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'Governo vai ter de intensificar ajuste no próximo ano'

Para Camargo, relação entre dívida/PIB é preocupante, o que obriga o governo a intensificar ajuste fiscal

Entrevista com

José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recursos

LUIZ GUILHERME GERBELI, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2015 | 02h03

O professor da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo, acredita que o grande desafio da equipe econômica é evitar um aumento da relação da dívida/Produto Interno Bruto (PIB). Na avaliação dele, o superávit primário prometido de 1,2% do PIB não é suficiente para controlar isso. Mudar essa tendência, diz Camargo, é fundamental para que a economia brasileira não perca o grau de investimento.

Como o sr. analisa a decisão da Standard & Poor's (S&P)?

No ano passado, a S&P rebaixou o rating do Brasil. Não era de se esperar que fosse rebaixar novamente em tão pouco tempo. A agência também não precisava dizer que iria manter (a nota de classificação). Ela anunciou porque esteve no Brasil, conversou com os ministros e se sentiu um pouco na obrigação de anunciar. O que eu acho positivo, obviamente, é o fato de a agência ter dito que houve uma mudança da política econômica, o que ela não esperava. Isso acho que é realmente uma coisa positiva do ponto de vista do governo. Agora, além disso, um ponto de vista importante é se o governo vai realmente conseguir fazer o ajuste fiscal e evitar um aumento da relação dívida/PIB, que é o mais difícil, na verdade.

Como o sr. vê a condição de o governo fazer o ajuste?

Eu não sou pessimista com o ajuste em si. Não vejo a ideia de fazer um superávit primário de 1,2% do PIB como impossível. Eu acho difícil, mas não impossível. No Brasil, os ajustes fiscais, principalmente no primeiro ano, são feitos via 'segurar a boca do caixa', além dos aumentos de impostos que estão aí ocorrendo. Em geral, essa é a fórmula utilizada. O problema é que esse ajuste de 1,2% não é suficiente (para inverter a relação dívida/PIB). Ele é um ajuste que mostra uma mudança de trajetória, mas claramente não é suficiente.

Por quê?

Com a taxa de juros real em 6% ano, o PIB recuando 1,5% - como vai cair este ano - e um ajuste fiscal de 1,2% do PIB, a relação dívida/PIB vai subir entre seis e sete pontos de porcentagem. Se hoje ela está em 63%, vai chegar perto de 70% no fim do ano. Ou seja, o governo vai ter de intensificar o ajuste no próximo ano para evitar uma perda de grau de investimento. Esse é problema. Eu não acho que é difícil fazer o ajuste. O difícil é mudar a tendência da trajetória da relação dívida/PIB.

O superávit primário de 2% do PIB prometido para 2016 mudaria essa trajetória?

Depende da taxa de crescimento do PIB e da taxa de juros necessária para alcançar a inflação de 4,5%, que é a meta (do governo). Se a economia continuar com uma taxa de juros real de 6%, 7% - como nós temos hoje - e o PIB não crescer, um superávit primário de 2% do PIB vai gerar um aumento da relação dívida/PIB da ordem de três pontos de porcentagem.

Então, ficaria difícil manter o grau de investimento.

Exatamente. A trajetória da relação dívida/PIB é muito ruim, provavelmente o ajuste necessário é bem maior do que esse 1,2%, 2% do PIB.

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