Tiago Queiroz/Estadão
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Grandes frigoríficos tentam ampliar controle sobre gado comprado de fazendas na Amazônia

Sob pressão, JBS, Marfrig e Minerva anunciaram programas para monitorar toda a cadeia de bovinos; investidores mostram preocupação com abate de animais  provenientes de áreas desmatadas 

Tânia Rabello e Augusto Decker, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 18h38

Sob forte pressão de investidores e ONGs, as grandes empresas de carne do Brasil estão lançando programas para ampliar o controle do gado que compram das fazendas da Amazônia. JBS, Marfrig e Minerva anunciaram projetos que vão tentar rastrear, desde o nascimento, todos os bovinos que compram, para evitar abater gado que, em algum momento, tenham passado por fazendas localizadas em áreas desmatadas, por exemplo.

No caso dos grandes frigoríficos, o maior “calcanhar-de-aquiles” para o monitoramento ambiental está em rastrear a origem do gado dos fornecedores indiretos, ou seja, aqueles que venderam o bezerro ou o boi magro para o fornecedor direto - que é o pecuarista que vende o gado para abate e já é bem monitorado. Caso esses animais sejam provenientes, em alguma etapa de sua vida, de áreas irregulares, acabam “contaminando” a imagem da indústria em relação à sustentabilidade e afugentando investidores. E é isso que essas novas iniciativas tentam conter.

Nesta quarta-feira, 23, a JBS, uma das maiores empresa do setor de carnes no mundo, lançou seu programa "Juntos pela Amazônia", que prevê, entre outras iniciativas, o uso da tecnologia blockchain - a mesma usada na negociação de criptomoedas - para criar um grande banco de dados de todos os seus fornecedores, diretos e indiretos. "Vamos buscar informações do fornecedor do nosso fornecedor, cruzando os dados com listas do Ibama e análises geoespaciais", disse o presidente global da JBS, Gilberto Tomazoni. "Isso permitirá 100% do controle da cadeia de fornecedores até 2025."

Na semana passada, outro gigante do setor, a Marfrig, havia anunciado iniciativa semelhante. Em outubro, deve entrar em funcionamento uma ferramenta que cruza dados e informações de satélites para localizar a origem e a movimentação de todo o gado abatido pela empresa, de fornecedores diretos e indiretos - incluindo as fazendas de cria (que produzem bezerros), de recria (que adquirem o bezerro e o mantém até ele virar boi magro) e de engorda (que vendem o gado para o abate).

"Mapas de risco já existem muitos, mas a grande novidade é justamente localizar a fase mais crítica da pecuária (cria e recria), para que possamos ser mais assertivos e fazer as ações voltadas a esta etapa da cadeia produtiva", disse o diretor de Sustentabilidade e Comunicação Corporativa da Marfrig, Paulo Pianez.

Já o Minerva, outro dos grandes grupos de carne do País, iniciou testes com o Visipec, ferramenta criada pela ONG National Wildlife Federation (NWF) e pela Universidade de Wisconsin-Madison, conta o diretor de Sustentabilidade da Minerva Foods, Taciano Custódio. "Os criadores do Visipec desenvolveram um software de avaliação que se baseia nas emissões de GTAs (guia de trânsito animal, documento exigido no transporte de animais) e em suas ligações”, disse. “Essa é a ferramenta mais promissora para monitorar o risco dos fornecedores indiretos.”

Por trás de todas essas iniciativas está a pressão cada vez maior de investidores nacionais e estrangeiros pela preservação da Amazônia. No caso da JBS, por exemplo, essa pressão já teve efeitos práticos. Em julho, o grupo Nordea, com sede na Finlândia, anunciou a exclusão do grupo brasileiro de todos os fundos que administra. Um dos argumentos para isso foi exatamente o risco de desmatamento na cadeia de fornecedores.

Segundo Tomazoni, da JBS, já há uma base de 50 mil pecuaristas parceiros na região amazônica que trabalham dentro das regras da empresa. E a política atual de “compra responsável” já havia conseguido excluir 9 mil propriedades que não estavam em conformidade com regras ambientais e sociais. “É um sistema que funciona, é eficiente, mas que não monitorava o fornecedor indireto de gado, em razão do desafio tecnológico que isso impunha.” O objetivo, com o novo programa, é preencher essa lacuna.

Os problemas ambientais da cadeia da carne na Amazônia já tinham entrado no radar dos grandes bancos. Itaú Unibanco, Bradesco e Santander lançaram este ano um plano conjunto para discutir um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. E deixaram claro que a questão seria crucial na liberação de financiamentos, por exemplo. "Não vamos financiar (as empresas) dessa cadeia que estiverem nessas condições. Vamos montar um plano para desestimular o consumo de gado criado em área ilegal", disse o presidente do Itaú, Candido Bracher, em entrevista ao Estadão no mês passado.

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