Thierry CharlierAFP
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Novo plano de resgate de € 86 bilhões provoca crise política na Grécia

Acordo para manter o país na zona do euro, que prevê a privatização de € 50 bi em ativos e um plano de ajuste fiscal de € 13 bi, deve levar o premiê grego, Alexis Tsipras, eleito com a promessa de pôr fim à austeridade, a perder a maioria no Parlamento

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2015 | 05h32

Atualizado às 22h22

PARIS - O acordo firmado com a União Europeia para evitar a expulsão da Grécia da zona do euro causou na noite desta segunda-feira um racha na coalizão que sustenta o primeiro-ministro Alexis Tsipras e abriu a perspectiva de uma nova crise política no país. 

A turbulência veio à tona 12 horas após o governo radical de esquerda assinar em Bruxelas um entendimento que prevê um terceiro plano de resgate de até € 86 bilhões e o reescalonamento da dívida de € 320 bilhões em troca de um programa duríssimo de austeridade e de privatizações. Parceiro na base de sustentação, o partido de extrema direita Gregos Independentes anunciou que votará “não” ao acordo.

O novo socorro da Grécia foi selado ao término da mais extensa reunião de cúpula da história da União Europeia (UE). Depois de 17 horas de negociações tensas, nas quais o país esteve à beira de ser expulso da zona do euro, Atenas e Bruxelas fecharam um acordo que prevê um amplo programa de reformas econômicas e um plano de rigor fiscal avaliado em € 13 bilhões, além de privatizações que somarão € 50 bilhões. 

Em troca, os credores internacionais - Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) - aceitaram conceder uma linha emergencial de financiamento de € 12 bilhões para que a Grécia possa sair da condição de default de pagamentos e honrar os compromissos de junho e julho. Além disso, o sistema financeiro receberá € 10 bilhões em injeção de liquidez nos próximos dias e um pacote de socorro que totalizará entre € 82 bilhões e € 86 bilhões será negociado. Por fim, a dívida grega deverá receber um período de carência e o reescalonamento de seus vencimentos.

‘Isso é um golpe’. Embora tenha evitado a saída da Grécia da zona do euro, o programa causou revolta entre partidários do “Não” no plebiscito realizado há 10 dias. Nas redes sociais, o movimento #thisisacoup, ou “Isso é um golpe”, ganhou força ao longo do dia, além de adesões de dissidentes da Coalizão Radical de Esquerda (Syriza), o partido de Tsipras. À noite, um protesto contra o acordo foi organizado na Praça Syntagma, no centro de Atenas, e o sindicato dos funcionários públicos anunciou uma greve para amanhã, dia em que o acordo será votado no Parlamento. 

A onda de críticas se tornou um princípio de crise política quando o ministro da Defesa, Panos Kammenos, líder do partido Gregos Independentes, que garante a maioria ao governo, disse que não apoiará Tsipras na votação. “O acordo fala em € 50 bilhões de garantias em bens públicos, de modificações de leis comportando até o confisco de habitações”, disse o extremista de direita. “Não podemos aceitar isso.”

Na prática, a aprovação do acordo com a União Europeia não está ameaçada porque partidos como To Potami (O Rio, de centro), Socialista (Pasok, centro-esquerda) e Nova Democracia (direita) devem votar a favor. Mas, para governar, Tsipras precisa de maioria no Parlamento, o que deve perder se a defecção dos Gregos Independentes se confirmar. Uma das hipóteses é de que a coalizão seja repactuada, com a entrada de novos partidos, ou de convocação de eleições antecipadas.

Quebra de promessa. Nesta segunda-feira, desde as primeiras horas da manhã, Tsipras saiu em defesa do acordo, que quebra sua maior promessa de campanha: o fim da austeridade fiscal e da “intervenção” da UE e do FMI no país. “A Grexit (saída da Grécia da zona do euro) é coisa do passado”, disse Tsipras após a maratona de negociações. “Eu prometo reformar a Grécia. A batalha foi dura e ainda será. A população deve apoiar nossos esforços. É um acordo de recessão, mas o pacote para o crescimento e o novo empréstimo nos ajudarão”, disse Tsipras, que prometeu “continuar a lutar contra a oligarquia que mergulhou o país nessa situação”.

Em várias partes da Europa, a imprensa definiu o acordo como uma humilhação sem precedentes para Tsipras e para a Grécia. A revista alemã Der Spiegel o classificou de “catálogo de atrocidades”. Em várias capitais da Europa, a postura conciliatória do presidente da França, François Hollande, que jamais aceitou discutir a hipótese de “Grexit”, foi elogiada, enquanto a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, foi criticada por seu excesso de rigor. Em Bruxelas, Merkel chegou a ser questionada se o acordo que impôs não seria um novo “Tratado de Versalhes”, uma referência ao compromisso que encerrou a 1.ª Guerra Mundial, humilhando a Alemanha. “Eu não concordo com as comparações históricas”, respondeu. “Nós não estamos em uma Europa alemã.”


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