Coluna

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'Grande desafio é controlar a inflação'

Jim O'Neill, economista-chefe do Goldman Sachs e criador dos 'Brics'

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

Para Jim O"Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, o grande desafio dos Brics no momento é controlar a inflação. Criador do acrônimo Brics (o conjunto de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China), ele acha que há pressões inflacionárias e crescimento excessivamente acelerado em três daqueles países: Brasil, Índia e China). O"Neill conversou ontem com o Estado, por telefone, de Londres, às vésperas do início da cúpula de chefes de Estado dos Brics, em Brasília.

O que o sr. acha dessa segunda cúpula dos chefes de governo dos Brics?

Me sinto trapaceado por não ter um convite pessoal para ir à Brasília ? é uma brincadeira, claro. Na verdade, me sinto excitado e, ao mesmo tempo, um pouco espantado pelo fato de que essa simples sigla que criei tenha se tornado algo tão grande.

Como o senhor vê o potencial dos Brics como grupo político?

Acho que é muito limitado, porque são países muito diferentes em termos políticos. Então, é difícil terem uma atuação conjunta. Por outro lado, o simples fato de que estejam se encontrando é em si mesmo útil, porque demonstra ? ou deveria demonstrar ? para o FMI, para o Banco Mundial, para a ONU, que ainda não temos uma estrutura ótima de governança global. O simples fato de que os Brics se encontrem é uma poderosa mensagem de que o mundo precisa de mais mudança. Apesar de não ter muita lógica política, eles têm tanta legitimidade quanto o G-7, senão mais.

Por quê?

Porque os Brics são 16% do PIB global, o que é mais ou menos 65% dos Estados Unidos. Antes de 2020, serão coletivamente tão grandes quanto os EUA. Além disso, é onde está o crescimento rápido da economia e do consumo. Os Brics, individualmente, são maiores do que o Canadá, que está no G-7, e a China está prestes a se tornar maior do que o Japão. Não faz sentido que o G-7 ainda seja visto como mais importante que os Brics.

E quanto ao G-20?

Eu diria que, de certa forma, a existência dos Brics é a razão de termos o G-20. E nós deveríamos ter um novo G-7 no qual os quatro Brics aparecessem individualmente, junto com os Estados Unidos, o Japão e a União Europeia (UE), como um membro. Mas, em última instância, o que importam são as instituições reais. Aquilo que é do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial mudando, para ter maior representação desses países. Que esses países sejam grandes jogadores à mesa, com poderes que reflitam seus PIBs.

Alguns analistas dizem hoje que a Rússia não deveria estar nos Brics.

Isso é ridículo. É claro que merece. A Rússia foi muito mal na crise mas, na última década, seu crescimento do PIB, em termos absolutos, foi maior que o do Brasil. Dizem que sua população está encolhendo, mas, ainda que encolha, não cairá abaixo de 100 milhões, e a Rússia é hoje o país mais populoso na vizinhança da Europa. Na verdade, a Rússia provavelmente será a quinta ou sexta maior economia nos próximos 20 anos.

Há também a cobrança de que outros emergentes sejam considerados Brics, como Indonésia.

Há cinco países que são interessantes nesse contexto: Indonésia, México, Turquia, e dois outros muito controversos: a Nigéria e o Irã. Mas acho que nenhum dos cinco aproxima-se, nem remotamente, de ser tão importante quanto os quatro Brics. Muita gente fala da Indonésia, mas não faz sentido. A Turquia é maior economicamente que a Indonésia.

Quais são os grandes desafios econômicos para os Brics?

Acho que três deles, até o fim deste ano, têm o mesmo desafio. A China, a Índia e o Brasil encaram o desafio de garantir que a inflação não suba demais.

E por que chegaram a esse ponto?

Porque o crescimento está acima do potencial, está forte demais, acima da tendência de longo prazo. De certa forma, eles estimularam demais as economias. E isso ocorreu porque estavam compreensivelmente preocupados, depois da crise ? exatamente como todo mundo. Esses países fizeram a coisa certa, mas agora é o momento de ter estratégias de saída.

Como esses três Brics estão administrando até agora esta ameaça inflacionária?

Está OK, mas o grande teste ainda está pela frente. No Brasil, acho importante que o Banco Central comece a apertar logo a política de juros. Nesse sentido, a reunião (do Copom) de abril será muito interessante,Hum, OK, mas o teste está vindo à frente. Eu acho importante que eles comecem a apertar logo, e o resultado da próxima reunião, em abril, será muito interessante.

No caso do Brasil, a saída da fase de estímulo poderia incluir a política fiscal?

Boa pergunta. Acho que seria muito sensato ao Brasil apertar a política fiscal. Ajudaria a frear a economia, sem pressionar tanto a política monetária e a taxa de câmbio. Eu suspeito que isso não vá ocorrer em ano eleitoral, mas faria sentido.

Como o senhor vê as eleições no Brasil em 2010?

Não tenho opiniões fortes sobre os dois candidatos principais, mas acho importante que, quem quer que ganhe, faça duas coisas: manter a força do apoio para um banco central independente e tentar reduzir o papel do governo na economia.

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