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Grécia enfrenta crise bancária após veto de garantia com títulos públicos pelo BCE

Ações de bancos chegaram a cair até 30% na abertura de mercado no primeiro grande revés enfrentado pelo novo governo de Alexis Tsipra

Fernando Nakagawa, correspondente, O Estado de S. Paulo

05 Fevereiro 2015 | 08h14


LONDRES - O Banco Central Europeu (BCE) surpreendeu o mercado ontem ao divulgar regras mais duras para oferecer liquidez aos bancos da Grécia. Com a decisão, a instituição presidida por Mario Draghi impõe o primeiro grande revés ao novo governo de Alexis Tsipras e aumenta a pressão sobre os bancos do país que já sofriam com a desconfiança dos depositantes e credores. A medida do BCE reforça a aversão ao risco e as principais bolsas da região continuam em queda, especialmente na periferia europeia.

Na noite de ontem, o BCE anunciou que deixará de aceitar títulos da dívida grega como garantia nas operações tradicionais de oferta de liquidez ao sistema bancário. A decisão não era esperada pelos analistas. O BCE explicou a decisão pela mudança nas condições econômicas da Grécia gerada pela intenção do governo de renegociar a dívida, o que potencialmente reduz a segurança dos títulos emitidos e garantidos pelo país.

"A decisão do Conselho do BCE foi baseada no fato de que atualmente não é possível assumir uma conclusão bem sucedida da revisão do programa e isso está em linha com as regras existentes no Eurosistema", diz o comunicado divulgado pelo BCE. Na prática, o BCE deixou de aceitar os títulos da Grécia e bancos gregos terão de entregar papéis de outros países se quiserem tomar dinheiro emprestado na instituição.

O comunicado informa que, mesmo com essa decisão, a Grécia pode usar um plano emergencial de oferta de liquidez para manter os bancos com capital adequado. "Para as contrapartes que não têm garantia alternativa suficiente, a necessidade de liquidez pode ser satisfeita pelo banco central nacional competente por meio de assistência emergencial de liquidez (ELA, na sigla em inglês) dentro das regras existentes do Eurosistema". Ou seja, o BCE sugere a troca da liquidez tomada em Frankfurt pelo crédito oferecido emergencialmente em Atenas.

Emergência. A ELA é uma operação que permite aos BCs nacionais oferecer liquidez emergencial em circunstâncias excepcionais. A operação foi usada pelo Chipre em 2013 e também precisa de aprovação do BCE. Mas, ao contrário de uma operação de liquidez tradicional oferecida pelo BCE - que é garantida pela União Europeia, eventuais perdas geradas pela ELA são arcadas exclusivamente pelo BC e pelo Tesouro do país em que foi realizada a operação. No caso, a Grécia.

Com o aumento da desconfiança, clientes retiraram volumes crescentes de depósitos e a oferta de liquidez para os bancos gregos caiu nas últimas semanas. Por isso, a demanda pelas linhas de crédito do BCE era crescente, dizem analistas. Sem essa linha de financiamento, a Grécia passa a ter um problema de curto prazo no coração da economia: os bancos. Alguns analistas mais pessimistas temem sobre o fôlego dos bancos e há quem não descarte até uma corrida bancária.

"Isso não terá implicações imediatas na liquidez dos bancos gregos porque eles podem acessar a ELA", diz o chefe de estratégia de câmbio do Saxo Bank, John Hardy. "Mas a mensagem é clara e forte e aumenta a temperatura de uma situação dramática. Podemos inferir que Mario Draghi não ficou impressionado com a postura do ministro de Finanças, Yanis Varoufakis, após a reunião entre os dois ontem. Pode-se imaginar que houve um choque muito grande de egos e Draghi não gostou da arrogância ou poderíamos até dizer da bravata de Varoufakis", diz Hardy.

A notícia derruba o mercado grego e, às 7h30 (de Brasília), as ações do sistema bancário do país perdiam quase 30%. O principal índice da Bolsa de Atenas recuava cerca de 10%. Entre as demais bolsas europeias, Londres cedia 0,52%, Frankfurt perdia 0,18%, Paris caía 0,52% e as perdas superavam 1% em Madri (-1,24%) e Milão (-1,19%). No mercado de moedas, o euro subia para US$ 1,1372 e a libra esterlina avançava para US$ 1,5237.

Ainda nesta manhã, os investidores na Europa vão acompanhar as últimas projeções econômicas da União Europeia e a decisão de política monetária do Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês), prevista às 10h (de Brasília).

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