Grécia leva Europa a repensar a 'doutrina alemã'

Eleito com a promessa de pôr fim ao extremo rigor imposto à Grécia, Tsipras pode provocar a flexibilização da política de austeridade

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h05

Depois que o radical de esquerda Alexis Tsipras chegou ao poder vencendo as eleições parlamentares na Grécia, em 25 de janeiro, a expressão "Troica" vem sendo banida das negociações políticas na União Europeia. Da mesma forma, o jargão "austeridade fiscal", encarnado pelo ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, começa a cair em desuso em Bruxelas. Três semanas após a mudança de poder em Atenas, o discurso contra a doutrina de extremo rigor fiscal começa a virar parte do passado.

A mudança foi perceptível na reunião de chefes de Estado e de governo da UE de quinta e sexta-feira. Nela, Schäuble chegou a reclamar, de forma irônica, que não podia mais empregar a palavra "Troica" para descrever o grupo de técnicos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que passaram os últimos cinco anos ditando ordens aos governos de Atenas.

Outras expressões, como "Memorandum" - nome dos acordos de socorro à Grécia, que somaram 240 bilhões -, vêm sendo barradas em Bruxelas por remeterem à "austeridade fiscal", tão criticada por Tsipras e tão desgastada frente à opinião pública internacional.

"Se é o desejo de nossos interlocutores gregos de não chamarmos mais a Troica de Troica, então os responsáveis alemães estão dispostos a se conformar", resignou-se na semana passada o porta-voz de Schäuble, Martin Jäger. Epicentro da defesa da austeridade fiscal, o Ministério de Finanças do governo de Angela Merkel ainda acredita que a mudança é apenas semântica. Mas as transformações são reais - e com elas a perda de influência da "Doutrina Schäuble".

Na semana passada, Tsipras recebeu em Atenas o secretário-geral da Organização para a Cooperação Econômica (OCDE), o mexicano Angel Gurria, de quem obteve o apoio para que a instituição e o governo radical de esquerda formem juntos uma "comissão de cooperação" capaz de decidir juntos as reformas a serem realizadas na Grécia - um papel que antes cabia à Troica. "Estamos aqui para trabalhar com e pela Grécia, não para dizer o que a Grécia deve fazer", disse Gurria.

Fôlego. Economistas consultados pelo Estado na Alemanha concordam no diagnóstico de que a política de rigor fiscal estrito, que vigorou na UE nos últimos cinco anos, está perdendo fôlego. O mais enfático deles é Sylvain Broyer, diretor de pesquisa Econômica do banco de investimentos Natixis em Frankfurt, para quem a eleição de Tsipras marca de fato uma virada na política econômica do bloco. "A Europa virou as costas à austeridade", diz. Para Broyer, a palavra "austeridade" está cedendo espaço à "flexibilildade" desde a revisão das regras orçamentárias pela UE realizada há 20 dias pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. "Esta já foi uma verdadeira mudança. As novas regras aceitam condicionar a velocidade da redução dos déficits em razão das reformas estruturais e da evolução do PIB", diz. "As normas de Bruxelas agora são inteligentes."

Manfred Nitsch, doutor em economia e professor da Universidade Livre de Berlim, também destaca as mudanças empreendidas por Juncker na Comissão Europeia, que incluem o plano de investimentos em infraestrutura, de 315 bilhões, anunciado em novembro. Ele lembra ainda a política de juros próximos a zero e de expansão monetária do BCE, que sob a direção do italiano Mario Draghi vai lançar no mercado um total de 1,14 trilhão nos próximos 20 meses. A esses fatores de mudança, soma-se a Grécia e seu discurso antiausteridade fiscal. "A política de Merkel e Schäuble era insistir na responsabilidade fiscal. Mas agora há um paralelo de forças", diz. "Já se sabe que vai haver um novo compromisso com a Grécia, e até a opinião pública da Alemanha começa a olhar para Tsipras de outra forma."

Mais contido, Malte Rieth, pesquisador associado ao Instituto Alemão para Pesquisa Econômica (DIW), de Berlin, acredita que "a austeridade não acabou, mas vão acontecer algumas mudanças". Segundo ele, a renegociação dos 316 bilhões em dívidas soberanas gregas deve resultar em prolongamento das maturidades, em redução dos juros e em mais tempo para a realização de reformas estruturais, porque "talvez a austeridade tenha ido um pouco longe demais". Mas, para Rieth, vai ser necessário continuar a lutar contra os déficits econômicos nacionais. "Estamos procurando uma nova política econômica na Europa", diz.

Os economistas alertam, contudo, que embora esteja conseguindo reverter a ênfase em austeridade fiscal, a margem de manobra da Grécia de Tsipras continua estreita. Apenas em 2015 há cerca de 25 bilhões em dívidas a reembolsar. E, para azar - ou sorte - de Atenas, seus maiores credores são entes públicos da própria Europa: a Alemanha, com 40 bilhões, e França, com 31 bilhões.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.