François Lenoir/Estadão
François Lenoir/Estadão

Grécia pede adiamento de pagamentos ao FMI

Tsipras ainda negocia acordo com credores internacionais; Fundo aceita agrupar dívida de junho, de 1,6 bilhão de euros, a ser paga dia 30

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2015 | 18h31

PARIS - Sem dinheiro e ainda sem acordo com seus credores internacionais, o governo da Grécia pediu nesta quinta-feira, 4, para retardar até o final de junho quatro pagamentos devidos ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao longo do mês, Atenas precisaria reembolsar à instituição um total de € 1,6 bilhões, cuja primeira parcela teria vencimento hoje. Mas, sem liquidez em caixa e sem um entendimento com Bruxelas, o primeiro-ministro Alexis Tsipras foi obrigado voltar atrás em sua palavra e a solicitar um atraso formal para evitar a moratória.

O pedido foi revelado no início da noite desta quinta-feira e surpreendeu a imprensa europeia. Na noite de quarta-feira, Tsipras havia sido questionado se o país estaria em condições de reembolsar os € 303 milhões com vencimento nessa sexta-feira. A resposta do premiê foi interpretada como um sim: "Não se preocupem", disse o líder radical de esquerda ao deixar um jantar com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o coordenador do fórum de Finanças da zona do euro (Eurogrupo), Jeroen Dijsselbloem.

Nesta quinta-feira, porém, a direção do FMI divulgou uma nota oficial na qual informou o pedido grego. "Segundo uma decisão de nosso diretório adotada no final dos anos 1970, os países-membros podem pedir para reagrupar diferentes reembolsos devidos em um mês", dizia o comunicado, ressaltando que a solicitação não pode envolver os juros da dívida. "A decisão respondeu à dificuldade administrativa engendrada por esses múltiplos reembolsos em um período de tempo restrito".

Além do pagamento devido em 5 de junho, a Grécia deveria fazer transferências ao FMI no dia 12, de € 341 milhões, no dia 16, de outros € 568 milhões, e no dia 19, com uma nova remessa de € 341 milhões. De acordo com Gerry Rice, porta-voz da instituição, uma nova data foi fixada para todo acertar as contas. "As autoridades gregas informaram o fundo hoje que planejam reagrupar os quatro pagamentos de junho em apenas um, que agora tem vencimento em 30 de junho", disse Rice, revelando que esse procedimento não foi requisitado desde a solicitação feita pela Zâmbia, nos anos 1980.

Horas antes, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, havia afirmado que estava confiante sobre o compromisso de Atenas de respeitar o vencimento de 5 de junho, ressaltando que os credores internacionais vinham demonstrando "uma flexibilidade considerável" em relação à Grécia. Segundo a diretora, a instituição havia concordado com a desaceleração do ritmo de redução dos déficits fiscais - o que na prática significa alongar o período de ajuste orçamentário, suavizando os efeitos negativos das medidas de austeridade impostas pelos principais credores internacionais - FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu (BCE).
Temores. O pedido joga ainda mais dúvidas sobre se o governo radical de esquerda não declarará moratória ao final do mês e alimenta temores de que a Grécia poderia deixar a zona do euro. Por outro lado, o adiamento dá mais tempo ao governo de Tsipras para negociar com o Euroworking Group, o grupo de técnicos de 19 países que tenta chegar a um acordo sobre as reformas a serem implementadas pelo governo de Tsipras. Desse entendimento depende a liberação de € 7,2 bilhões, referentes à última parcela do plano de resgate assinado pela Europe e o FMI em 2012.
Por enquanto, Atenas mantém o veto a duas exigências dos credores internacionais: a primeira seria o corte de um abono pago pelo Estado às aposentadorias de mais baixo valor - um total de € 1,8 bilhão, equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB). A segunda, o aumento do imposto sobre o consumo, que chegaria a 23% para alguns produtos e renderia até € 950 milhões por ano aos cofres públicos. Insatisfeito com a pressão, Tsipras recusou as duas medidas na quarta-feira. "Ideias que consistem em reduzir os programas sociais para baixas aposentadorias ou em aumentar em até 10% o preço da eletricidade não são uma boa base de discussões", reclamou o premiê.
Segundo jornais gregos como Ta Nea e Ekathimerini, alas mais à esquerda da Coalizão Radical de Esquerda (Syriza), principal partido da base de sustentação de Tsipras, pressionam o primeiro-ministro para que não aceite um acordo com o FMI. "O que parece ter sido discutido e proposto por Jean-Claude Juncker está aquém de nossas expectativas em todos os pontos", afirmou à TV grega o ministro dos Transportes Marítimos, Thodoris Dritsas, um dos críticos do acordo. "Se essas informações se confirmarem, é evidente que não poderemos aceitá-las."

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, disse que as conversas sobre a dívida da Grécia ainda estão longe de uma conclusão. "As conversas estão em andamento, possivelmente com alta intensidade", afirmou Merkel. "Mas elas ainda estão longe de uma conclusão."  Falando de um local de descanso do governo alemão perto de Berlim, Merkel recusou-se a comentar os relatos de que o atual pacote de ajuda à Grécia pode ser estendido até o outono europeu. "Estamos tentando chegar a uma solução e, quando houver uma, nós informaremos a vocês", disse Merkel.  

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