Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

Grandes demais para existir

Os quatro grandes brasileiros são os mais rentáveis dentre os maiores bancos do mundo

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 04h00

Bernie Sanders venceu as primárias democratas em New Hampshire, e é favorito para vencer a votação em Nevada no fim dessa semana. Na concorrida disputa do Partido Democrata para escolher o adversário de Donald Trump este ano, Bernie é por ora quem tem as maiores chances de levar. Uma de suas propostas: dividir os grandes bancos americanos em partes menores.

Na proposta que apresentou como senador, os bancos teriam dois anos para se desfazer de ativos e caberem abaixo de um limite. O projeto foi apresentado no aniversário de 10 anos do socorro do governo americano aos bancos. Era uma provocação: se o socorro era necessário porque os bancos não poderiam falir sem levar junto parte da economia americana – argumento conhecido como “grandes demais para quebrar”, para Bernie os bancos são então “grandes demais para existir”.

Se passados os dois anos os bancos não emagrecessem sozinhos, o próprio governo os dividiria. A proposta afetaria seis bancos, incluindo o Bank of America, o Citi e o Goldman Sachs. Para o professor do MIT Simon Johnson, ex-economista-chefe do FMI, a divisão dos bancos em pedaços menores traria “mais competição, melhores serviços e menores riscos para a economia americana”. A lógica não é nova nos Estados Unidos: nos anos 80 a gigante de telecom AT&T se viu obrigada a se desfazer de parte de seus ativos em pleno governo Ronald Reagan, em benefício da competição.

Ainda nas primárias presidenciais dos democratas, a também senadora Elizabeth Warren tem proposta parecida, mas mais moderada: promete restringir novas fusões de bancos. Warren fez a própria carreira política na defesa de consumidores de instituições financeiras contra práticas vistas como predatórias. Ajudou a criar, no governo Obama, o Consumer Financial Protection Bureau – um órgão especializado e independente sem equivalente no Brasil.

Por aqui, o tema da concentração bancária volta à tona com a divulgação do lucro dos quatro grandes bancos em 2019: quase R$ 90 bilhões. Desde o “annus horribilis” de 2016, o crescimento foi de cerca de 60%. Nas contas da consultoria Economática, os quatro grandes brasileiros são os mais rentáveis dentre os maiores bancos do mundo (retorno sobre o patrimônio líquido, ROE).Estudo recente dos pesquisadores Gustavo Joachim e Bernardus Van Doornik conseguiu isolar os efeitos da concentração bancária, ao comparar municípios semelhantes que foram afetados de forma diversa por fusões e aquisições de bancos entre 2005 e 2015. Nas cidades em que a concentração bancária aumentou, também aumentou o spread (diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro e os juros que cobram dos consumidores). Como consequência, o emprego diminuiu nessas localidades.

O achado é especialmente interessante à medida que a queda expressiva da Selic não é plenamente sentida por famílias e empresas tomadoras de empréstimos. Os bancos advogam que os spreads altos pouco decorrem do lucro, sendo a principal causa a inadimplência. Tributos, custos administrativos e compulsórios também responderiam por parte do problema. Ainda, argumenta-se que o setor também é concentrado em outros países e que, no Brasil, outros setores são ainda mais concentrados que o bancário.

Para 2020, a expectativa é de lucros menores, por conta da reforma da Previdência (que aumentou a contribuição social sobre o lucro) e o limite aos juros do cheque especial imposto pelo Banco Central (BC). De fato, o BC tem tocado uma agenda de redução do custo do crédito, e de aumento da competição. Desde a gestão Ilan, as agendas BC+ e BC# já implantaram medidas como o cadastro positivo, a duplicata eletrônica e a simplificação das regras do compulsório – e apoiaram fintechs. 

A ampliação da portabilidade dos empréstimos, a partir de abril, e o Sistema Financeiro Aberto (open banking), previsto para este ano, são emblemáticos desse esforço. Elas têm a vantagem de não precisar de aprovação do Congresso Nacional, ao contrário de medidas pró competição mais controversas como eventual privatização de bancos públicos com restrição à participação dos grandes bancos no processo ou uma versão brasileira do plano Bernie.

Na lição simples do Nobel Jean Tirole, o setor financeiro é o responsável por levar os recursos dos poupadores para as empresas mais promissoras, alocando e realocando o dinheiro até o seu melhor uso: “O sistema financeiro é, assim, um fator essencial para o crescimento econômico”. As reformas no sistema financeiro têm potencial grande sobre o PIB com uma vantagem importante em relação a outras reformas: não sofrem da mesma impopularidade. Joachim e Van Doornik, que isolaram o efeito da concentração no spread, estimam que se o spread brasileiro fosse compatível com o de outros países seríamos 5% mais ricos.

* DOUTOR EM ECONOMIA

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