Ricardo Teles/Vale
Complexo da Vale no Pará; empresa antecipou pagamento de cerca de 3 mil pequenos e médios fornecedores. Ricardo Teles/Vale

Grandes empresas viram 'bancos' de fornecedores que não obtêm crédito

Vale, Renner e a Bosch decidiram antecipar pagamentos a clientes de menor porte que ficaram sem caixa, mas que não tiveram acesso a linhas emergenciais de financiamento

Eduardo Laguna, Especial para o 'Estadão/Broadcast'

08 de julho de 2020 | 05h00

A dificuldade apontada pelas pequenas empresas em acessar as linhas de crédito emergenciais do governo fez recair sobre os grandes grupos empresariais o papel de financiador das atividades de seus fornecedores e distribuidores. Enquanto, de um lado, houve dilatação nos prazos de cobrança dos clientes da distribuição que tiveram estabelecimentos fechados nas cidades em quarentena, de outro, a necessidade de garantir o fluxo de suprimentos no retorno das atividades vem exigindo a antecipação de pagamentos a fornecedores que sofrem com a insuficiência de caixa em razão do longo período de interrupção dos pedidos.

Linhas de antecipação de recebíveis foram abertas por empresas de diferentes cadeias produtivas como a mineradora Vale, a varejista Renner e a fabricante de autopeças Bosch.

“Várias iniciativas de crédito foram lançadas, mas sem efetividade. Até agora, a indústria consegue funcionar sem grandes quebras de abastecimento em razão, simplesmente, de um grande acordo interno, pelo qual um ajuda o outro”, comenta Fernando Pimentel, presidente da Abit, entidade que representa a indústria de produtos têxteis, um setor que chegou a manter apenas um terço do parque produtivo ativo em meio à paralisação do comércio de vestuário.

Segundo Pimentel, a cadeia de tecidos e vestuário tem cerca de R$ 20 bilhões em crédito gerado internamente – ou seja, em transações a prazo que não passam pelos bancos. “Só que isso não é suficiente, porque as empresas ficaram 90 dias sem faturar e agora precisam de capital de giro para retomar as atividades. Por mais ações que você faça, nada substitui o crédito bancário. São ações que deveriam ser apenas complementares”, afirma o executivo.

Entre as iniciativas de apoio ao funcionamento da indústria têxtil, onde as micro e pequenas empresas são 85% do total, a Renner, maior companhia de varejo de moda do País, colocou de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões em crédito a fornecedores. Ao mesmo tempo, recorre a uma linha do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ampliar o alcance da ação.

A Vale, por sua vez, antecipou os pagamentos de aproximadamente 3 mil pequenos e médios fornecedores. Para os serviços ou materiais entregues até o fim de maio, a mineradora diminuiu em até 85% o prazo de pagamento.

Pagamento antecipado. Na Bosch, um programa permite que parte dos fornecedores receba, antes do vencimento, as faturas emitidas à fabricante de sistemas automotivos. “Esta medida tem o objetivo de ajudar a ajustar o fluxo de caixa do fornecedor neste momento por meio do acesso rápido aos pagamentos futuros", comenta Giulianno Ampudia, diretor de compras da Bosch América Latina. Segundo ele, a taxa cobrada na antecipação do recebível é “extremamente atrativa”.

Mas como os grandes grupos também sofreram o baque da pandemia nas finanças, há limitações, por esse tipo de ação acentuar o descompasso entre receitas (adiadas) e despesas (antecipadas), abrindo buracos no capital de giro.

Por isso, muitos preferem apoiar a cadeia através de soluções alternativas que não passem pelo caixa, atuando mais como um facilitador para que o crédito chegue por diferentes caminhos às empresas em dificuldade. Desde 15 de junho, por exemplo, o BNDES recebe pedidos de grandes empresas, entre elas o da Renner, interessadas numa linha desenvolvida pelo banco para irrigar cadeias produtivas. Nela, uma empresa-âncora – de menor risco e, portanto, com acesso às melhores condições de financiamento – toma o crédito e o repassa a baixo custo a fornecedores e distribuidores da cadeia. Até o momento, porém, nenhuma operação foi contratada nesta modalidade.

Burocracia

O excesso de burocracia e a cobrança pelos bancos de garantias consideradas excessivas são citados por pequenas empresas e microempreendedores como os maiores obstáculos ao acesso das linhas de capital de giro mais baratas. Ainda que o governo tenha lançado fundos de garantias e o Banco Central (BC) tenha injetado uma soma de dinheiro sem precedentes no sistema financeiro, as empresas reclamam que o crédito não chega na ponta.

Em geral, a saúde financeira da cadeia de suprimentos tornou-se um dos principais focos de atenção da indústria na retomada da produção.

Conforme a Mercedes-Benz, montadora de caminhões e chassis de ônibus, a gestão de fornecedores críticos vem sendo um “tópico bastante ativo”. A montadora alemã informa que tem procurado oferecer ferramentas facilitadoras para ajudar fornecedores com dificuldades relacionadas a fluxo de caixa.

Além da quebra de receita, uma decorrência da parada brusca das vendas, a pandemia impôs custos não previstos no orçamento de adaptação aos novos protocolos de prevenção da covid-19 nas linhas de produção e estabelecimentos comerciais.

Na Gerdau, onde aproximadamente 4 mil fornecedores são microempresas, companhias de pequeno porte e microempreendedores individuais, a solução tem sido direcioná-los a uma plataforma online da fintech Monkey, que os conecta a potenciais compradores de recebíveis da siderúrgica.

“Cada fornecedor enfrenta uma realidade diferente e buscamos entender e agir de acordo com a necessidade de cada um deles”, afirma Vinícius Fernandes de Moura, gerente-geral de suprimentos da Gerdau. 

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'Crédito âncora' é opção para empresa manter cadeia produtiva na crise

Segundo BNDES, cresce demanda de grandes companhias que tomam empréstimos e repassam a seus fornecedores

​Aline Bronzati, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2020 | 05h00

A crise de liquidez gerada pela pandemia do novo coronavírus ressuscitou uma modalidade de empréstimo que pode fazer o dinheiro, de fato, chegar na mão de quem precisa e a um custo menor. Conhecido como crédito âncora, a estrutura une as duas pontas. De um lado, a grande empresa toma o crédito e do outro repassa à sua cadeia de fornecedores, emprestando o seu “risco” e a sua capacidade.

A procura pela modalidade tem crescido em meio à preocupação de grandes empresas com a sustentabilidade dos seus fornecedores. Em busca de meios para apoiá-los na travessia da crise gerada pela pandemia do novo coronavírus, o crédito âncora surge como alternativa.

“Na crise de 2008, grandes empresas, principalmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil, deram suporte aos seus fornecedores”, lembra o professor de finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Rafael Schiozer. “Agora, a gente está vendo o mesmo fenômeno, com grandes empresas preocupadas com a sua cadeia produtiva, em manter os fornecedores vivos.”

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já teria recebido a demanda de, ao menos, 35 empresas interessadas em obter crédito âncora, apurou o Estadão/Broadcast. Os grupos empresariais são de diferentes setores, como alimentação, varejo, indústria têxtil, aviação civil, tecnologia, mineração, turismo, sucroalcooleiro, dentre outros. Com tíquetes entre R$ 10 milhões e R$ 200 milhões, o banco de fomento espera contratar R$ 2 bilhões na modalidade.

Por ora, contudo, a linha lançada em 15 de junho ainda não teve nenhuma contratação. A demora ocorre porque, de acordo com uma fonte, as empresas interessadas estão se estruturando para repassar o crédito à cadeia de fornecedores.

Além disso, há dúvidas quanto aos impactos da modalidade para as grandes companhias. Entre elas, o acompanhamento do uso dos recursos, como será feita a tributação do empréstimo e os custos atrelados nas garantias que os grupos têm de apresentar para obter o empréstimo que será repassado.

“É um processo bem diferente. A própria empresa precisa se estruturar para emprestar e esse dever de casa está sendo feito no meio da pandemia”, diz uma fonte próxima ao BNDES.

Embora tenha todo o perfil de um “produto de crise”, a expectativa do banco de fomento é que o crédito âncora ganhe corpo mesmo passada a turbulência gerada pela pandemia. No passado, o BNDES chegou a estruturar duas operações – uma para o grupo O Boticário e outra para a Renner, mas a modalidade não decolou.

Além da crise, o cenário de juros baixos contribui para que o crédito âncora ganhe mais fôlego no País. Isso porque a despeito da queda da Selic, hoje em 2,25% ao ano, as pequenas e médias empresas têm dificuldade para tomar empréstimo – seja por não apresentarem garantias, seja pelo elevado custo para acessar os recursos.

“O mundo que vai chegar com juros mais baixos vai demandar condições diferenciadas e a questão do risco terá se der ajustada”, avalia o fundador da gestora Kobold, Fernando Ribeiro. “A característica empreendedora das pequenas empresas não pode ser um obstáculo, deveria ser uma alavanca para o crédito”, diz ele, que começou a estudar o crédito âncora há três anos.

No Banco do Brasil, a demanda das grandes empresas por linhas de antecipação de recebíveis de seus fornecedores tem ajudado a manter o fluxo de desembolso na modalidade, a despeito da crise. De acordo com o vice-presidente do banco, Walter Malieni, a instituição tem liberado mensalmente em torno de R$ 280 milhões, mesmo patamar do ano passado.

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Ministério da Economia estuda aumentar limite do BB e da Caixa no Pronampe

Programa é aposta de Bolsonaro para destravar o crédito para ajudar micro e pequenas empresas na crise; bancos estão entre os que mais emprestaram

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 05h00

O Ministério da Economia estuda ampliar o limite do Banco do Brasil e da Caixa Econômica no Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), aposta do governo Bolsonaro para destravar o crédito para socorrer micro e pequenos empresários na crise, apurou o Estadão/Broadcast com três fontes, que aceitaram falar na condição de anonimato. 

Juntos, os dois bancos públicos já emprestaram mais de R$ 5 bilhões. Os concorrentes privados, por sua vez, ainda não começaram a operar a linha.

O secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos Alexandre da Costa, admitiu ontem que os recursos do Pronampe terão de ser revistos. “Já estamos preocupados, porque recursos do Pronampe vão terminar em breve”, admitiu, durante audiência pública virtual da Comissão Mista do Congresso que acompanha as medidas ligadas à pandemia do novo coronavírus.

Diante disso, o Ministério da Economia teria solicitado ao Banco do Brasil, que administra o Fundo Garantidor de Operações (FGO), responsável por garantir as operações, rever os limites do programa. São duas consultas, explica uma fonte. De um lado, a pasta solicitou uma análise sobre a possibilidade de aumentar o limite dos bancos de maneira geral. Também pediu um estudo com foco somente no próprio BB e na Caixa, o que poderia elevar o limite apenas das instituições públicas, que têm sido as mais atuantes no Programa.

Recursos

O orçamento total do Pronampe é de R$ 18,7 bilhões, a partir de R$ 15,9 bilhões que foram aportados em recursos do Tesouro no FGO para serem utilizados como garantias. Cada banco tem direito a um pedaço desses recursos, que varia conforme o porte das instituições. “A divisão inicial foi simplista. Foi em torno de 20% para cada um dos cinco grandes bancos. Não faz muito sentido isto. Então, é natural um ajuste”, diz uma fonte, que prefere não ser citada.

O BB foi o banco que mais emprestou no Pronampe até agora. O banco contratou R$ 3,3 bilhões e espera alcançar o teto, de R$ 3,7 bilhões, ainda nesta semana. Em operações, já foram quase 54 mil, conforme informações exclusivas obtidas pelo Estadão/Broadcast. A Caixa liberou R$ 1,84 bilhão em um total de 22,32 mil contratos, de acordo com balanço do banco até às 19 horas de hoje.

Caso o limite de BB e Caixa seja alterado, a fatia para os rivais privados pode se reduzir. Gigantes como Itaú Unibanco e Bradesco, por exemplo, ainda não deram o pontapé na modalidade. As justificativas para não terem começado a operar o Pronampe vão de questões burocráticas, e que impedem a oferta em larga escala e em canais digitais, ao retorno da linha, considerado baixo.

A expectativa de alguns bancos era a de que parte dos entraves caísse com a aprovação de uma nova versão do regulamento do FGO, que garante as operações, esperada para essa semana. Do lado do retorno, o Banco Central flexibilizou as exigências de capital na modalidade como uma forma de torná-la mais atrativa para as instituições financeiras.

Na semana passada, o vice-presidente de agronegócio e governo do BB, João Pinto Rabelo, disse que o Pronampe havia atraído o interesse de 23 instituições financeiras. Desse grupo, 14 entregaram a documentação ao BB, que administra o Fundo Garantidor de Operações, e 5 já tiveram a adesão formalizada. 

O Pronampe é mais uma tentativa do governo Bolsonaro de fazer o crédito chegar às mãos dos micro e pequenos negócios. Procurado, o Ministério da Economia não comentou. BB e Caixa também não se manifestaram.

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