Governo vai combater alta do real, diz Mantega

Em Paris, ministro da Fazenda reforça críticas a medidas do governo dos EUA

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h04

O governo brasileiro vai continuar intervindo nos mercados de câmbio para conter a eventual alta do real frente ao dólar, motivada pelo novo programa de estímulo à economia anunciado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.

A advertência foi feita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante encontro bilateral com Pierre Moscovici, ministro da Economia da França, ontem, em Paris. A decisão de limitar a flutuação, justificou o brasileiro, visa a reduzir o impacto da desvalorização da moeda americana nos mercados emergentes.

O encontro foi o primeiro da agenda oficial de Mantega em Paris e ocorreu no fim da manhã na sede do Ministério da Economia. Na saída do encontro, que teve duração de pouco menos de uma hora, os dois ministros concederam rápida entrevista.

Moscovici enumerou os temas discutidos, mencionando a crise europeia, a atuação conjunta nos fóruns internacionais, como o G20, a reforma das instituições multilaterais - como o Fundo Monetário Internacional (FMI) - e as relações bilaterais.

Questionado pelo Estado, Moscovici reconheceu ter discutido o "tsunami" de liquidez. O ministro foi moderado em sua análise e não empregou o termo "guerra cambial" - apenas citou o termo utilizado pelo brasileiro. "Nós pensamos que é um tema real que precisa ser tratado nas instâncias multilaterais, como o G-20", respondeu, sem citar os Estados Unidos.

Mantega, por sua vez, não economizou nas críticas. O ministro vem reclamando nos últimos dias da decisão do Fed de injetar US$ 40 bilhões no mercado sob o pretexto de comprar títulos hipotecários para reduzir as taxas de juros. De acordo com Mantega, a "terceira rodada" de medidas de "flexibilização monetária" (quantitative easing) "não resolve muito os problemas dos EUA e provoca muitos problemas nos países emergentes".

Eleição nos EUA. Para o ministro, "os Estados Unidos precisam resolver o problema de seu mercado imobiliário e fazer mais estímulo fiscal, e não tanto monetário". Mantega ponderou ainda que a desvalorização do dólar prejudica o mercado interno do Brasil pela chegada de bens importados, "em parte porque as moedas são manipuladas por outros países".

Mantega fez uma advertência. "Nós continuaremos a tomar medidas para manter o real desvalorizado", disse, sem fixar um piso para o dólar. O ministro insinuou ainda que as medidas adotadas pelo Fed têm relações com a campanha eleitoral que opõe o atual presidente, o democrata Barack Obama, ao republicano Mitt Romney na corrida à Casa Branca. "Eu sei que eles estão com problemas políticos neste momento. Talvez após as eleições eles mudem a estratégia", afirmou.

Moscovici foi mais moderado também nesse ponto, mas afirmou que a "flexibilização" proposta pelo Fed "talvez vá se apresentar de uma maneira diferente após as eleições americanas".

Mantega faz em Paris a primeira escala de sua passagem pela Europa, que incluirá Londres em seu roteiro. Na capital francesa, o ministro participa hoje de uma palestra com empresários locais na Embaixada do Brasil.

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