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Governo vê decisão da Fitch como 'ajuste tardio'

Ministro Joaquim Levy soube na quarta-feira que agência iria revisar perspectiva de rating do Brasil; para o Planalto, anúncio veio fora do 'timing'

Adriana Fernandes, Lorenna Rodrigues, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2015 | 21h42


BRASÍLIA - A decisão da agência de classificação de risco Fitch de revisar de estável para negativa a perspectiva da nota de crédito do Brasil foi vista pelo governo como um “ajuste” tardio de alinhamento do seu rating em relação às outras agências, que já haviam feito movimentos anteriores de piora de avaliação do País. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tomou conhecimento na quarta-feria, 8, da decisão da Fitch - um dia antes do comunicado oficial. 

O governo, no entanto, estranhou o “timing” da decisão. Apesar de esperar que a mudança na perspectiva poderia ocorrer, a avaliação na equipe econômica é de que o momento não foi o correto, porque as medidas de ajuste fiscal já foram adotadas e estão em curso. No jogo de disputa entre as agências, a Fitch teria feito a revisão para não ficar muito atrás das concorrentes.

Segundo fontes do governo, pesou na decisão os números ruins do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados pelo IBGE e também o déficit elevado de R$ 7,4 bilhões das contas do governo em fevereiro, resultados que apontaram na direção de grande dificuldade de reversão do cenário econômico desfavorável, em meio à crise política enfrentada pela presidente Dilma Rousseff. Na comparação com os outros países com a mesma nota que a brasileira, o Brasil saiu perdendo, mostrando uma piora bastante acentuada. Esse tipo de métrica é usado pelas agências.

Aviso. A Fitch já tinha sido avisada pelo governo de que os dados de fevereiro seriam ruins. Na avaliação de uma fonte do governo, uma redução na perspectiva se justificaria no ano passado, quando os gastos eram elevados e o superávit primário baixo, mas não agora. “O timing não é correto porque as medidas já foram adotadas”, disse a fonte. A avaliação, porém, é que a mudança não deve trazer volatilidade adicional ao mercado, já que estava no radar dos investidores e a nota da agência (BBB) se mantém dois degraus acima do grau especulativo. 

Além disso, há uma expectativa de que a nota não seja reduzida e a perspectiva volte a estável em um prazo de 12 a 18 meses. Será preciso, nesse período, mostrar que o ajuste fiscal deu resultado e criar condições para que a atividade econômica possa apresentar melhoras. Se isso acontecer, o governo tem a confiança de que a perspectiva volte para o viés estável. 

Das três grandes agências de classificação de risco, a Fitch era a que mantinha a melhor nota do Brasil com perspectiva estável. Enquanto a Standard & Poor’s rebaixou há um ano a nota do País, a Moody’s revisou o viés do seu rating de estável para negativo em setembro do ano passado, às vésperas das eleições. Ao longo de 2014, a Fitch não fez nenhum movimento, anunciando a manutenção do rating do Brasil em julho, poucos meses antes das eleições, quando os sinais de aceleração da crise fiscal do País já estavam mais evidentes.

Com a decisão, a Fitch se coloca agora numa posição semelhante à da Moody’s, com rating de grau de investimento, dois níveis acima do nível especulativo, mas com viés negativo. Já a S&P está um nível abaixo - ainda grau de investimento -, mas com perspectiva estável. Depois de enviar uma equipe ao País, a S&P preferiu este ano manter a nota do Brasil, dando um voto de confiança ao ajuste do ministro Levy.

Pesaram também na decisão da Fitch as incertezas em relação à Petrobrás e ao suporte político no Congresso Nacional ao pacote de ajuste fiscal - problemas que Levy considera já bem encaminhados. Apesar das dificuldades, a expectativa do governo é de que o balanço da Petrobrás auditado - um dos focos de maior incerteza - seja divulgado ainda em abril. E há também uma avaliação interna de que o cenário de pressão política começou a ficar menos turbulento com as mudanças na articulação política da presidente Dilma Rousseff. 

A área econômica considera também que a revisão pela Fitch da perspectiva da nota do Brasil já estava refletida nos preços dos ativos brasileiros. “Não altera o preço”, disse uma fonte do governo. Pelo contrário, diz a fonte, a avaliação externa do Brasil melhorou com o aumento da demanda dos investidores estrangeiros pelos papéis da dívida interna.

O governo ainda terá de enfrentar a avaliação anual da nota do Brasil pela Moody’s . Os representantes da agência ainda não marcaram a vinda ao Brasil.

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