Governo tenta substituir cultivo de tabaco na região

Força do mercado, responsável por 95% da produção do País, dificulta implantação de projetos de diversificação

Jaqueline Silva, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

Desde que o Brasil ratificou a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), em 2005, o Ministério do Desenvolvimento Agrário desenvolveu o Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco, um esforço para convencer os produtores a deixar o cultivo. Porém, em cinco anos, foram poucas conquistas e ainda há muito trabalho, principalmente pelo fato de os produtores alegarem que é difícil encontrar outra cultura que garanta rentabilidade semelhante.

A Região Sul responde por cerca de 95% da produção de tabaco do País, e desse total o Rio Grande do Sul lidera, com 54%, seguido por Santa Catarina (29%) e Paraná (17%). As características climáticas - sem o excesso de calor de outras regiões - impulsionam a cultura, que encontrou naquelas terras condições propícias. Nos três Estados, cerca de 730 municípios cultivam o tabaco. Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, concentram as indústrias de cigarros, cigarrilhas e charutos.

Em Santa Catarina, as indústrias estão em Araranguá, Blumenau e Joinville, e no Paraná na cidade de Rio Negro. Só na zona rural, mais de 186 mil produtores participam da cadeia. A indústria emprega mais de 30 mil pessoas. O ciclo de produção e industrialização é feito com intensa parceria entre as duas pontas. As empresas dão todo suporte para plantio, desde sementes e fertilizantes até cursos de capacitação do manejo na lavoura.

A força desse mercado, que gerou R$ 4,4 bilhões em receitas ao agricultor só no último ano, dificulta a intenção do governo em substituir a cultura do fumo no País. Segundo a responsável pelo programa de diversificação do ministério, Adriana Gregolin, já foram investidos R$ 15 milhões no programa, que conta com 60 projetos em andamento. "Hoje atingimos apenas 25 mil famílias. Nossa meta é chegar a 100 mil famílias e, para isso, precisaríamos investir R$ 30 milhões."

Culturas como pêssego, leite e a vitivinicultura, a última já tradição na região, são as mais incentivadas. O projeto inclui reuniões, seminários, além de visitas técnicas e dias de campo para mostrar aos produtores que é possível trabalhar com outras atividades. "A monocultura dá sinais de que não é sustentável e diversificar será uma necessidade no futuro", afirma Adriana.

De acordo com pesquisa recente do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais do Paraná (Deser - PR), 73% dos produtores entrevistados disseram ter o desejo de mudar de atividade. "Há um fator cultural muito forte. A maioria é de pequenos produtores que seguem a atividade dos pais, avôs e dizem que é tudo que sabem fazer", diz Adriana.

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