comentar a suspensão, citando países como EUA, Hong Kong e China. Na semana passada, os EUA identificaram 11% de “inconformidades” na carne in natura brasileira. Em reação, o Ministério da Agricultura determinou a interdição de cinco das 15 plantas autorizadas a exportar carne in natura aos EUA – neste caso, os cinco maiores frigoríficos.

+ VETO DOS EUA À CARNE NÃO ATINGE AVES E SUÍNOS

Novacki, concordou que o porcentual de inconformidade é expressivo. Uma das alternativas para resolver o problema, disse, seria o embarque de carne em cortes para os EUA. Com isso, são retirados os abscessos. “Alguns países recebem o corte inteiro, como os EUA, mas eles nunca reclamaram” disse.

QUATRO PERGUNTAS PARA:

Enrico Ortolani, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da USP

1. Que reação a vacina contra febre aftosa pode provocar no animal?

Podem ocorrer duas reações. Se for um problema de higiene na vacinação, em que não se passou desinfetante, por exemplo, o resultado pode ser um abscesso: a área fica quente e com pus. Mas, em grande parte dos casos, o que ocorre é uma reação alérgica retardada, com a formação de um nódulo endurecido dias depois. Alguns animais são mais alérgicos que outros e têm uma resposta residual à vacinação.

2. No caso que gerou a suspensão das exportações para os EUA, estamos falando de abscesso ou de nódulo?

Está todo mundo falando que é abscesso, mas não é nada disso. É uma reação alérgica, apenas, que resulta na formação de nódulos. E não há qualquer risco sanitário, definitivamente.

3. Corremos o risco de estar ingerindo carnes com esses nódulos?

Não. Os nódulos são visíveis. É gritante. Quando essa carne chega no frigorífico, o funcionário vê e tira o nódulo com um pouco de carne junto. O restante do animal está normal, não tem nada demais.

4. Então, como chegou carne com nódulo nos Estados Unidos?

Olha, é difícil de entender o que está acontecendo. Pode ter havido um problema de abscesso interno, que o inspetor não conseguiu ver, mas isso não explica os 11% dos produtos rejeitados na reinspeção feita pelos EUA.

Mais conteúdo sobre:
CarneAgriculturaBlairo Maggi

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.