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Gilles Lapouge
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Grécia, da retórica aos atos

Atenas, capital da Grécia, ofereceu na noite de domingo um espetáculo que a Europa já perdeu o hábito há anos: na noite das eleições gerais, uma multidão comemorou a vitória agitando grandes bandeiras vermelhas. E assim entrou para a história do continente este surpreendente jovem agitado (40 anos), Alexis Tsipras, que em poucos anos forjou, criou e levou ao triunfo um partido que não existia, o Syriza, uma formação de esquerda que lançou uma ofensiva brutal contra a gestão da crise da dívida pela União Europeia que há anos só traz sofrimento para a Europa.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2015 | 02h04

O remédio prescrito por Bruxelas para enfrentar essa crise foi a austeridade. E depois disso? Austeridade. O problema é que, quando a austeridade é imposta a um país pobre e em frangalhos como a Grécia, ela equivale a um calvário. Levantando-se audaciosamente contra o sofrimento grego, o jovem Alexis Tsipras, que nasceu depois do fim da vergonhosa ditadura grega dos "coronéis" e votou nas suas primeiras eleições no Partido Comunista, reuniu uma série de pequenos partidos furiosos e desordenados e deu-lhes um chefe, deu-lhes palavras. "Tsipras é como Maradona, é o que se diz em Atenas. Ele formou uma equipe mediana e levou-a ao topo."

A Europa, incrédula, depois sarcástica, mais tarde surpresa e atônita, assistiu ao avanço de um partido antieuropeu. De um lado (para os chefes políticos, os patrões, os banqueiros), a boa sorte de Tsipras era uma comédia e um desastre ao mesmo tempo. Mas de outro (para as esquerdas da esquerda) ao contrário, tratava-se de uma "divina surpresa".

Domingo em Atenas o espetáculo foi impressionante: Tsipras proferiu um belo discurso e certamente uma multidão com bandeiras vermelhas e gregas estava feliz, mas com uma certa gravidade, como se dúvidas e temores já começassem a pesar sobre a viabilidade do programa do Syriza. Ora, nas mesmas concentrações de pessoas de Atenas, ou em outras capitais europeias, pelo contrário, os estrangeiros estavam entusiasmados. Na Praça Klafthmonos, em Atenas, jovens italianos envolvidos em escarlate faziam mais barulho do que a Grécia inteira.

Entre os políticos, o francês Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, manifestou-se em diversos canais de TV e, como o melhor orador da França, não escondeu sua alegria. Não só anunciou para toda a Europa muitos "amanhãs que cantam", mas também, ficou tão inebriado que víamos o momento em que ele tomaria o poder em Atenas, mesmo precisando dar uma função de conselheiro a Tsipras.

A relativa reserva dos gregos e do seu líder Tsipras é sinal de maturidade. Eles sabem que vão dar início aos "doze trabalhos de Hércules" ao mesmo tempo e que as dificuldades não terminaram. E agora devem passar da retórica aos atos. Portanto a primeira precaução de Alexis Tsipras foi esfriar um pouco sua retórica, como esfriamos um motor que esquenta. Encontrar o caminho estreito que combine o sonho e a realidade. Nada fácil.

Essa "desaceleração" do discurso já começou há algumas semanas. Há seis meses, Tsipras havia anunciado a saída da Grécia da Europa, a entrada da Grécia no paraíso terrestre, com frutas mirabolantes, bilhões e bilhões de euros distribuídos aos pobres e total desprezo por Bruxelas e seu bando de chefes ridículos que governam a Europa.

Mas, no decorrer do tempo, a "realidade" começou a corroer os "territórios do sonho". Já não era mais questão de abandonar a União Europeia, nem mesmo de expor ao desprezo público todos os líderes que dirigem a Europa. Não era nem mesmo questão de anular, de uma penada, a dívida monumental sob a qual a Grécia está esmagada, sobretudo depois que Angela Merkel decidiu reduzir esta dívida graças a uma austeridade que obstrui a máquina produtiva do país.

Será caso de temer que o exuberante inimigo da União Europeia liberal, em contato com as delícias e os delírios do poder vai se converter numa espécie de "social-democrata"? Não há nenhuma razão para acreditar nisto.

Melhor pensar que no momento, tendo conquistado o poder, o jovem dirigente do Syriza vai negociar com a maior firmeza possível, desconfiará de posições radicais e dogmáticas, sempre com o mesmo objetivo: desatar as amarras da União Europeia e da zona do euro mesmo se as últimas decisões audaciosas do Banco Central Europeu (BCE) levem a crer que enfim a sacrossanta ortodoxia financeiras das margens do Reno "não decolou".

Além disso, os capítulos do programa do Syriza sobre os quais Tsipras silenciou nas últimas semanas não desapareceram completamento. Permanecem ocultos nas sombras, mas prontos para retomar o serviço caso a Europa entenda que poderá ignorar o que ocorreu na Grécia no domingo.

Por exemplo, a ideia de abandono da zona do euro poderá ressurgir e se tornar uma importante ameaça.

Angela Merkel, que ainda não se manifestou após a vitória do Syriza, não deve ignorar isso. Além disso, se ela pensou que o obstáculo havia sido superado, ontem os gregos na Praça Klafthmonos a lembraram, com suas bandeirolas, que ele persiste: "Gute Nacht, Frau Merkel". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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