Grau de investimento pouco muda projeções de analistas

A euforia que levou a Bovespa a subir mais de 6% no dia do anúncio do grau de investimento brasileiro pela agência Standard & Poor''s restringiu-se aos negócios com ativos e pouco se refletiu em alterações estruturais nos cenários macroeconômicos para este ano. Passada uma semana - e a surpresa com o momento em que a S&P tomou a decisão -, o que restou para os analistas foi a confirmação de que a melhora da nota já estava embutida nas estimativas de 2008, ainda que fosse aguardada pela maioria apenas para o segundo semestre.Em suma, o clima no mercado é de "eu já sabia", e muitos dos que tiveram de revisar suas planilhas o fariam com ou sem grau de investimento, já que o anúncio pela Standard & Poor''s foi feito no último dia de abril, quando muitas casas rotineiramente refazem seus prognósticos e, coincidentemente, é o prazo final do Banco Central para que as instituições entreguem suas previsões para a cotação do câmbio do mês seguinte.DólarA propósito, se é possível apontar uma variável entre as que mais sofreram alguma mudança, o câmbio é o exemplo. Mesmo assim, de maneira bastante sutil. A Agência Estado consultou 26 instituições e, em apenas seis delas, houve alteração da projeção do dólar para baixo, ainda que economistas contem com um viés para eventuais reduções. A análise é a de que a possível enxurrada da moeda acabe por valorizar ainda mais o real. Vale lembrar que o câmbio tem sido a maior surpresa para os especialistas, pelo menos nos últimos 12 meses.O economista-sênior do Banco Cooperativo Sicredi, Alexandre Barbosa, faz parte da corrente de especialistas que fez mudanças apenas nas previsões para o câmbio e, mesmo assim, muito mais por conta da data crítica de entrega das previsões ao BC, que compila os dados na chamada pesquisa Focus. "Há praticamente apenas uma mudança em relação ao câmbio, de R$ 1,72 para R$ 1,68. Mas sempre fazemos isso na data para a Focus e o investment grade (grau de investimento, em inglês) é apenas mais um, entre diversos motivos, que provocaram essa alteração", comentou.Na LCA Consultores, o economista Francisco Pessoa revisou a previsão de câmbio para o curtíssimo prazo, de R$ 1,67 para R$ 1,65. No entanto, para o ano, a LCA ainda mantém a sua previsão para um dólar cotado a R$ 1,60. "Essa é a expectativa com que a LCA já trabalhava antes do investment grade", disse Bráulio Borges, outro economista da LCA.Conta correnteUma instituição que alterou todas as projeções para os indicadores (câmbio, balança comercial, conta corrente, investimento estrangeiro direto e taxa Selic) foi o Unibanco, mas - conforme destacou o economista Darwin Dib - as mudanças tiveram mais relação com a rotina de atualizações do banco do que com a notícia. "Foi uma coincidência e, se houve uma correlação direta, esta foi com o câmbio", destacou.Muitos dos profissionais apresentaram a expectativa de forte déficit em conta corrente este ano como contraponto ao movimento de declínio do dólar. Da amostragem da AE, nenhuma instituição modificou sua previsão por causa do grau de investimento. Aqui, contam os analistas, o que prevaleceu foi a avaliação de que existe uma aceleração da velocidade recente da deterioração das contas externas.Balança comercialA piora não preocupa os profissionais, pelo menos por enquanto. O que está por trás destes números negativos das transações é justamente a expectativa de um saldo enfraquecido da balança comercial deste ano (de US$ 17,5 bilhões a US$ 28,8 bilhões). A balança, por sua vez, sofre influência direta do aumento da demanda, que busca nos produtos importados a válvula de escape do consumo.Para o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, as modificações que ele promoveu após a confirmação do grau de investimento da S&P, tanto para a balança comercial (de US$ 22,400 bilhões para US$ 21,200 bilhões) como para o déficit de transações correntes (US$ 19,900 bilhões para US$ 24,700 bilhões), têm muito mais ligação com a "deterioração das variáveis do setor externo" do que com a influência do novo selo garantido pelo Brasil. "E é justamente por causa desta piora que continuei com uma projeção ainda considerada elevada para o dólar comercial, de R$ 1,80", disse, apostando num reflexo das contas externas na moeda, ironicamente o motivo pelo cenário um pouco mais desfavorável para superávits comerciais.IEDNa avaliação de Campos Neto, apesar de ele não ter promovido revisão, o total aguardado para o investimento estrangeiro direto (IED), de US$ 32,000 bilhões, é uma variável que é forte candidata a uma modificação de estimativa. "Não descartaria uma elevação, já que é onde haverá uma das maiores influências do grau de investimento. Por isso, o viés é de alta", salientou.O indicador cuja previsão de resultado robusto para este ano só foi fortalecida com a nova nota da S&P foi o IED. As projeções revelam um intervalo de US$ 27 bilhões a US$ 35 bilhões. O melhor desta expansão é que ela significa a chegada de recursos de longo prazo e que tendem a ampliar as riquezas do País, elevando o produto potencial. Uma das projeções mais baixas foi apresentada pela Ativa Corretora, mas, segundo o economista-chefe da instituição, Arthur Carvalho Filho, a estimativa poderá ser ampliada com a expectativa de que os investimentos em carteira subirão.SelicExiste um consenso de que nada mudará na condução da política monetária. Há quem aposte todas as fichas em que foi a autonomia do BC a chave de ouro para que a agência de classificação fornecesse a elevação da nota ao País. A independência foi provada, mais uma vez, no mês passado, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a Selic em 0,50 ponto porcentual, para 11,75% ao ano - expectativa minoritária do mercado. Portanto, a avaliação é a de que esta não é hora de mexer em time que está ganhando."Nada muda no cenário de curto prazo para a política monetária", identificou a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli, para quem a Selic chegará ao final do ano em 12,75% ao ano. "A notícia é ótima e já era esperada, mas não altera nosso quadro de demanda forte, o que tem feito o BC subir os juros", avaliou.

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