Furkan Temir para The New York Times
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coluna

Carolina Bartunek: ESG, o que eu tenho a ver com isso?

Governos estão mais uma vez se esforçando para manter a sobrevivência de grandes empresas

Autoridades ponderam quais empresas devem ser salvas e como

The Economist

03 de abril de 2020 | 16h06

Os gerentes são incentivados a economizarem o suficiente para um dia chuvoso. A tempestade da covid-19 sugere que mesmo as empresas mais prudentes estão esgotando rapidamente suas reservas. Muitas precisarão de um guarda-chuva maior que apenas o Estado poderá oferecer. 

A dimensão das medidas econômicas contra o vírus determinadas até agora é de tirar o fôlego. Em 27 de março, o presidente Donald Trump assinou um pacote de estímulo econômico recorde de US$ 2 trilhões, que inclui garantias de empréstimos que poderiam financiar mais que o dobro em empréstimos corporativos. Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha têm suas próprias "bazucas", no valor de centenas de bilhões. Quem exatamente precisará de ajuda, quanto será e de que forma virá esse socorro ainda não está totalmente claro. Mas os contornos do maior resgate corporativo da história estão tomando forma. 

Algumas indústrias estão buscando pacotes sob medida. Primeiro, as companhias aéreas. Aquelas com balanços mais fortes, como a Qantas da Austrália e a IAG, proprietária da British Airways, ficariam felizes se as rivais mais fracas desaparecessem. Mas a Associação Internacional de Transporte Aéreo, o órgão de comércio global, alerta que a pandemia reduzirá as receitas da indústria em 2020 em US$ 252 bilhões, ou 44%, em relação às do ano passado. As empresas do setor cancelaram voos de 2 milhões. Aproximadamente 35-45% dos custos das companhias aéreas são fixos e, portanto, não podem ser cortados rapidamente, avaliam analistas do Citigroup. A Delta, uma transportadora americana, diz que está perdendo cerca de US$ 50 milhões por dia. 

Algumas companhias aéreas de bandeira já foram resgatadas: a Alitalia foi nacionalizada (novamente), Dubai resgatou a Emirates e a Singapore Airlines levantando capital com o apoio do Temasek, o fundo de riqueza soberana da cidade-estado. A TUI, uma operadora de turismo alemã que tem uma frota própria, recebeu 1,8 bilhão de euros (US$ 2 bilhões) em empréstimos garantidos pelo Estado. 

Nos Estados Unidos, onde são obtidos dois terços dos lucros globais das companhias aéreas, o lobby vigoroso ajudou as transportadoras a garantir seu próprio pacote personalizado. Uma combinação de US$ 50 bilhões em empréstimos e doações foi destinada para mantê-las no ar. Elas terão direito a apoio financeiro nas folhas de pagamento durante seis meses, muito mais que em outros setores.  

A American Airlines disse que esperava US$ 12 bilhões do governo. As transportadoras concordaram em reter funcionários até outubro, cortar salários do alto escalão e interromper os pagamentos dos acionistas até o final de 2021. Algumas podem ter que dar ao governo uma fatia das ações (ou títulos que se convertem nelas) em troca de dinheiro, embora os termos precisos ainda devam ser especificados.

As únicas outras empresas americanas com direito à ajuda financeira são aquelas consideradas "cruciais para manter a segurança nacional". Isso soa como um eufemismo para a Boeing, a problemática fabricante de aeronaves dos Estados Unidos. Mas outras indústrias, sem dúvida, reivindicarão o rótulo de "cruciais" para si. Dizem que os produtores de petróleo, sofrendo com os baixos preços do petróleo, estão tentando.

Em outros lugares, algumas montadoras são suscetíveis de apresentar um caso semelhante. Assim como as companhias aéreas, elas são nomes conhecidos que estão no centro de ecossistemas complexos com milhões de funcionários. Os governos ignoram seus apelos, caso venham a acontecer, por sua conta e risco. 

E eles podem: a demanda por carros pode cair cerca de um sexto este ano e é improvável que se recupere rapidamente. A alemã Volkswagen diz que está perdendo 2 bilhões de euros por semana. Como a Renault da França e outras, ela concedeu férias coletivas aos trabalhadores por meio de esquemas estatais. As empresas automobilísticas têm de quatro a dez semanas de caixa disponível, talvez o dobro do que se usassem linhas de crédito, de acordo com o banco de investimentos Jefferies. Isso pode não ser suficiente para enfrentar a crise sem ajuda.

O setor financeiro é o outro tradicional candidato, embora menos amado, ao apoio estatal. A responsabilidade das seguradoras durante a covid-19 ainda é incerta. Os políticos americanos estão pedindo às empresas de seguros que indenizem os detentores de apólices de proteção contra interrupções nos negócios. As empresas dizem que não cobrem pandemias e afirmam que podem perder cerca de US$ 400 bilhões por mês, se forem forçadas a fazer isso.

Estados como Ohio e Massachusetts estão ponderando leis que obrigariam os pagamentos. Estes teriam que ser acompanhados por um pacote de resgate. Pelo menos os bancos parecem mais sólidos, graças às regulamentações promulgadas após o colapso financeiro entre 2007 e 2009. Pela primeira vez, eles podem fazer parte da solução, e não do problema: os governos os estão usando como um canal para empréstimos garantidos pelo Estado.

O apoio que os bancos e qualquer outra empresa aceitarão prontamente está vindo na forma de regulamentos relaxados. Os credores estão recebendo ajuda de capital na Europa e nos Estados Unidos. Países da França à Coreia do Sul proibiram os investidores de apostar em quedas no preço das ações, para deleite de muitos CEOs. Alguns regulamentos ambientais nos Estados Unidos foram dispensados. As companhias aéreas europeias mantêm slots valiosos nos aeroportos, mesmo que não os estejam usando conforme necessário. Steven Mnuchin, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, disse que o auxílio se baseia em três meses de paralisações. Mas ninguém sabe se isso será suficiente.

Grande parte da generosidade do governo será espalhada entre milhões de pequenas empresas. Pizzarias, academias, floristas e empresas semelhantes fechadas estão enfrentando meses de perda de receita. Poucos eleitores se opõem a que o dinheiro público seja usado para pagar trabalhadores demitidos ou dispensados, como na Europa ou nos Estados Unidos, e para fornecer subsídios para empresas que mantêm funcionários.

Na realidade, os programas que as autoridades venderam como uma maneira de salvar os pequenos comércios de família também podem ajudar os grandes negócios. Na Alemanha, a Adidas, uma fabricante gigante de equipamentos esportivos, tentou usar uma medida criada para suspender o pagamento de aluguel de pequenas empresas para algumas de suas lojas (ela voltou atrás depois que as notícias vazaram). As redes de hotéis americanas ganharam o direito de tratar cada localidade como um negócio separado - e com isso o acesso a auxílios financeiros destinados a empresas com menos de 500 funcionários.

Muitas empresas mais fortes preferem ajuda financeira do setor privado. Aquelas com sólidos balanços na Europa e nos Estados Unidos levantaram US$ 316 bilhões em títulos com grau de investimento em março, segundo a Dealogic. Embora algumas empresas mais estáveis e experientes no mercado financeiro devam pagar cupons altos, muitos rendimentos permanecem razoáveis.

Algumas empresas com perspectivas mais difíceis também podem obter dinheiro. A Carnival, uma operadora de linhas de cruzeiros cujo preço das ações caiu 83% este ano, está levantando US$ 4 bilhões por meio da venda de títulos (em parte hipotecando seus navios), assim como com novas participações. Os mercados estão cobrando um preço alto por esse apoio. Enquanto permanecerem dispostos a apoiar as empresas à beira do abismo, os contribuintes podem ser poupados de grandes pagamentos - e os governos, da vergonha por ajudar grandes empresas não tão amadas.

*TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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