Grécia já estuda 'arsenal' para o calote

Fontes próximas às negociações dizem que suspensão de pagamentos só poderia vir após UE criar um escudo de proteção para o euro

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / ATENAS, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h06

Um arsenal de medidas para permitir o "calote ordenado" da dívida da Grécia começa a ser pensado, tanto dentro do país como no exterior. Se a opção do calote for adotada, a meta principal é de que o euro saia intacto.

Segundo pessoas próximas às negociações, o calote parcial só poderia ser anunciado quando a UE criasse um verdadeiro escudo para evitar que o anúncio da medida acabe contagiando a Espanha, Portugal e Itália, além do próprio euro. A meta dos europeus é a de fechar esse novo mecanismo nas próximas seis semanas. Jornais ingleses chegaram a apontar ontem que o fundo poderia ter 3 trilhões. Mas em Atenas, economistas envolvidos no debate apontam que o número mais realista é de 1,5 trilhão a 2 trilhões. Isso, se a Alemanha e outros governos aceitarem destinar tais recursos ao fundo.

As reuniões do FMI e do G-20, em Washington, nos últimos dias serviram para aumentar a pressão sobre a Europa para que atue em uma solução definitiva para a crise, depois de ter já ganhado tempo com sucessivos pacotes, adiando o problema. A realidade, porém, é que esse prazo acabou.

O FMI pressiona a Europa para multiplicar por cinco o tamanho do fundo que criou para conter a crise da dívida no Velho Continente. Com o escudo em vigor, os ataques que seguiriam após a decretação do calote parcial grego seriam contidos pelos trilhões de euros, teoricamente suficientes para salvar a moeda comum e, ao mesmo tempo, dar uma solução para a Grécia.

Outra parte da estratégia seria ainda a de resgatar os bancos alemães e franceses, altamente expostos no mercado grego e detentores de uma parte substancial da dívida do país. O fundo europeu, portanto, seria também usado para socorrer esses bancos.

Internamente na Grécia, ordenar o calote também seria um desafio. Os gregos já pensam em decretar feriado bancário por alguns dias, justamente para evitar que o anúncio do calote parcial signifique uma corrida aos bancos, o que poderia gerar uma quebra total do sistema financeiro nacional. Desde janeiro, os gregos já retiraram de seus bancos 40 bilhões. Além disso, as reformas teriam de continuar a ser aplicadas, pelo menos para dar uma sinalização aos mercados de que o restante da dívida será paga e que um novo buraco nas contas não será criado nos próximos dez anos.

Na Europa, um número cada vez menor de pessoas acredita que a solução esteja perto. "É tarde demais para a Grécia. Suspeito que o país não terá como evitar um calote", disse Howard Davies, ex-presidente do BC britânico. "O fim da crise está cada vez mais distante", afirmou ontem o próprio primeiro-ministro grego, George Papandreou, em uma mensagem escrita aos Socialistas Internacionais.

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