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Governos que se comportam mal

O governo grego está se comportando de maneira impossível. Não é preciso ser um europeu bem informado para perceber esse fato. Mesmo nós, a milhares de quilômetros dos eventos, podemos ver que Tsipras & Cia estão agindo erraticamente.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2015 | 02h05

Na semana passada, o governo grego e seus credores estavam a centímetros de um acordo. Aí veio a bomba do primeiro-ministro anunciar um referendo que deixou o acordo na estaca zero. Na quarta-feira, Tsipras voltou com uma nova proposta fazendo mudanças apenas cosméticas no documento da semana anterior, antes de anunciar na televisão que ele votaria contra o próprio acordo no domingo.

Não espanta que o Eurogrupo tenha suspendido as discussões. Quem em sã consciência negociaria com essa gente?

O comportamento esquizofrênico do governo grego deu margem a toda sorte de psicanálise política. O Syriza (partido político de Tsipras) é dominado por ex-estudantes absolutamente radicais. É um partido de euro-socialistas fundamentalmente hostis ao mercado. É um partido de ex-comunistas mais confortáveis com Vladimir Putin do que com (o presidente do Eurogrupo) Jeroen Djisselbloem. E assim por diante.

Mas a verdadeira explicação é mais simples. O governo grego está se comportando de maneira impossível porque está diante de uma escolha impossível.

Por um lado, ele pode aceitar o acordo em oferta. Mas, se o fizer, isso só condenará a economia a mais alguns anos de depressão. O Produto Interno Bruto (PIB) grego já encolheu 25%, tão ruim como na Alemanha nos anos 30. Se os impostos não forem aumentados e os serviços públicos cortados, a economia só se contrairá ainda mais. Serviços públicos básicos ficarão indisponíveis. Num país onde 1 em cada 10 habitantes já não tem acesso a assistência médica, isso é inaceitável.

Em seu pronunciamento na quarta-feira à noite ao povo grego, Tsipras concluiu que "as sereias da destruição estão chantageando vocês para dizerem sim a tudo sem nenhuma perspectiva de sair da crise". A retórica é lamentável. Mas ele tem razão.

Por outro lado, o governo pode rejeitar esse acordo, como seguramente fará se a maioria votar pelo "não" no domingo. Os controles de capitais serão endurecidos, os habitantes perderão acesso a gasolina, remédios e alimentos importados. Os bancos, depois de implodirem, serão nacionalizados por um governo sem capacidade para geri-los. As autoridades emitirão promissórias, lançando o país na rampa para a Grexit (saída da Grécia do euro).

Esse não é bem um conjunto de eventos capaz de aumentar a confiança e encorajar o investimento. De novo, uma economia já devastada se contrairá ainda mais.

Pergunte a alguém se ele prefere a morte por um esquadrão de fuzilamento ou por injeção letal, e provavelmente não receberá uma resposta racional. Agora, ponha-se no lugar do Syriza.

A melhor maneira de se esquivar de uma resposta racional é oferecer uma alternativa positiva. Nesse caso, uma resposta positiva teria três elementos.

Primeiro, as instituições abandonariam sua insistência em superávits orçamentários para saldar dívidas e reduzir o endividamento. Transferir recursos para credores estrangeiros só faz reduzir a demanda de uma economia grega que precisa desesperadamente de gastos para crescer. A Grécia poderia ter um orçamento equilibrado, não ser obrigada a conseguir um superávit de 1% este ano, subindo para 3,5% em 2018. Se isso significar que a dívida não será paga, que assim seja.

Segundo, o acordo com as instituições precisa ser mais favorável ao crescimento. Pedir que o imposto sobre valor agregado cobrado por hotéis seja elevado para 23%, por exemplo, não é a maneira de melhorar a competitividade do setor de turismo. De novo, o foco precisa ser em fazer a economia crescer, não em pagar os credores.

Terceiro, as camadas mais pobres da sociedade deveriam ser protegidas. Isso significa verificação dos rendimentos de pensões e isentar os aposentados mais pobres de novos cortes. Significa não impor cegamente cortes salariais dos funcionários públicos com menor remuneração em nome da descompressão salarial do setor público.

Diante de uma alternativa razoável, o governo grego ficará mais propenso a se comportar racionalmente. Se não desta, da próxima vez. / Tradução de Celso Paciornik

* É professor de economia e ciências políticas na Universidade da Califórnia, em Berkeley

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