Grécia deve aceitar prolongar socorro

24 horas após chamar de 'absurda' proposta da UE para renovar por seis meses plano de resgate, governo Tsipras recua e deve selar acordo

Andrei Netto, correspondente de Paris, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2015 | 02h02

Um dia depois de classificar de "absurda" e "inaceitável" a proposta da Comissão Europeia de estender o plano de resgate econômico de € 172 bilhões, o governo da Grécia recuou e deve assinar um acordo hoje, em Bruxelas. A decisão foi revelada pelo jornal grego 'Ekathimerini' após 24 horas de forte pressão internacional, com novas ameaças de quebra do sistema financeiro, default de pagamento e de "Grexit" - a saída do país da zona do euro e da União Europeia.

Em tom moderado, oficiais do governo radical de esquerda do primeiro-ministro, Alexis Tsipras, informaram que apenas trechos do documento apresentado pelo fórum de ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo) eram considerados inaceitáveis, mas um entendimento seria possível. Horas antes, falando ao Parlamento, em Atenas, o premiê havia recusado as pressões e afirmado que seu governo manteria o programa eleito em 25 de janeiro, que incluía a recusa das medidas de austeridade fiscal.

"Pela primeira vez, nosso país tem sua própria voz, que também tem sido ouvida nas ruas da Europa", justificou Tsipras aos deputados. "Eu digo mais uma vez: nós vamos honrar nossas promessas de mudança", acrescentou.

O discurso, porém, foi realizado no mesmo momento em que, em Bruxelas, técnicos da Comissão Europeia e do governo grego discutiam os termos do acordo, com a intermediação do comissário europeu de Finanças, Pierre Moscovici. "Nós vamos pedir uma extensão do atual acordo de resgate dentro do proposto pelo Plano Moscovici", confirmou ao jornal Financial Times uma fonte ligada às negociações.

O entendimento prolongará até 28 de junho o programa de resgate assinado entre Atenas e a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2011. Esse memorando de entendimento venceria em 28 de fevereiro e ainda prevê o repasse de uma última parcela, de € 7 bilhões, do total de € 172 bilhões. Em troca, Atenas terá de manter um programa de reformas nos anos de 2015, 2016 e 2017, terá de cumprir suas metas de superávit fiscal e manterá os pagamentos aos credores públicos e privados em dia.

A vantagem, para Tsipras, será poder deliberar sobre as reformas que realizará, sem ser obrigado a cumprir as ordens da Bruxelas. Atenas já anunciou, na semana passada, a criação de um programa nacional de reformas com apoio da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Pressão. Na segunda-feira à noite, o Eurogrupo havia dado um ultimato ao governo grego para que aceitasse a proposta até a sexta-feira. Na manhã de ontem, o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, chegou a afirmar que, em no máximo 48 horas, os europeus apresentariam "uma verdadeira proposta" para iniciar negociações de um novo contrato. As declarações do ministro provocaram críticas em várias capitais da Europa, que acusaram Atenas de "jogar pôquer" em lugar de enfrentar a realidade da economia.

Na segunda-feira, um estudo do banco americano JP Morgan indicou que o sistema financeiro da Grécia estaria com um problema de liquidez. Dos € 108 bilhões colocados à disposição pelo BCE para suprir as necessidades mais emergenciais, € 80 bilhões já teriam sido consumidos - em especial em saques realizados pela população.

Por causa das incertezas, a bolsa de valores de Atenas operou em forte queda ontem, fechando com uma desvalorização de 2,45%.

Já a maior parte das bolsas europeias fechou estável ou em alta na sessão de ontem, com os investidores ainda demonstrando confiança em um acordo entre a Grécia e a UE.

"A expectativa é que, ao final, um acordo seja feito", disse Paul Donovan, economista do UBS. Em Paris, o CAC-40 teve elevação de 0,04%. Em Lisboa, o avanço foi de 1,48%. Na Bolsa de Madri, o Ibex-35 subiu 0,08% e, em Milão, o FTSE-MIB ganhou 0,47%,.

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