Grandes oportunidades no mundo empresarial

Continuamos trabalhando com um cenário de vigoroso crescimento mundial em boa parte do mundo. Certamente, ainda há muitas incertezas no ar, seja na área de petróleo, da inflação, sobre o futuro do Japão e do euro, apenas para mencionar alguns exemplos. Entretanto, apenas o petróleo nos parece capaz de reverter o cenário de crescimento.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

Contrastando com os grandes debates macroeconômicos, o que se observa no mundo empresarial é uma grande atividade e forte efervescência, típicas das viradas de ciclo. Nesses momentos avança a consolidação dos setores mais maduros e há uma explosão de novas atividades, resultantes de saltos tecnológicos e de novas demandas da sociedade. Nesse último caso, a questão do aquecimento global e a demanda por tecnologia e produtos "verdes" representam a grande novidade.

A redução das margens em ambiente de grande competição, recessão e crédito curto implica a consolidação de setores mais tradicionais. O melhor exemplo dos dias de hoje, a meu ver, é o complexo minérios-metais-setor automotivo, onde sabemos que sobreviverão nos próximos anos apenas alguns grandes grupos. O mercado brasileiro é um bom indicador desse processo, pois, além da questão das margens, os últimos três anos solidificaram de vez a percepção de que o mercado dos emergentes é que vai puxar o consumo mundial nos próximos anos. Grande número de operações de fusões, aquisições e parcerias tem como origem a consolidação e a reestruturação geográfica das novas empresas.

Entretanto, o jogo principal está na emergência do novo, e este, como se sabe, decorre em larga medida da revolução da tecnologia da informação, da comunicação e da sociedade em rede. Adicionalmente, ocorrem grandes avanços na biotecnologia, na área de materiais e na nanotecnologia, entre outros.

Esses avanços estão redefinindo atividades tradicionais, por exemplo, de mídia impressa para digital, de lojas físicas para virtuais e criando atividades completamente novas (Google, Facebook, Linkedin, Twitter, Skype, sites de compras coletivas, etc). Novas empresas (start-ups) estão novamente crescendo de forma explosiva, e agora com muito mais base, pois o número de usuários cresceu extraordinariamente e já existem vários modelos de negócios consolidados, não se parecendo, pois, com a bolha de internet do século passado.

Admite-se, também, que essa revolução está afetando mais o setor de serviços (tanto em serviços para os consumidores como serviços para empresas) do que a indústria. Esta já vem sendo afetada, desde os anos 90, pelo resultado da integração da mecânica com a informática, gerando equipamentos inteligentes, pelos controles de processos e de qualidade da produção e pela possibilidade de se criar uma cadeia de produtos muito descentralizada e cooperativa, resultando numa produção mais barata, mas com qualidade e grande eficiência.

É no setor de serviços que se espera ser possível obter grandes ganhos de produtividade. Uma boa análise dessa questão está em recente trabalho do McKinsey Global Institute (Growth and Renewal in the United States). Comércio, logística e o complexo da saúde são vistos como os setores que darão saltos de produtividade, criando novas oportunidades. Tratei da questão do "cluster" da saúde neste espaço em setembro do ano passado. Assim, a modificação da lógica e das estruturas dos mercados continuará a se realizar de forma intensa nos próximos anos.

O mesmo fenômeno ocorre no Brasil: as mudanças da economia mundial e as transformações pelas quais passa o País abrem espaço para uma tremenda atividade empresarial, a despeito das nossas incertezas macroeconômicas. A maior causa individual da movimentação das empresas é a mudança no tamanho do mercado local, decorrente do aumento do emprego, da incorporação de novos consumidores e da expansão do crédito.

Esse crescimento do mercado reduz as barreiras à entrada e atrai novos "players". Por exemplo, na área de higiene e beleza, é grande o número de novas empresas bem-sucedidas, inclusive no mercado porta a porta; o mesmo ocorre na chamada indústria criativa, como a produção de desenhos e filmes. Ao mesmo tempo muitas empresas estrangeiras, incluindo as de mercados emergentes (colombianas, mexicanas, etc) investem aqui para participar dos novos mercados de consumo. A chegada das montadoras chinesas é também um exemplo bem vistoso desse movimento.

O crescimento do tamanho do mercado, ao mesmo tempo, permite amplas oportunidades de consolidação, como se observa nas áreas de educação, saúde, turismo e eventos.

Também decorrem do crescimento do tamanho do mercado maiores possibilidades de especialização e busca de foco e produtividade através da terceirização de atividades. Gestão de frotas empresariais e logística de porta a porta são exemplos bastante visíveis.

Finalmente, o crescimento de muitas empresas permite transformar uma área de suporte ou uma divisão menor em uma nova companhia, o chamado "spin off". O melhor exemplo desse movimento é a Multiplus, que nasceu da transformação do Cartão Fidelidade da TAM em uma empresa que gerencia programas de fidelização de várias companhias, e que abriu recentemente seu capital na Bolsa.

Além das oportunidades derivadas do tamanho do mercado, existem aquelas derivadas de mudanças na dinâmica populacional. Nesse caso, vale lembrar o processo de envelhecimento da população (e daí novas demandas em produtos e serviços) e a importância de novos arranjos familiares. Hoje, apenas a metade dos domicílios brasileiros corresponde a famílias tradicionais, ou seja, casal com filhos. A outra metade divide-se, em partes aproximadamente iguais, entre casais sem filhos (ou bem jovens ou em domicílios de onde os filhos já saíram), pessoas que vivem sozinhas e em domicílios onde apenas a mãe vive com as crianças. Como consequência, novas demandas aparecem e muitas empresas são criadas para atendê-las: serviços especializados, apartamentos pequenos direcionados a clientes com alto poder de compra, produtos com embalagens menores, etc.

Ao mesmo tempo, nas grandes cidades existem deseconomias de aglomeração (um nome técnico para o popular congestionamento), tornando os deslocamentos muito custosos. A volta das lojas de bairro e os serviços à distância, incluindo o comércio, são respostas a essas oportunidades.

Finalmente, a manutenção da abertura ao exterior permite melhor incorporar as novidades tecnológicas, fornecer e comprar em diversos países, alterar modelos de negócio, importar produtos com menor custo, atrair parceiros e financiadores de novos projetos, entre outras coisas. Resulta daí a grande atividade empresarial e de negócios a que estamos assistindo, mesmo em momentos de certas incertezas macroeconômicas.

Embora o setor de serviços e a indústria mais ligada às cadeias de recursos naturais (agronegócio, minérios e metais, óleo e gás) sejam os mais beneficiados nesta situação, os fatores acima mencionados podem ser de grande utilidade num esforço de melhorar a competitividade sistêmica do País. No fundo, temos de escolher entre o caminho alemão, que superou o desafio dos custos altos com maior eficiência e comércio, ou o da Argentina, que encolhe cada vez mais na tentativa de proteger seu envelhecido sistema de produção industrial.

ECONOMISTA E SÓCIO DA

MB ASSOCIADOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.